quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Chupa... que é de melancia!

Aviso aos pais: Post para maiores de... vá lá... 16 anos e impróprio para cardíacos.
Depois não digam que eu não avisei!
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Eu não sei se isto acontece com as outras pessoas mas eu, de quando em quando, dão-me assim uns “vipes” em que me lembro de repente de coisas das quais aparentemente me esqueci.

Esta é uma delas.

Quando estivemos no Brasil, na nossa já saudosa viagem de geminação, apercebi-me que a malta nova de lá só ouve um género de música denominado forró que é assim uma espécie de corridinho acelerado com percussão, ferrinhos, cordas e uma concertina nervosa.

Como andávamos desejosos de saber tudo sobre tudo e sendo eu um apaixonado da temática, não descansei enquanto não apanhei as últimas novidades musicais.

A senhora da casa particular onde comíamos em Pedro II, que era uma jóia de pessoa, teve a amabilidade de me dispensar o dvd dos Aviões do Forró que bombava lá em casa de dia e de noite, que continha o êxito do momento : “Chupa que é de uva” e cuja letra diz qualquer coisa como “na sua boca eu viro fruta, chupa que é de uva, chupa, chupa, chupa que é de uva…”. Estão a ver, não é? Engraçado. São danados para a brincadeira…

Mas o hit mais desejado era mesmo o DJ Créu, cujo êxito homónimo “Créu”, virava loucura nas pistas de dança e rebentava nos tops de todo o país. O “Créu” é mais uma designação para “fazer-aquilo-com-que-nascem-os-meninos” e o dvd comprei-o numa banca de rua que lá no Brasil não há essas modernices da ASAE.

Como o carro fantástico da nossa Bya, a nossa ultra-profissional e ultra-querida e amiga guia (saudades…) tinha leitor de dvd, as viagens de 600 quilómetros em que eles diziam “é logo ali” pareciam assim menos monótonas.

No dvd do Dj Créu, ele ensina as 5 velocidades do “Créu” e conta, para tal façanha, com a colaboração de 2 beldades, uma das quais consta como sendo a “Garota Melancia”, alcunha que ganhou graças aos seus …eh… atributos traseiros.

Confidenciaram-me então que essa Garota Melancia seria capa da conceituada Playboy brasileira nesse mesmo mês, numa edição que já não iríamos apanhar nas bancas. E eu registei mentalmente. “Hum, hei-de dar uma olhada na Internet, só para checar o artigo, escrito, está claro de ver!”.

Nunca mais me lembrei… até hoje, de repente. Realmente, as fotos estão um deslumbramento e como isto da Internet é mesmo a maior revolução da história do homem, lá encontrei também no You Tube, a MTV do século XXI, os respectivos vídeos das músicas… para mais tarde recordar.
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Com melancias destas, como é que os gajos dos minimercados se hão-de ver livres da outra fruta...
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Qualidade!

(Alô, Mamãe? Cheguei!)

(Não te chegues muito perto dos holofotes que isso derrete...)

(Tapa-te com a mantinha, filha. Agasalha-te senão arrefeces e constipas-te...)

(Sem comentários disponíveis)


E para sobremesa... os vídeos...
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Aviões do Forró - Chupa que é de Uva
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E o famoso "Crééééééééééééééuuuuu" (com Garota Melancia em grande plano, do lado esquerdo do ecrã), mostrando as 5 velocidades ao vivo.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Crónica dos Bons Malandros


Discordo por completo de quem apregoa aos sete ventos que Portugal está cada vez pior. Qual quê?

Estou farto de fatalistas, de arautos da desgraça, das manchetes escabrosas dos jornais e noticiários, e assim permito-me discordar de quase tudo e quase todos os outros.

E isto porque acredito que ainda existem áreas nas quais o nosso país está claramente na linha da frente da Europa e do mundo, e o exemplo mais evidente está na criminalidade.

Para quem adora o Faroeste e os filmes de cowboys, isto está a ficar engraçado!

Os bandidos portugueses estão cada vez melhores, mais dedicados e profissionais, pá! Deixem-se de merdas! Depois de décadas em que os malfeitores tugas dignos desse nome se contavam pelos dedos de uma mão e parecia que não havia vida para além dos Irmãos Cavaco, vivemos agora um verdadeiro boom de criminosos dispostos a tudo para ingressar no Wall of Fame de Pinheiro da Cruz.

Seja dos bairros de lata das periferias das grandes urbes ou das zonas mais inóspitas e isoladas do interior, há uma nova vaga de pessoal cheio de sangue na guelra disposto a singrar neste difícil e exigente mundo.

Os bandidos portugueses não brincam em serviço e apesar de não haver formação académica específica para a área, não é por isso que deixam de se esforçar e tentar aprender por eles próprios a fazer como se faz, bem e depressa.

E a opinião pública anda de tal maneira desorientada com os pibs e a inflação e as manobras multimédia dos nossos governantes que é incapaz de apreciar todo este novo mundo de oportunidades que surge diariamente.

A Selecção fez um jogo do catano e foi encavada pelos dinamarqueses nos últimos minutos, depois de terem estado o jogo inteiro a fazerem-se de mortos?

A prestação dos olímpicos lusos ainda está por digerir?

A prestação da casa subiu e tornou-se incomportável?

A locadora veio buscar a viatura da família e levou também o periquito?

Não há dinheiro para comprar os bifes do pojadouro que estão nesta semana em promoção no Pingo Doce?

Tudo isso pode infelizmente ser verdade, mas há coisas em que nós portugueses, estamos a melhorar e a perspectiva tem se ser essa: ver as coisas pelo lado positivo e aprender com os que sabem.

Tem a sensação que consegue visualizar todas as notícias do telejornal antes sequer de darem as oito? Eu também e é por isso que sabemos que estamos certos.

Esta então do assalto de ontem à casa do nosso Procurador-Geral da República, Pinto Monteiro, é de bradar aos céus. Numa atitude de antologia a fazer lembrar a cena da cabeça do cavalo morto na cama do mafioso no filme da trilogia dos Padrinhos, mesmo os mais reaccionários têm de concordar que o nível está a subir e o grau está quase insuperável. Ainda por cima são indivíduos cultos e sabem o que andam a fazer. Como estão fartos de ser incomodados por aqueles que não os deixam trabalhar, deram numa de entrar na casa do responsável pelo Ministério Público só para dizer que estão atentos. Cultos e cavalheiros porque como queriam só marcar o território, esvoltearam as gavetas, deram um giro e vieram-se embora sem estragar nem trazer nada para casa.

Os ladrões portugueses têm compaixão e são uma espécie de Robin dos Bosques dos tempos modernos só que esquecem-se de dar a quem mais precisa e ficam como o bolo todo porque muitos deles ainda estão meio crus.

Reparem que esta história do carjacking dá-se maioritariamente com carros de alta cilindrada, não porque sejam mais valiosos mas porque não cabe na cabeça de ninguém ir gamar um Fiat Uno em plenos semáforos duma avenida qualquer e isto porque muito provavelmente o bacano que está ao volante está tão apertado quanto o que perpetua o acto.

Mas há mais… em quantidade e variedade!

Só em Portugal é que lembra um gajo entrar na esquadra da PSP em plena luz do dia, cumprimentar o agente da portaria, entrar por ali a dentro e aviar meia dúzia de barrenos no sujeito que está a fazer queixa dele. Melhor que isto, é deixar-se apanhar, ser presente ao juiz e sair em condicional ainda a tempo de chegar a casa e ligar a televisão para ver no jornal na tarde o estado lastimoso em que se encontra o gajo a quem fez a folha e as imagens de si próprio a sair sorridente do tribunal, com um saco do Mini Preço debaixo do braço. Presumo que já devia ter ido às compras nessa manhã. Não é de classe?

Há dias, passei-me com a história de um indivíduo que enganou meio norte com as suas artimanhas. Uma coisa do arco-da-velha! O gajo limitava-se pura e simplesmente a limpar quem lhe aparecia pela frente com recurso exclusivo à sua “banha da cobra”. Numa peça televisiva de meia dúzia de minutos, entrevistaram para aí uns 5 marmelos que foram enrolados por ele. Alugou um restaurante, nunca pagou a renda e nem sequer chegou a apresentar o sócio que iria salvar tudo; vendeu a um gajo dum estabelecimento uma máquina de Totoloto que este nunca chegou a ver, bem como aos 600 contos que deu de adianto e… a cereja no cimo do bolo, ainda teve tempo de abancar numa esplanada para propor a um que por ali estava se queria entrar num negócio de pássaros exóticos e saiu assobiando com o fundo de maneio garantido por este, para lhe trazer meia dúzia de papagaios e umas araras. Ehehehe! Brutal! Anda prái o Ministério da Cultura a dar bolsas a bailarinos… Isto sim é que era! Caraças!

Isto para já não falar do gang que decidiu roubar o Multibanco de um Tribunal. Estamos claramente perante artistas dignos da Liga do Campeões, gajos para quem limpar multibancos de centros comerciais ou da via pública é um tédio. Como são exigentes, estão-se borrifando para as medidas de segurança e não se coíbem a entrar na própria casa da queixa para trazerem a caixinha do guito. E só não roubaram o Rolex do Juiz porque nesse dia meteu baixa senão também tinha ido de roleta. Classe e estilo!

Noutro dia vi um cavalheiro ali de Cascais, todo distinto, chateadíssimo a dizer que quando todos dormiam lá em casa, alguém entrou e lhe limpou jóias, quadros, peças de ourivesaria e um monte de dinheiro sem ninguém dar por nada. E eu a pensar: “é preciso descaramento! Quer dizer, os malfeitores querem ser simpáticos, exercem educadamente o seu mister sem incomodar quem está e ainda por cima ouvem ralhetes. O que é que o gajo queria? Que o fossem lá acordar para lhes fazer chá com mel para a tosse? Ele há cada um…”.

Passemos agora para o episódio da carrinha da Prossegur, abalroada em plena via rápida: um claríssimo exemplo de como temos actualmente mestres que não se envergonham de estar ao lado de qualquer outro criminoso oriundo de um outro país da UE. A época dos carteiristas do metro do meu tempo de faculdade acabou. Cientes da sua capacidade e do seu estatuto global, os malfeitores lusos já só têm o céu como limite. Rápidos, seguros e metódicos, fizeram o servicinho ao pormenor e bateram asa sem chatear ninguém a não ser o desgraçado que ia lá dentro a ouvir a RFM e levou com uma bazucada pela culatra. Mas a coisa foi propositadamente feita para salvaguardar a vida humana. Quantos se podem de gabar disto hoje em dia?


E depois… ainda há malta que se revolta por se estar a fazer o apanágio da banditagem mas depois vão a correr ao videoclube para sacar o Ocean’s Eleven, o Ocean’s Twelve, ou o Ocean’s Thirteen e ficam a rezar no sofá para que os polícias não apanhem o Brad Pitt ou o George Clooney. Vá lá pessoal… temos de ser coerentes!

Imaginem que acabavam os criminosos… Como é que depois o Moita Flores passava os dias na Câmara de Santarém, cabisbaixo a olhar para as paredes? Deixem o homem trabalhar que ele gosta disso com fartura…

Como sei que o tempo da tecnoexclusão já lá vai e que há-de certamente haver visitantes deste blogue que actuam nesta área florescente da nossa economia, só espero que se algum dia passarem cá por casa não levem nada e se precisarem do Astra, peçam que eu deixo-vos onde quiserem. Não levem vocês o carrinho porque depois riscam-me as portas e sujam-me os estofos. E já agora, vejam lá se descobrem quem é que foi o filha da puta que me ficou com o swatch preto há uns Verões atrás. Também, já deve ter avariado…

domingo, 7 de setembro de 2008

Sérgio António Amador Bernardo (07.06.1975 – 03.09.2008)


Este é daqueles textos que custa a parir… mas vai por ti.


O meu Velhinho, o meu Velharasco, o meu Velharanga levou caminho. Foi já há muito tempo que te comecei a tratar por Velho, Velho Camarada, Velho Companheiro, Velho Amigo e tu, com a tua graça natural, encarregaste-te de fazer as variações.

Terminou assim um longo calvário de dois anos que nos manteve a todos em suspenso. Cumpre-se agora precisamente esse tempo desde que deixei um jantar na Senhora de Estrela para acorrer de urgência a uma reunião de amigos que se juntaram na Ramila, preocupados, para tentar encontrar uma solução, uma forma de lidar com esta nova e dura realidade.


Ainda me lembro quando te conheci, há tantos anos atrás, pá… eras tu um franganito e eu não deveria ser muito maior, pois está claro. Franzino e desajeitado mas com uma piada, uma maneira de ser irresistível. Lembro-me de estarmos sentados nos ferros da pastelaria e tu me dizeres que escola não era contigo e que o velhote se passava porque a tua onda não eram as línguas e as ciências mas antes as tardes passadas na Baiuca a jogar às setas, a fumar e a beber uns copos, a conviver com a malta.

Contigo era tudo claro como a água. Gostavas de quem gostavas e de quem não gostavas não valia a pena sequer tentar. Seguiste a linha do teu tio João Grande na maneira de estar atrás do balcão e as tuas variações de humor fizeram escola. Grande amigo do amigo, de verdade mesmo, foste sempre companheirão à altura.

Pensando em ti… lembro-me das noites loucas na Renault 4L do Luís Sequeira.

Lembro-me da Maluka nos Fortios, das matinées da Cave, dos bailaricos nas festas e romarias do concelho…

Lembro-me dos petiscos e da Expo 92 em Sevilha.

Lembro-me das conversas em que te abria os olhos e fazia de mano mais velho.

Lembro-me de tanta merda que passámos juntos e sobretudo dos Verões em que trabalhámos no bar do Grupo Desportivo, quando ainda tinha o fascínio de atrair a rapaziada nova. Fizemos uma dupla em grande…

Na altura eu fazia as manhãs e tardes e tu as noites. Lembraste que nunca despejavas o bidão do vasilhame e eu no outro dia tinha que alombar com o teu e o meu? Lembras-te de uma vez que me fiz mulo e depois de estar cheio, comecei a meter as garrafas no chão? A tua cara quando lá entraste e viste que mal se podia meter o pé detrás do balcão. Foi remédio santo…

E o Ti Júlio da Bica, o pobre do velhote, tanto que ele sofreu connosco… quando lhe fechávamos a porta e o trancávamos lá dentro e fazíamos de gatos e miávamos por entre as mesas. “Venham cá, cabrões, que eu não tenho medo de vocês!”. Eh, eh. Uma vez deu-te com um cinzeiro na tola com tanta força que ias desmaiando.

E quando te dei aulas de condução no campo da bola no Fiat 600 da minha mãe? Para mim não sabia eu, quanto mais…

E os serões no Poejo com o Bonachinho, e as idas a Espanha com o Quiquin…

Agora recentemente o teu bar, o teu casamento, o teu filhote…



Já me tinham dito que andavas doente mas eu, conhecendo como conhecia as tuas pancadas, achei que podia ser mais uma mania passageira. Cruzei-me contigo nas escadas da Casa do Povo e estremeci por ser por demais óbvio que a coisa era grave. Muito pálido, com grandes olheiras, uma barriga enorme e andando com muita dificuldade, pressenti e lamentei o pior. O grande choque tive-o dias depois pelo João Carlos, que soube de tudo e me traçou o pior dos cenários. A irreversibilidade do caso deixou-me de rastos. Como podia ser possível?!?!??!

Sucederam-se os exames, as idas a Lisboa, os internamentos, as dúvidas e preocupações. Chorava com dúvida, angústia e raiva depois de falar contigo ao telefone, imaginando-te só e derrotado, longe daquele que era o teu mundo. Valeu-te então o enorme apoio da família Mamede que te soube amparar nessas horas difíceis na capital.

Tentei saber mais por médicos e enfermeiros amigos, perguntando sempre na esperança de encontrar um que me dissesse que afinal poderia haver uma saída mas foi em vão. Todos nós sabíamos quanto ia durar. Todos nós sabíamos como ia ser.

Tomei então uma difícil resolução pessoal de não me deixar envolver mais do que seria capaz de suportar. Conhecendo-me bem e sabendo a verdade da amizade que nutria, procurei sempre acompanhar, estimular, apoiar mas guardando uma distância de segurança que me salvaguardasse a sanidade. Sabia que era duro demais para ser verdade.

A todo o tempo perguntei. Sempre quis saber e houve fases em que a vida parecia que te haveria de sorrir outra vez, não te salvando, mas garantindo-te a qualidade de vida necessária para seres feliz.

A debilidade dos últimos meses foi galopante. As visitas que te fazia e as conversas nas escadas da tua casa, sabíamo-lo ambos, apenas serviam para mitigar a solidão e providenciar alento. Os dias estavam contados e tu sabia-lo melhor que ninguém.

De cada vez que me ausentava, de serviço ou em férias, pensava sempre se te voltaria a ver e adiei até por mais não, a despedida que não queria ter.

Quis o destino que nos últimos dias estivéssemos mais em contacto porque a Estrela me pediu apoio numa questão relacionada com as finanças. Soube por ela que nesta fase final já não querias ficar no Hospital e procuravas a todo o custo estar em casa. Sabendo como é rija e directa, custou-me ouvir a sua voz vacilante e amargurada e decidi ir ao hospital para dar uma força.

Pensei que já estivesses inconsciente, mas à medida que me aproximei da cama vi como me olhaste e estremeci ao ouvir-te assobiar para mim, como fazias quando entrava no teu café, e o “oláááá” que me deste baixinho, como que a dizer “olha esta prenda que aqui me aparece agora…”.

“Sabes quem é, Sérgio?”, perguntaram-te.

“O Sabi. O Pedro. O Pedro Sabi” e passei-te a mão pela face num carícia que já não encontrou carne suficiente para a receber.

As fortes doses de medicamentação, sobretudo da poderosa morfina, faziam com que os períodos de consciência e de sono alternassem com muita rapidez e era difícil perceber se estarias ou não lá. Estava então bem claro que já não eras deste mundo e se há porventura exemplos em que a morte pode significar libertação, não restaram dúvidas que o teu caso foi um deles. Tudo era já tão difícil… o estar… o respirar… o perceber o fim da linha… que todos nós rezámos para que fosse quanto antes.

Mas da mãozinha tão frágil, de só pele e ossos, ainda vinha o teu calor e os teus olhitos apagados e tristes ainda pediam conforto e consolo quando se cruzavam com os nossos.

Pensei eu que por te ver, por te poder dar força e pedir calma e tranquilidade já tinha tido mais do que pedia, quando a Estrela te perguntou se querias um gelado. Enquanto descia as escadas, nunca desejei tanto encontrar um Calippo de morango e estava disposto a ir até ao fim do mundo para encontrar um. Felizmente estava bem à mão de semear e tendo autorização e estando quase sós, ainda te pude proporcionar esse momento de prazer, amigo, e ver como lutavas para te agarrar à vida e às coisas boas que ela tem. Um Calippo de Morango que não é um Magnum, nem um Cornetto, nem um gelado que se possa ver, mas que tu comeste com um prazer e uma vontade que fizeram dele a melhor coisa do mundo. Jamais me esquecerei desse gelado que te saciou a sede e te aliviou, nesse momento que foi um hino à vida e às coisas simples que passam despercebidas mas que no fundo, são as mais importantes. Depois alguém perguntou se “estava bom?” ou “o que é que se diz?” e tu ganhaste fôlego, respiraste fundo e ao teu melhor estilo disseste “dá-me outro!”. No teu melhor!

Quando parti sabia que não havia volta atrás e muito provavelmente não nos iríamos voltar a ver em vida. Pensei que tinha ficado em paz e que dali só seria para melhor mas não estava preparado para a minha própria reacção quando soube da tua partida.

O processo que se seguiu, foi duríssimo, como antevíamos. Tudo tão triste que não vale a pena sequer pensar.

Os tertulianos despediram-se de ti com um palma que não expressou nem uma milésima parte da nossa tristeza mas que foi plena de simbolismo.

Aguentei-me firme na segunda leitura na missa, como me pediram, e suportei as pernas que tremiam como varas verdes porque sei que tu querias que estivesse bem por ti.

Depois, saíste em ombros como os grandes toureiros em Las Ventas porque um Homem que viveu como tu e que sobretudo, sobre enfrentar a morte com uma dignidade e uma tranquilidade daquelas, não pode deixar este mundo de outra forma que não assim, carregado pelos amigos que sempre tanto quiseste e te quiseram. Eu sei que tu ias gostar.

Ando há dias com este texto na cabeça… criando-o… dando-lhe voltas… adiando escrevê-lo…

O que eu queria mesmo era fazer-te a minha homenagem, querido, dizer-te que valeu a pena e que jamais te esqueceremos.

Queria que soubesses, Sérgio, meu Velho, que isto sem ti fica tão mais triste.

Estejas lá onde estiveres e eu acredito mesmo que estás, sê feliz. E descansa em paz. Tu mereces, campeão.

Abraço do Sabi


Nestes dias, andei a dar voltas aos meus arquivos e apeteceu-me recordar alguns momentos felizes:

No dia do casamento

Com o nosso filho Gira

No recém aberto "Adro"









A primeira montagem da "Real Tertúlia do Camarão de Marvão"
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Na missa limitei-me a ler o que me passaram mas se tivesse o direito de opção, eram estas as palavras do grande Bob Dylan que gostaria de te deixar.
A música chama-se “A morte não é o fim” e diz que:

Quando estás triste e só e não tens um amigo,
Lembra-te que a morte não é o fim.
E quando tudo o que tinhas como sagrado, se desmorona e perde o sentido,
Lembra-te que a morte não é o fim.
Não é o fim, não é o fim,
Lembra-te que a morte não é o fim.

Quando enfrentas as encruzilhadas que não consegues compreender,
Lembra-te que a morte não é o fim.
E se todos os teus sonhos se desvanecem, e não sabes o que te espera,
Lembra-te que a morte não é o fim.
Não é o fim, não é o fim,
Lembra-te que a morte não é o fim.

Quando a tempestade te cerca e as chuvas fortes caem,
Lembra-te que a morte não é o fim.
E se não há ninguém que te conforte e te estenda uma mão amiga,
Lembra-te que a morte não é o fim.
Não é o fim, não é o fim,
Lembra-te que a morte não é o fim.

Porque a árvore da vida crescerá,
Onde o espírito nunca morre,
E a luz da salvação brilhará,
Nos céus negros e vazios,

Quando as cidades ardem com a carne flamejante dos homens,
Lembra-te que a morte não é o fim.
E quando procuras em vão para encontrar um homem que seja justo,
Lembra-te que a morte não é o fim.
Não é o fim, não é o fim,
Lembra-te que a morte não é o fim.
Até sempre!

domingo, 31 de agosto de 2008

Separados à Nascença - Vanessa de Contarr

(Clica que isto aumenta)


A Vanessa Fernandes e o Conde de Contarr são gémeos e nasceram no mesmíssimo castelo da Transilvânia.

Acontece que quando vieram a este mundo, as finanças do pai de ambos, o próprio Conde Drácula, estavam já bastante fracas e pior ficaram quando o fisco local lhe penhorou e alienou um T2 que o homem tinha comprado com umas poupanças na Baixa da Banheira quando era solteiro.

Na noite em que nasceram, o Príncipe do Mal praticamente não dormiu, como sempre, e decidiu que tinha de abrir mão dos seus mais jovens herdeiros para evitar que passassem mal.

O filho varão foi encaminhado para a Rua Sésamo que estava nesse momento em digressão, a fazer uns castings nos Balcãs. Como tinha uma inteligência acima da média e era perito a contar, sobretudo os cadáveres que o pai empalava nas traseiras do castelo, foi contratado para ser o contador oficial da série. Foi-lhe dado um banho numa tinta rosa duradoura e como o Jim Henson achou piada à ascendência, adoptaram o look do pai e assim nasceu a figura do “Conde de Contarr”.

Com a filha o caso foi mais difícil porque ninguém a queria. Por coincidência, o português Venceslau Fernandes deslocou-se então à zona para correr a Volta à Roménia e como estava farto de levar sempre os mesmos souvenirs e bibelots à mulher por onde quer que passava, desta vez lembrou-se de levar a petiz que “um sujeito com ar pálido, olheiras profundas e uns caninos salientes” estava a oferecer a quem passava na Praça principal da sua aldeia. A criança nunca se adaptou bem a Portugal e sofre do sintoma de “não poder estar quieta” porque, sabemos nós, tem nostalgia do lar do qual já não se recorda. Diz com frequência que é como o Variações e “só está bem onde não está”. Como é hiperactiva, leva os dias a nadar, a andar de bicicleta e a correr. Foi por esse motivo que o pai a inscreveu nos Jogos Olímpicos. O “Vendo o Mundo de Binóculos do Alto de Marvão” descobriu recentemente que o aparelho que usa nos dentes não é para endireitar o “corta-palha” mas para impedir que os caninos cresçam ao nível dos do pai e comece a sugar o sangue aos adversários em plena prova, o que lhe causaria uma óbvia desqualificação com justa causa.

Esta é a história dramática destes “Separados à Nascença”.


Nota do produtor: Se o Henrique Mendes ainda fosse vivo, isto dava um excelente “Ponto de Encontro”.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

"Vidas" do Correio da Manhã – Manos Sabi no Sasha


O suplemento “Vidas” do jornal Correio da Manhã vale por si.

Esta brochura, se me é permitida a designação, é uma das mais isentas, bem estruturadas e completas publicações do mercado editorial português.

Não tenho qualquer tipo de dúvidas que grande parte do sucesso do jornal se deve a esta lapidar e complementar revista.

A edição do sábado passado, que eu me apressei a comprar a fim de me servir de companhia na manhã passada nas piscinas do Centro de Lazer, era riquíssima.

Para além do destaque à nova doença de Ronaldo, chamava também a atenção para a Clara de Sousa (que anda feita maluca), para o gémeo modelo e para os Santamaria. Um mimo!

Folheando no interior, não pude esconder a minha satisfação e alguma vaidade ao ver publicada uma foto que sacaram a mim e ao Júnior no Sasha, em plena festa da Maxmen, onde de facto estivemos.

Aqui deixo a cópia para a posteridade com um grande abraço para o Rúben (onde é que estão os gajos dos convites?) e ao Janita que serviu de fotógrafo com o seu telemóvel.

Muitos beijinhos também para o Evaristo, o DJ Joaquim e a Carla Matadinho, que mal vimos mas isso não interessa nada.

Foi uma noite memorável, pá! Se eu me pusesse aqui a contar o episódio do Zézé Camarinha, o dos russos bêbados que iam entrando pela praia fora com o carro desembestado, o do gajo que ladrava às inglesas e o do taxista maluco… dava quase para escrever um livro!

E o man que ficou profissional a passar lancheiras a ferro com as rodas da viatura, ao estacionar na praia?

Muito bom!

Valeu, pessoal!

Ó para nós tão lindos aqui nessa página!


Clica para ampliares e lê com atenção (senão não vais perceber ponta)



Scanner dos verdadeiros convites para a festa de encerramento com a designação “guest” a brilhar. Não fomos lá mas isso não interessa. São nossos! Se quiséssemos, podíamos ter ido, não é Bro? Estes ficam de recordação. Gente fina, man!

domingo, 24 de agosto de 2008

Bolan... Aquele bar!

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Não devem existir mais bares assim em Portugal e duvido que os haja no resto do mundo, onde sejamos recebidos desta forma arrebatadora, com um sorriso desconcertante e uma mão aberta à nossa espera, como se fossemos um familiar que se pensava perdido para sempre e regressou contra todas as expectativas, mesmo quando é apenas a segunda vez que lá entramos.

O Bolan, em Alvor, bem pertinho de Portimão, é um verdadeiro templo de amizade e tudo aquilo que um bar deve ser: um espaço de paz e convívio, de fraternidade e atitude.

Situado na esquina de uma rua polvilhada de estabelecimentos e gift shops que vai desembocar na Ria local, impressiona logo pela sua aparência exterior, pelas cores garridas da bandeira da Jamaica e pelo seu estatuto interventivo bem patente nas imagens na fachada de Luther King, Mandela, Che, Marley, Ghandi, Malcom X, Haile Selassie, Teresa de Calcutá e Miles Davies, todos homens e mulheres que pugnaram a sua existência na luta por um mundo mais justo e mais fraterno.

Se o aspecto exterior não podia ser mais convidativo, imaginem o recheio… Entrar no Bolan é mergulhar no quarto de um eterno adolescente e deixar-se deslumbrar por toda aquela iconografia de encantar. Numa deliberada estética “pró-erva”, não é de admirar encontrar estampadas nas paredes altas desta casa antiga e de traça tradicional, diversas personalidades do showbizz exercendo a arte do fumo, não faltando mesmo uma versão da Mona Lisa com um grande cacete nas unhas.

No Bolan, o som é reggae e a bebida, caipirinha ou caipiroska de frutos silvestres, ambas de provar e chorar por mais.

Enquanto nos deliciamos com a especialidade da casa, passeamos os olhos em redor e reencontramos Frank Zappa e os Beatles, Jagger com Marley e Tosh, desenhos, posters e souvenirs, Chaplin, Jimmy Hendrix e James Brown, todos eles desfrutando, sorrindo, ajudando a fazer-nos sentir em casa.

Descobri esta pérola pela mão do meu Júnior que em boa hora para ali me encaminhou. Fartou-se de me falar no estatuto quase mítico do fenómeno e na figura tutelar do proprietário conhecido como Cáubi, seu cliente e amigo, figura famosa na cena pelas suas respeitáveis rastas, pela contagiante boa disposição e pela exemplar gestão familiar que implementou no espaço com a ajuda dos seus 6, disse 6 filhos.

Na minha noite de estreia, no ano passado, fiquei com tamanha boa impressão que não resisti a regressar, como se me faltasse fazer qualquer coisa importante nestas férias se por lá não passasse. Desta vez tive o azar de não levar o Miguel comigo e de não poder estar com o patriarca que estava ausente, mas tive a sorte de ter um pôr-do-sol imenso que tudo banhava com um dourado redentor bem à frente da esplanada, e de ter conhecido o Nago.

O Nago é um dos herdeiros deste legado e pelo que tive oportunidade de dele conhecer, posso assegurar que o império está mais do que garantido. Os traços do seu rosto não enganam e ele foi pronto a explicar que naquelas veias corre sangue com ascendência dos indígenas da amazónia, de escravos africanos e dos tão europeus holandeses. A sua atitude muito positiva, uma simpatia contagiante e uma graça natural encantadora fazem dele um adolescente tão diferente de quase todos os outros, standartizados, formatados, limitados. Um verdadeiro anfitrião de luxo!

E eu senti sinceramente que podia ficar ali para todo o sempre, naquelas mesinhas de tábuas vermelhas, verdes e amarelas, a receber a energia revigorante do astro-rei, enquanto intercalava a conversa com mais com mais uma sorvidela daquela mescla divina de açúcar torrado, lima, gelo e cachaça.

Compromissos já assumidos obrigaram-me a partir, contra a minha vontade, mas com uma promessa: “Algarve para mim, tem de ter beijo neste solo sagrado. Jamais falharei!”.

O Bolan ficou por lá, languidamente estendido rua abaixo, à espera dos amigos que já tem e dos tantos que certamente há-de fazer com a sua magia encantadora.

Até breve, espero eu!






Com Nago, o jovem cicerone

A beleza da Ria de Alvor ao cair da noite

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Voando para a imortalidade


Eu estava com uma grande fezada para estes Jogos Olímpicos, certo de que teria aqui um excelente cartaz televisivo para todo o mês de Agosto mas enganei-me.

Na verdade, tenho visto pouco ou nada porque me esqueci que os chineses lembraram-se de inventar a China lá mesmo do outro lado do globo, o que significa que os fusos horários são enormes, querendo com isto dizer que quando estão lá a competir, estamos nós quase a dormir e vice-versa.

Maneira que tirando aquilo que vejo nos telejornais e num ou noutro diário desportivo, não tenho visto quase nada.

É óbvio que já me apercebi dos gajos extraordinários que por lá andam como o nadador americano papa-medalhas que parece que tem guelras e desliza como um torpedo assim que se apanha debaixo de água ou o jamaicano maluco que nem toca com os pés no chão ao correr e limpa os 100 e os 200 metros com uma enorme vantagem sobre os oponentes directos, cortando a meta a rir-se para as bancadas e em clara desaceleração.

Coisas do outro mundo!

Quanto aos portugueses, a habitual banhada a que nos vamos habituando com as esperanças no Judo, na Vela e em tantas outras modalidades a esfumarem-se perante as adversidades habituais.

Destaco em particular o jovem lançador de peso, Marco Fortes, que justificou o seu mau resultado pelo facto de a prova se ter realizado de manhã, quando se sabe de antemão que “de manhã se está bem é na caminha”. Sim senhor, por mim, deviam-lhe dobrar o subsídio para poder dormir mais. A coisa promete…

O cenário estava de tal maneira tenebroso que o velhinho que chefia os olímpicos lusos, o comandante Vicente Moura, disse que estava disposto a mandar tudo às urtigas e passar o resto dos seus dias a jogar à bisca lambida nos bancos da Alameda. Agora parece que já reconsiderou.

De tudo salva-se a Vanessa que foi de prata, mas para mim mal porque é claramente a melhor do mundo e quando se é a nº 1 não se pode ser outra coisa senão ouro. Ela diz que está feliz assim. Eu não, sobretudo porque sei, e ela disse-o, que sabia que tinha pernas para a outra mas não quis arriscar. Ora quem não quer arriscar… fica em casa. A prata pode saber-lhe a mel mas para mim e lá no fundo, acho que sabe é a fel.

E vivemos praticamente nas trevas olímpicas até hoje, até ao momento em que o pretinho bonito de sorriso de menino decidiu voar para o mais alto lugar do pódio, com uma graça e uma leveza que mais pareciam dignas de um anjo.

Incrível!

Fiquei todo contente quando soube que a prova era à hora de almoço e ainda comecei a ver em directo. Os primeiros ensaios foram bons mas depois um inglês cheio de brincos, de cabelos vermelhos, fita branca na cabeça e meias brancas de gesso até aos joelhos, começou a pular como se fosse uma corça e eu decidi não ver mais, sobretudo quando um gajo das Bahamas também pulou como o raio.

Como tinha mais que fazer, a coisa demorava e me parecia que ia correr mal, regressei à câmara e foi lá que ouvi na rádio da proeza do Nelson Évora.

Epá, foi uma emoção ouvir o relato e pensar como aquilo tudo deveria estar a ser. Uma emoção sobretudo quando o ouvi dedicar a vitória aos portugueses e a mim também. Como não ficar orgulhoso de um miúdo destes?

Adorei ver as imagens nas notícias da televisão e o oportuno programa da RTP1 sobre a vida do atleta, com depoimentos de pessoas que com ele se cruzaram, revelando-nos muitos pormenores importantes dos quais destaco a história enternecedora de amizade com o seu treinador de sempre, o Professor João Campos, nos braços de quem se foi anichar quando soube que era o vencedor. Revelou que já teve convites de outros treinadores que são muito mais avançados tecnicamente e com recursos de treino mais modernos ao seu dispor, mas todos eles rejeitou porque sabia que nenhum lhe podia dar o amor, o carinho e a compreensão que tem do seu, a quem quer como a um pai.

Muito bom!

Parabéns Nelson! Parabéns mesmo, campeão! Parabéns pela humildade, pela alegria, pelo gozo com que voas e sobretudo porque acreditas sempre que o adversário nunca está ao teu lado mas sim dentro de ti e que para o venceres, tens apenas o céu como limite.

És um modelo para todos e a tua história de coragem, sacrifício e triunfo deverá ser um elixir para nós, para as nossa vidas e para os nosso filhos.

Quem é que não se vai arrepiar quando “A Portuguesa” ecoar no Ninho de Pássaro?
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segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Modas… de Verão

Como toda a gente, na praia eu gosto de ler, de apanhar sol, de me “estreichar” na toalha, de ouvir música… mas gosto sobretudo de olhar.

Olhar para tudo em volta. Observar, analisar e ruminar tudo o que vejo.

Perante a oportunidade de ver tanta gente, de tantos sítios diferentes e durante tantas horas à minha frente, aproveito sempre a praia para fazer o meu raio-x à portugalidade, batendo uma chapa ao sentir e ao estar lusitano.

E isto porque não há moda, boato, crença ou novidade que não rebente ali bem no meio do areal, nas bocas de quase todo o mundo.

Neste ano, estão em destaque:

1) Rabos
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As mulheres portuguesas estão cada vez mais despidas de preconceito e mais conscientes da sua própria sexualidade, o que é uma coisa fantástica e já não era sem tempo. Os “sacos do pão”, como agora são conhecidos os fatos-de-banho que tapam o nalguedo todo, estão a dar lugar aos formatos reduzidos e é lindo ver o areal polvilhado com fios dentais, tanguinhas e “asas delta” de todas as cores e sempre, sempre, num tamanho muito abaixo do aconselhado pela moral e pelos bons costumes.

Acho justo. Na verdade, nós, os homens, já há muito que utilizamos a tanguinha tipo “nadador”, ao melhor estilo Zézé Camarinha, e nunca ninguém se horrorizou com isso. Ainda era eu gaiato e já me lembro de uns modelos à leopardo, com as ancas bem cavadas, que a mim me pareciam que davam um ar traveca aos machos que os envergavam, mas que me parece que não deixavam de surtir o efeito desejado no público feminino que perante tamanho exibicionismo, nem sequer precisava usar muito a imaginação para antever o calibre…

De forma que saúdo as jovens e as senhoras que, de uma vez por todas, se assumem sem complexos e sobretudo aquelas que mesmo sabendo que não são donas de um corpo escultural, não deixam por isso mesmo de revelar as suas formas, mais lisas ou arredondadas que ele há gostos para tudo e é por isso mesmo que o mundo não cai para o lado.

Nota do Professor Martelo: 5/5

2) Tatuagens
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A prática de gravar no próprio corpo símbolos ou elementos relevantes com carácter de permanência é uma prática corrente do homem desde tempos imemoriais.

Hoje em dia, não há coisa mais na moda que as tatuagens, ao ponto de eu dar toda a razão ao meu irmão quando diz que qualquer dia quem é notado não é quem as tem, mas quem não as tem. Realmente, conta-se pelos dedos de uma mão, o pessoal que ainda não aderiu a isso.

Não é que eu não concorde, antes pelo contrário. Interesso-me bastante pelo tema e há muito que ando a matutar naquilo que gostava de ver para sempre gravado na minha pele e só ainda não concretizei porque o facto de ser para sempre me deixa meio a vacilar.

O que me custa notar é que a maior parte do pessoal só não tatua um sinal de trânsito, o símbolo do Lidl ou o número de telefone dos bombeiros lá da terra porque não calha.

Há o grupo dos caracteres chineses (que vão sendo cada vez menos à medida que vão abrindo mais lojas chinocas pelo país fora), o grupo dos caracteres árabes (estilo Simão Sabrosa e Quaresma), o grupo dos indígenas (estilo índios e lobos), o grupo ao estilo inglês (apanhando o braço todo, como o Raul Meireles), o grupo dos clubes de futebol e o grupo das pessoas (que tatuam a cara dos filhos e da avó e nunca ficam parecidos), isto para não esquecer o grupo dos pioneiros, da guerra colonial, da malta que esteve em Angola, Moçambique ou na Guiné e que ostenta, orgulhosa, a data do período em que lá permaneceu, um “Amor de Mãe”, “Em África rezei por ti” ou “Sangue, Suor e lágrimas”.

Hoje passei por um tipo que num ombro tinha uma imagem de Jesus e no outro, uma águia. Estive para lhe dizer: “olhe, desculpe, mas o meu amigo de certeza que é católico e do Benfica, certo?”. Como de certeza que ele me ia perguntar: “epá! como é que sabe?”, achei melhor fingir que não vi nada. As tatuagens podem ser perigosas…

Eu ando louco por uma tribal azteca ou por um elemento floral oriental que vi numa revista mas é melhor esperar a ver se me passa. Se tivesse ido na minha conversa de há uns anos atrás, já há muito que tinha um extraterrestre num antebraço ou o Batman com a capa a esvoaçar nas costas. Ele há coisas…


3) Colares à Cristiano Ronaldo
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Os colares à Cristiano Ronaldo são terços de plástico que se vendem nas barraquinhas de Fátima por euro e meio. Nem sei como é que o rapaz ainda não mandou fazer um só com pedras preciosas, incrustado de diamantes e rubis, mas enfim.

A rapaziada cá da praia, querendo tanto imitar o ídolo e na dificuldade de arranjar uma namorada com o calibre de mamas da Nereida ou um Rolls-Roice de 500.000 euros, faz romaria à santinha para adquirir o adereço da moda.

Ainda hoje me cruzei com um casal em que ele levava um branco a condizer com os dentes da frente e ela um rosa-choque bem feminino.

No Sasha, o clube / discoteca nº 1, são mato e não há jovem que se preze que não tenha o seu. Aposto que nem desconfiam que aquilo também dá para rezar mas… quem é que precisa de rezar quando há ipods e playstations?

“Isso tá fora de moda”, dizem eles, e eu acho que a Igreja também tem culpa: quem é que os manda meterem as missas a um domingo de manhã quando sabem que a malta vai toda para a borga no sábado à noite? Experimentam a fazê-las às segundas-feiras de tarde, quando anda tudo arrependido do mal que se portou no fim-de-semana e vão ver que apanham lá muitos mais, até a confessarem-se!

Termino como uma nota que me surpreende sempre imenso que é a predisposição para a novidade com que os veraneantes vêm para as terras do Algarve. É uma coisa divertidíssima! Não podem ver nada novo que juntam-se logo num magote de malta, atropelando-se para estarem na linha da frente. Seja um gajo a tocar berimbau, um cãozinho que faz o pino ou uma pulga amestrada a praticar dança Jazz, tudo é razão mais que suficiente para que o pessoal que circula nos passeios aos milhares fazer logo uma roda com um escarcéu monstruoso à volta.

Isto é bom para quem tem o amor-próprio em baixo ou necessita um suplemento extra de atenção. A solução está em vir para o Algarve, estender uma toalha numa esplanada ou montar uma banca numa avenida qualquer e começar a tocar pífaro liso, a falar ao contrário ou a fingir que é capaz de imitar o som dos traques apertando o sovaco como nós fazíamos quando éramos putos.

Um dica de ouro? Fazer de homem-estátua! É dinheiro garantido. Vista uma cuecas largas, meta muita base na cara, coloque uma lata de atum vazia para as moedas (uns bons metros à sua frente), empine-se num balde virado ao contrário e finja que é capaz de estar quieto mais de 5 minutos. Acha que não aguenta? Não faz mal, também ninguém vai ficar lá mais do que esse tempo a reparar e entretanto pode coçar o nariz, os tintins ou a orelha que o pessoal até se ri a pensar que é de propósito.

Verão 2008! Ele há coisas fantásticas, não há?

sábado, 16 de agosto de 2008

Brisas atlânticas


Chegar bem cedo ao areal. Fazer corridinha de uma hora desde a Praia do Alemão até à outra ponta, percorrendo toda a Rocha e virando na marina. Mergulho retemperador no final. Cafézinho no quiosque à beira-mar. Ritual de degustação da bolinha de Berlim com creme!, comprada numa pastelaria da cidade, para fintar a Asae. Revista de imprensa com generalistas, desportivos e revista do coração que sabe tão bem nestas alturas, sempre alternada com mais um mergulho salgado. Brincadeiras na areia, visita às rochas, conversas e avistamentos até à 1h da tarde, quando os médicos nos mandam para casa, para fugir ao sol abrasador.

Quem é que disse que não há manhãs perfeitas?

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Cumplicidades


Quando contemplo o horizonte e o mar calmo de fim de tarde, acabo por reparar num casal de jovens que passeia à beira-mar, ambos na casa dos 20, e se pára a uns escassos metros à minha frente.

Interrompem a marcha e viram-se um para o outro. Ele abraça-a pela cintura e ela rende-se, encostando a cabeça no seu peito. Ele segreda-lhe algo ao ouvido e ela sorri, embalada pela carícia. Olham-se e envolvem-se num beijo terno.

Não sei se será uma paixão de Verão ou uma relação mais duradoura, mas sente-se que o que os une é forte e contagiante.

O amor e os seus cambiantes.

Que coisa esta que nos consome e alimenta, nos domina e nos liberta, nos trespassa e avassala.

Eles ainda não sabem mas aquele sentimento que agora os hipnotiza, há-de também ele mudar ao longo das suas vidas e madurar à medida que a idade o trespassa porque a novidade e o entusiasmo não podem perdurar para todo o sempre.

Por aquela mesma beira-mar, passeiam muitos outros casais de mais idade que vão uns anos à frente, eles de barriguinha proeminente, elas já com rugas e celulite nas ancas, mas de mão dada e quase sempre conversando…

Esses já sabem que a vida leva o ímpeto e traz a cumplicidade.
Esses já sabem que quando a beleza e o desejo se vão e os problemas da vida, a dois, se instalam, não lhes resta senão a amizade, o companheirismo e o respeito.

Pelo caminho ficam cada vez mais tantos, rendidos à tentação, ao facilitismo ou tão somente à incompreensão que é tão mais lancinante quando há rebentos pelo meio.

Eles já sabem que quando as mãos caminham unidas e os cabelos já são brancos, os sorrisos que ostentam são também de vitória como que a dizerem, “depois de tudo o que passámos, ainda aqui estamos…”.

E eu apercebo-me que na praia, quando nos despimos dos trajes convencionais e nos aproximamos da nossa condição natural, é mais fácil chegarmos à conclusão de que no fundo, somos mais parecidos uns com os outros do que muitas vezes nos parece.