domingo, 24 de outubro de 2010

Operando...

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E prontos… Foi o que tinha de ser, como tinha de ser, como Deus quis que fosse, como estava escrito que haveria de ser (eu, como bom português, acredito no destino) ou então, foi como calhou. E foi bem. Correu bem. Está a caminho de ficar fino.

A médica disse-me que dentro da categoria das hérnias volumosas, não ganhou o 1º prémio mas atingiu uma posição cimeira e que o que mais a impressionou foi o estado da raiz nervosa, toda trilhada entre a dita cuja e o osso. Que as dores tinham de ser muitas e é tão bom quando nos compreendem, quando sentimos que foi mesmo assim e não tudo apenas produto da nossa imaginação. Foi sofrer a sério, foi ter privações, limitações e sacrifícios. Foi aguentar até não dar mais, até não ter mais paciência para tanta impaciência.

E eu estava naquela… Era a estreia absoluta em tudo. Primeiro internamento, primeira anestesia, primeira cirurgia… e estas são daquelas estreias que acho que ninguém quer ter. Abala daqui um gajo quando ainda o galo ressonava, atravessa o país, e vai assim rumo ao desconhecido, de mala aviada e sem sequer ter companhia para jogar uma bisca lambida. Não é fácil para ninguém. Para quem tem uma séria propensão para a hipocondria… pior.

Quando chego aquela zona da cidade só costumo ter olhos para as roulotes e para a catedral, de forma que nunca tinha sequer reparado que ali estava um hospital. A cegueira é tanta…

Situado no Alto dos Moinhos, o Hospital dos Lusíadas é uma estrutura ultra-moderna, recentemente inaugurada (2008) pertencente a um grupo privado que opera na área da saúde e que claramente se pode classificar como unidade de proa em Portugal. Tudo ali é, de facto, moderno e personalizado: da arquitectura aos interiores, da decoração à forma de atendimento. Tudo foi pensado ao mais ínfimo detalhe com o exclusivo intuito de agradar. À primeira vista, ninguém diria estar num hospital. Mais parece um hotel ou um spa. Nada de filas intermináveis, nada de camas apinhadas nos corredores, nem sequer vestígios do cheiro tão característico das unidades de saúde, a camas e medicamentos. Aqui as caras são sorridentes, as funcionárias são jovens, bonitas e vestem fardas, mais parecendo assistentes de bordo que outra coisa qualquer. Perante todo este cenário, o pensamento não pode ser outro: estou em boas mãos.

Por muito que nos consigam fazer pensar que o nosso bem estar é a prioridade e o objectivo último, todos nós sabemos que num negócio privado é o dinheiro que fala mais alto e assim sendo há que racionalizar, rentabilizar, lucrar o máximo… não há tempo a perder. Do programa constava comparência na quarta-feira para consulta com o médico anestesista, análises médicas (sangue, raio-x, electrocardiograma) e internamento ambulatório. O folhetinho Xpto disponível na sala de espera explicava que o internamento ambulatório é para os casos que eu designo de “tratar e andar”: sabemos o que tu tens mas não penses que vens p’raqui fazer sala. Fazemos o que temos a fazer e assim que provares que estás no bom caminho: “ala que se faz tarde” porque há outros que aguardam na fila. Pensando bem… até é bom que assim seja.

Depois de percorrer pelo meu pé as diferentes áreas onde haveria de obter os exames pretendidos, acabei por me instalar no quarto por volta da 1h e meia e às 15 h estavam a rebocar-me para o banco de ensaio. Presumo que no entretanto me foram ministrando uns pozinhos de perlimpimpim porque há medida que o tempo passava fui-me sentindo cada vez mais calmo, relaxado e com vontade de me deixar ir.

Numa das antecâmaras, umas senhoras de toucas plásticas na cabeça perguntou-me:

- “Então mas você não é atleta? Não corre? Como é que raio arranjou isto?”

- “Eu sei lá, senhora… Tenho pensado tanto… Excessos… Asneiras que a gente faz na vida. Pesos à toa… mochiladas de quilos quando era pequeno a caminho do ciclo, do liceu, da faculdade… alguns acidentes de mota e de carro e tonterias… bilhas do gás às costas… milhares de quilos de lenha de empreitada… e as corridas… o impacto do pé no chão que pode ter desencadeado esta reacção. Sabe que numa meia-maratona (fiz diversas…), o pé bate no chão mais de 35.000 vezes? Tanto corri que acabei por dar cabo do amortecedor…”

- “Ai ó (não sei quantas), ouviste o que este disse? Diz que deu cabo do amortecedor! (gargalhada geral). Esta está muita boa! Esta nunca tinha eu ouvido. Tenho de tomar nota e contar ao meu marido em casa.

A esta altura já eu me sentia como o E.T. do Spielberg quando os cientistas governamentais invadem a casa do Elliot. Tudo à minha volta eram tubos e contadores electrónicos, prateleiras metálicas e gente vestida de plástico da cabeça aos pés. Só via os olhos e tentava responder, o melhor que podia, às perguntas que me faziam.

- “Olha… que engraçado… tem duas andorinhas tatuadas. Muita giras! Quem fez?”

- “O Fontinha da Bad Bones, no Bairro Alto. O melhor tatuador de Portugal. São old school. Não se nota?”

- “Nota, nota! E querem dizer o quê?”

- “São as minhas filhas, a Leonor e a Alice” e nisto já respondia só com um olho aberto. Mais do lado de lá do que de cá…

Não sei que voltas mais demos à conversa que a última pergunta de que me recordo foi: - “e gostas mais da Ferrari ou da Porsche?”

-“Da Ferr…a…ri… é…ou..tr..a…cla…ss…e…”

- “Ai sim? Então boa viagem!”

E prontos. No segundo seguinte já estava no recobro, uma sala enorme com muitas camas onde diversas enfermeiras faziam ronda aos sinais vitais e ao estado dos pacientes. Foi num instantinho e de verdade que esta parte… não custou nada. Ainda me recordo da médica a sorrir, felicitando-me que tinha tudo corrido bem, envolta assim numa névoa como se fosse um sonho. Lembro-me de ter tentado balbuciar umas palavras mas a pedra ainda era enorme e não dava para muito mais.

Ao fim de meia hora já estava deitadinho no quarto, rondando as estações de rádio no telemóvel para ouvir o relato do meu Benfica com o Lion. Por incrível que pareça, parece-me que naquele estado de dormência em que ainda me encontrava, só consegui ouvir os dois golos que sofremos. Sendo assim… boa noite e até amanhã!

A 5ª feira foi dia para recuperar de toda esta aventura no meio de muito jornal, muita televisão, muita Praça da Alegria, muita Júlia Pinheiro, cházinhos de camomila e pacotinhos de bolachinhas Maria que estão para os hospitais como as bolas de Berlim estão para a praia. As funcionárias todas elas excelentes, as enfermeiras encantadoras, um asseio enorme, muita simpatia, as refeições belíssimas… Enfim… do melhor.

E eu, à custa de muito patuá, ainda consegui convencer uma das piquenas que prestavam assistência ao meu sector para me ajudar a encenar que estava instalado não ali mas no quarto do Benfica que não aluguei por me terem pedido mais 40 euros por dia. 40 euros?!?!? Para um sócio?!?!? Granda roubalheira! Com 40 euros estava uma semana a almoçar e jantar sandes de courato empurradas para baixo por girafas Sagres letra Z (de litro, as maiores que há!). Aquela malta não têm consideração por ninguém!

Ela disse-me que sim, mas ao fim de uma horas chegou-me lá toda aflita: “ó senhor, se quiser ver o quarto do Benfica tem de ser já porque vai entrar um inquilino”. Corramos, então! Por infortúnio já não tinha a cama, dado que gorou a sessão fotográfica, mas pelo menos deu para ver como é bonito e arejado e decorado com as cabeçorras dos nossos jogadores como se fossem gigantones do Minho. Não vale é o dinheiro, sobretudo depois da ensaboadela da noite anterior que não ajudava convalescença alguma mas isso aí…

Depois foi preparar o regresso e em menos de nada já estava de volta ao lar, com as minhas pequenas a fazerem-me companhia, que é como quem diz: melhor é impossível Tudo está bem quando acaba bem!

Espera-me agora um mês (ou mais…) de molho, sempre deitado, com autorização apenas para me levantar esporadicamente e nunca por um período superior a 15 minutos. Faço votos que depois de sexta-feira, quando tirar os 30 agrafos, possa ter uma alta mesmo que ligeira e guia de marcha para uma maior mobilidade que eu sei que isto custa a todos mas se há quem não foi feito para estar assim parado… fui eu.

Não gostaria de terminar este post sem fazer alguns apontamentos (até para minha memória futura) que me parecem oportunos:

Em primeiro lugar, agradecer a todas as pessoas, familiares e amigos, que se preocuparam comigo e com o meu estado. Obrigado aos que me ligaram, aos que rezaram, aos que enviaram sms, aos que aqui postaram as melhoras, aos que ligaram para minha casa, aos que estiveram comigo mesmo que apenas fosse em pensamento. OBRIGADO. MESMO! Eu ACREDITO que essa força toda junta foi indispensável para que as coisas tivessem corrido pelo melhor.

Um obrigado muito especial ao Carlos e à Fatinha que foram as primeiras caras que vi quando entrei no hospital. O conforto que se sente quando damos inesperadamente com rostos familiares num sítio que imaginamos inóspito, é indescritível. Eu tinha-lhes pedido para não irem e mesmo assim… foram. E ajudou imenso. Acreditem.

Outro obrigado às minhas tias que há quase 20 anos me fizeram companhia no comboio quando entrei na faculdade (levando o menino a Lisboa…), e passados estes anos todos (quem diria!) ainda têm força suficiente para me animar no hospital. Duas forças da natureza! Obrigado também à Rosa Maria e ao Manuel pelo fim de tarde tão agradável, em amena cavaqueira.

O meu óbvio obrigado à Dr.ª Anabela Nabais, com quem simpatizei de imediato e nas mãos de quem me senti tranquilo desde a primeira hora, pela sua simpatia e enorme profissionalismo. Obrigado a toda a equipa médica e a todos os profissionais do Hospital dos Lusíadas com quem privei.

Obrigado a todos os meus familiares que me apoiaram (mãe, sogros, cunhados, irmão, tias), às minhas visitas e sobretudo às minhas filhas (por me animarem) e à minha Cris, esta baixinha que é a mulher da minha vida, quase sempre calada e sorridente mas que é uma guerreira gigante, uma lutadora e uma valente que agora me leva ao colo e tem a casa às costas. Desculpa e mais uma vez, obrigado.

E para terminar, duas ou três notas:

1) Estar doente deve ser a coisa mais triste que há no mundo. Mais triste, só a morte. O doente fica debilitado e desanima. Vê a vida lá longe. Perde o ânimo e a vontade. Sente-se sozinho e esquecido, por mais acompanhado que esteja. Duas ideias me surgem daqui:
- Temos de aproveitar a vida o melhor que podemos, desfrutando de cada momento bom como se fosse o último e,
- Temos de ajudar mais que está doente e quem sofre nem que seja ouvindo, sorrindo, dando a mão. Sendo mais compreensivo. Eu prometo que vou fazer a minha parte.

2) Um conselho a quem padece de hérnias discais ou mal semelhante: não sofram mais! Não se deixem limitar pelo medo, não andem às cambalhotas de um lado para o outro a experimentar mil e um paliativos e mezinhas enquanto gastam rios de dinheiro, não se iludam e avancem! Eu também segui o conselho de outros antes de mim. Vale mesmo a pena! Para grandes males… grandes remédios!

3) Neste período em que tenho estado acamado tenho-me recordado com frequência de dois amigos, o César e o Henrique, que a estrada traiçoeira aprisionou para sempre a uma cama. Nesta minha reclusão momentânea tenho pensado, tenho tentado imaginar a extensão infinita do seu sofrimento e angustio-me só de o vislumbrar. É preciso ter uma força e uma coragem à prova de bala para conseguir seguir em frente. A eles também prometo que passarei a estar mais presente e a ajudar ainda mais.

Para finalizar, um abraço que jamais saberei se será entregue, ao meu companheiro de quarto, o Sr. João, a quem ainda consegui arrancar um sorriso fortuito na despedida quando lhe pedi desculpa por alguma coisa que tivesse corrido menos bem, desejando o seu restabelecimento e rápidas melhoras.

A vida é linda, é boa, é maravilhosa e eu tenho umas sapatilhas novas de corrida por estrear.

So help me God!

Beijos!!!!

9 comentários:

Ilda disse...

Fico muito feliz ao ler este teu post, pois percebe-se que tudo corre pelo melhor. Não liguei, nem mandei sms, mas no dia seguinte ao "evento", cedo soubemos que tudo tinha corrido como esperado (há pessoas que não se esquecem ...). Resta-me desejar-te rápida recuperação, com algum repouso, alguns analgésicos e muito mimo das tuas três meninas.
Beijinhos
Ilda & Familia

gi disse...

Fico feliz por saber que correu tudo bem. A vida e mesmo assim e por vezes e preciso meias solas para continuar. Permite-me somente um reparo ás condições existentes nesse hospital e noutros semelhantes privados,em relação as instalações e ao atendimento. Pensemos no que se passa no publico. Aqui podemos dizer que estão a anos luz. Se estar doente e debilitado e mau, sem condições e pessimo. Rápidas melhoras.

Helena Barreta disse...

Bem-vindo.

Ufa, já passou, agora é a recuperação que vai correr o melhor possível, os miminhos das suas meninas vão, com certeza, ser o melhor tratamento. As melhoras.

Um abraço

Paula disse...

Fico feliz que tudo tenha corrido bem.
Há algum tempo que acompanho o teu blog que, não raras vezes, me vai mantendo actualizada nas notícias da terra....
Os meus parabéns pela forma como vês o mundo e a vida e como o perpetuas no papel (ou melhor, na blogosfera).
Rápidas melhoras.

Jota disse...

Correu tudo bem, disso nunca tive dúvidas!!
Trata agora de recuperar... rápido, mas com juízinho.

Abraço

Felizardo Cartoon disse...

Boa recuperação, já está ultrapassado o pior!
Abraço!

celeste gaio disse...

Desejamos uma rápida recuperação com três assistentes nada faltará um grande beijinho para todos, força Cristina agora são três para cuidar mas tudo vai correr bem.

Celeste

conceicaobarreta disse...

Não me diga que gosta de tatuagens?E ainda por cima foi fazer á BAD BONES e com o senhor Fontinha gostei de saber só para arejar o ambiente mas boa que correu tudo bem,rápida recuperação.

tuga disse...

De vez em quando acompanho o seu blog e este post trouxe-me à memória o que vivi há um ano nesse hospital (faz um ano dia 11 Nov). A minha esposa também foi operada a uma hérnia discal volumosa pela Drª. Anabela Nabais. Foram horas que pareciam não ter fim. Ao menos temos o consolo de olhar pela janela e ver o Estádio do nosso GLORIOSO!!!
Boa recuperação