domingo, 6 de outubro de 2013

Meter a cruz




Não foi uma semana fácil. Entrou mal com as eleições autárquicas. Para colocar uma cereja no cimo do bolo, a minha Alice, do alto dos seus 3 anos, fez uma birra. Prendendo o burro, disse: “Os meninos lá na escola dizem que eu sou canhota.”

“Sério, filha?! E porque dizem eles isso? Se tu és destra em quase tudo e utilizas sempre a mão direita?”

(continuando a prender o asno…)

“Canhota (fazendo uma careta) quer dizer parva!”, avançou ela.

“ó filha… dizem isso a brincar contigo. Tu que és tão bonita, não te chateies que isso é o que eles querem.”

Toda a gente que vem aqui ler o que eu penso quer saber a minha opinião sobre as eleições. E eu quero-a dar. Sou livre e exerço essa liberdade. Este texto levou uma semana a ser cozinhado na minha cabeça. Aprimorado, aveludado, saboreado e só hoje, sábado, quando tenho as tropas todas acantonadas e a descansar de um dia em cheio da família em compras e passeio, posso sentar-me ao pc e ver as faúlhas desta fogueira virtual subirem pela noite fora.

Depressa e bem, não há quem. Ainda bem que nos primeiros dias desta semana não me precipitei e fiz como dizia sempre o meu velho que partiu antes de o ser: “deixa-os pousar.” Naquela noite de domingo, vi os primeiros resultados na cama porque ainda esperava abraçar um amigo que concorreu à câmara como eleito. Imaginava que a vitória seria muito difícil ou quase impossível mas jamais uma hecatombe desta profusão. Foi uma derrota difícil de digerir. Apostei num homem, num projeto e senti-me defraudado pela vontade de todos. Foi esmagador.

Contra isto, nada a fazer. Também ninguém me convence que a democracia, inventada na Grécia Antiga, é o mais justo dos sistemas políticos. Calma! Eu explico! O meu voto vale o mesmo que a cruz de uma pessoa que depende da câmara, que depende dos seus interesses e das suas decisões. Pois eu opino que os homens pensantes e bons, livres e independentes, solidários e coerentes deveriam valer mais votos como valem os votos dos sócios mais antigos nas Assembleias do Benfica. Não sei se estou a dizer uma alarvidade mas é aquilo em que acredito e quem fala a sua verdade, não merece castigo. Podem-me apelidar de xenófobo, ou o que queiram mas eu acho realmente isto.

Não me considero melhor que ninguém. Quem me conhece sabe que é assim. Acho-me eu. Para o melhor e pior.

A imagem que escolhi para ilustrar este desabafo é de um herói. Um homem que fez  o que me apetecia fazer naquela noite das eleições. Pegar na casa e fugir daqui. Esquecer que este concelho é o meu. Esquecer que aqui tenho casa, o emprego e a minha gente. Sair! Como fez o Carl do filme “Up” da Pixar que me comoveu às lágrimas numa sessão em Lisboa quando estreou.

Se tivesse escrito este texto próximo do epicentro do terremoto, perto do fim de Setembro, tinha soltado a bílis. Estava muito agastado e afetado pelos resultados. Ainda bem que não o fiz.

Custou-me mas o povo decidiu assim, está decidido. Nada a apontar. Sou mais democrata que o Luís Filipe Menezes que se arrastou na conferência da derrota a dizer que não está habituado a perder. No dia seguinte tive de ir à Câmara Municipal, cruzei-me como presidente vencedor e felicitei-o. Nos próximos 4 anos é o meu presidente também. O que passou, passou. Foi uma felicitação exclusiva porque é o chefe da equipa. Não há mais felicitações a fazer. A César, o que é de César.

Quero enterrar o passado e não lhe deixar nenhum braço de fora da terra. São apenas mais 4 anos mas que têm de representar um fim de ciclo de 12 anos. A lei assim o dita.

Temos de acreditar nas vitórias que a democracia nos traz. O Rui Moreira foi grande no Porto. A Adelaide Teixeira foi grande em Portalegre. Ajudaram a desmistificar a força dos partidos. Trouxeram ar fresco e um respirar.

Como me ensinou a minha treinadora de cabeças, temos de tirar das situações e das pessoas o mais importante, o que é realmente bom nelas. Alguns amigos ganharam, outros perderam mas continuámos a considerar-nos.
  
Quem ama o concelho, quem o quer bem como eu sabe que há que ter esperança no futuro porque há dois ou três ou quatro miúdos muito bons e com vontade de ajudar a crescer o concelho. Temos de os ajudar porque têm de ser eles a pegar-lhe. Eu sei que há muita gente que ainda fala comigo de soslaio e me incentiva mas já não estou para aí virado. O tempo de vida é muito curto. Sei-o melhor que ninguém. O tempo precioso é para mim e para os meus. Menos solidário e mais fechado na concha. Amando a envolvente mas o núcleo também.


E assim vamos vivendo, respirando. Um dia de cada vez. Não pedindo muito mais que isso. Para não nos sentirmos defraudados.

2 comentários:

zira disse...

Assim é que é.

Helena Barreta disse...

Saber ganhar é fácil, saber perder e aceitar as decisões da maioria é nobre.

Um abraço