terça-feira, 7 de abril de 2009

Diário de bordo de um esquimó - Parte V - Epílogo

Amanheceu com 15 negativos. Está bom para a boga...
-
Quis o destino que o epílogo da minha aventura em terras finlandesas fosse redigido alguns dias após ter acontecido, a quase 4 mil quilómetros de distância. As emoções da última jornada, a previsibilidade da dureza da viagem de regresso, o cansaço acumulado de dias preenchidos e noites de relatos quase em tempo real assim o ditaram.

A derradeira etapa do nosso programa proporcionou-nos, na manhã de sexta-feira, a oportunidade de ouvirmos o Prof. Reinno Sivonen, do Kainnu Vocacional College, que nos falou do sucesso da sua escola, classificada em 6º lugar num universo de 200 que existem no país e ainda assim nos confessou que fica sempre preocupado quando lhe dizem que está bem. “Quando me dão os parabéns, penso sempre que hei-de fazer para ser melhor”. Pois é!

A necessidade de nos preparamos para o futuro e não esperamos apenas que chegue; a importância da aposta na mão-de-obra qualificada, na indústria dos serviços e na aprendizagem constante, com recurso a intercâmbios comunitários sempre que seja possível, foram algumas das linhas mestras da sua bem esclarecedora prelecção.
-
A derradeira e muito interessante última palestra

Nos discursos da cerimónia de encerramento da visita, houve palavras embargadas e olhos mais húmidos. Foram dias muito intensos e de grande comunhão. Tivemos a sorte de ter um bom grupo, muito heterogéneo mas compacto e com um bom nível de entendimento. Penso que se estabeleceram ali laços que podem florescer em bonitas amizades e quando assim é… um adeus é sempre algo triste.

Razão tinha o nosso director Pekka quando nos confidenciou que “a nossa natureza é fria, mas o nosso coração é muito quente” e todos nós sentimos a verdade nas palavras no Vice-Director: “amanhã, quando nós dois reunirmos e todos vós já tiverem partido, tenho a certeza que o vazio será enorme”.

O bom é pensar que o tempo tudo leva e tudo traz e daqui a uns dias ficarão apenas as boas recordações destes dias de tanta e tão boa confraternização e aprendizagem.

Depois das despedidas entre parceiros, foi a vez de alguns saírem directos para o aeroporto e de outros, como foi o meu caso, que só dispunham de avião no dia seguinte, aproveitarem o tempo restante para desfrutarem da melhor forma os recursos maravilhosos daquelas paragens.

O checo, a austríca e a holandesa de visita ao open desk do vice-director Jyrki. Nos cds que ouve... Smiths, Lloyd Cole and the Commotions, Beautiful South... bom gosto, é o que é!

A sala dos professores num abrigo anti-bomba. A legislação em vigor determina que todos os edifícios públicos devem de ter um. Aqui, o passado beligerante contra noruegueses, russos e alemães continua bem vivo. Vai nisto e os profs decidiram aproveitar o espaço e fazer lá a sua sala. Nada parvos, ãh? E dizem para os alunos: "ó rapaziada, não se preocupem que se isto der para o torto, nós somos amigos e deixamos entrar... até caberem! Nós primeiro, não é?"

A moderna e bonita escola vista da entrada principal

No alto do antigo reservatório de água da localidade, a 25 metros de altitude, tivemos oportunidade de ter uma visão única e panorâmica desta cidade, enquanto provávamos um licor local que me fez lembrar a nossa ginja.

O altíssimo reservatório de água onde hoje existe um bar panorâmico

Kuusamo... bela, plana e sempre gelada

Ir às compras de trenó não é para todos
-
Depois tínhamos duas opções: ou ficávamos no hotel à espera que o tempo passasse, ou nos fazíamos rambóias e rebentávamos os últimos cartuchos com classe e estilo. Assim, que se amolem os 90 euros que não é todos os dias que temos oportunidade de andar de mota das neves e conhecermos uma verdadeira quinta de criação de renas, no local.

O passeio de 3 horas começou com a pontualidade característica destas gentes e à hora marcada, mais minuto, menos minuto, lá estava a carrinha da “Arctic Safaris” para nos preparar para a grande aventura. Na sua sede tivemos oportunidade de vestir uma indumentária bem quentinha e adequada. Pouco depois de termos pago e assinado o termo de seguro, já acelerávamos pela brancura da paisagem e eu só me lembrava das cenas de perseguição de alguns files do James Bond. Aquilo ronca e assapa à maneira e que engraçado foi passar com roupas de astronautas bem perto do buraco na neve onde no dia antes tinha mergulhado. Parece impossível…

A qualidade do serviço foi irrepreensível, a simpatia dos profissionais foi enorme e a relação preço / qualidade uma verdadeira lição para os nossos empreendedores nesta áreas. Muito bom!

Fabulosa a sensação de poder interagir em pleno que a natureza e o meio envolvente. Única a experiência.

O Mikka Häkinen das motas de neve

Aqui numa pose: "estou prestes a arrancar..."
Autográfo e mando à cobrança por 5 euros

Junto ao buraco onde me tinha banhado no dia antes. Ele há coisas...

Acelerando por entre os pinheiros

Passados uns bons 20 quilómetros e de mais de uma hora de gincana por entre o arvoredo, parámos no nosso ponto de retorno, uma quinta rural de criadores de renas onde o proprietário, a filha, o filhote desta e o namorado nos aguardavam. A propriedade está na mão da família há 3 gerações e actualmente vivem da terra, dos animais e da sua produção, do turismo e por vezes têm mesmo de arranjar outros trabalhos na cidade para poderem subsistir.

Assim que chegámos, mostraram-se logo muito afáveis e simpáticos e saltou-me logo à vista a sua apresentação e enorme asseio, todos com um ar extremamente limpo e cuidado. Armaram o trenó, sacaram a rena e lançaram-na pelo circuito onde andámos a boa velocidade. Parecia uma prova do campeonato de bobsleigh. Ninguém queria dar o primeiro passo e adivinhem quem foi o aventureiro?




O valentão lá do sítio... todos os anos ganha um par deles novos...


-
Um outro aspecto que me chamou a atenção foi a enorme carga afectiva na forma como se relacionam entre si. Estão constantemente a trocar sorrisos, carinhos e brincadeiras. Chegou mesmo a ser comovente o seu reencontro com uma sobrinha/neta que chegou entretanto e não viam há um ano. De resto, as miúdas eram tão bonitas e tão bem arranjadas que mais parecia que estava dentro de um anúncio da Benetton.

A alemã cai na tentação de perguntar à rapariga (que tinha um nível de inglês notável), quantas renas tinha e eu deixei-me logo rir. “Não as consigo contar… fogem…”, disse a moça com falso ar de inocente. E eu disse para mim próprio… “pudera!”…

De resto, pude saber um pouco mais sobre estes estranhos e tão interessantes animais… as renas têm cerca de mil pêlos por cada centímetro quadrado num revestimento que muito se assemelha ao dos ursos; têm 5 unhas nas patas, três à frente e duas atrás, que se abrem quando estão de pé e não deixam a pele estar em contacto com o frio da neve. São tão resistentes que passam o Inverno sem necessitarem de qualquer tipo de abrigo e vêm os cornos cair todos os anos, podendo chegar a crescer 3 centímetros por semana. Os últimos a cair são os das fêmeas, sobretudo quando grávidas, por motivos óbvios de defesa das gerações que hão-de vir. “A natureza é sábia…” digo-lhe eu perante estes novos dados e ela limitou-se a sorrir com ar cândido. As renas vivem em média até aos 12 anos mas algumas chegam aos 18 e são uma peça fundamental da economia rural local, para a qual contribuem com a carne, as hastes e a pele.





Terminada a lição de biologia, convidou-nos para um chá e bolinhos de manteiga cozinhados pela sua mãe, numa casinha típica coberta de neve com um enorme lume ao centro. Tão agradáveis, tão prazenteiros…
Falou imenso e para além de muito bonita, revelou-se inteligente e talentosa. Depois de nos ensinar tantas outras coisas, perguntou-nos se queríamos conhecer a lenda do chapéu de 4 pontas, o chapéu típico dos agricultores locais.

Como não?

Meteu um ar mais grave, abriu bem os olhos e com voz sussurrante começou… “Antigamente, o tempo por estas paragens era muito instável e os agricultores não sabiam o que fazer com os campos e as colheitas… ora chovia, ora nevava, ora fazia sol. Já em desespero de causa, sentindo-se perdidos, mandaram vir de longe um xamã que chegou à aldeia com ar sinistro. Silencioso, entrou numa das casas, sentou-se junto a uma lareira como esta e mandou chamar os quatro ventos. Quando todos estavam à sua volta, começou a tocar um tambor que trazia consigo num ritmo sincopado, cada vez mais lento, até que todos os ventos adormeceram. Enquanto dormiam, apanhou-os e um a um, prendeu-os dentro de um chapéu de lã. Quando acordaram, os ventos ficaram tão zangados que quiseram destruir o chapéu mas não foram capazes. O mais que conseguiram foi fazer-lhe quatro pontas com a sua fúria.

O xamã disse-lhes que só os deixaria sair se respeitassem a sua ordem. Se assim fosse, a partir de então, teriam de ser mais disciplinados: o vento do sul sopraria apenas durante a estação quente que corresponderia ao Verão; o vento de leste sopraria logo após, quando o tempo começasse a arrefecer, no Outono. Depois, seria então tempo de soprarem os ventos de Norte, durante o Inverno e finalmente soprariam os ventos de oeste, durante a Primavera.

Não tendo outro remédio, os ventos concordaram e o xamã deixou-os sair conforme combinado. Foi assim que começaram as quatro estações nesta região e como homenagem a este momento único e feliz, como sinal da sua gratidão, os agricultores tradicionais ainda hoje usam este chapéu de quatro pontas…

E eu disse-lhe: “que bem o fazes, quase que me chegaste a assustar… e quando o teu namorado abriu a porta atrás de nós… pensei que fosse um vento zangado que vinha reclamando algo de volta…” e ela riu-se com ar satisfeito.

Sobre a lenda… o seu pai disse mais… Contou que se o homem o usa descaído para a esquerda é porque é casado; se o tomba para a direita é porque é solteiro; se o deixa cair para trás, ficando com um corno no ar… significa que a vida não lhe tem corrido sexualmente bem. Já se o que o deixa cair para a frente, tapando os olhos, é porque é bêbado… e nós rimos todos a bom rir.

Ao ouvir falar de lendas, lembrei-me da minha querida amiga Emília Mena, especialista na recolha destas e tentei reproduzir-lhe a da moura encantada, que ela conta como ninguém. A Mila também vai gostar de ouvir esta… pensei.





-
Que feliz que se pode ser com tão pouco… com uma lareira, um bom café, uns bolinhos caseiros, boa companhia e grandes histórias. Senti-me sortudo, mesmo. Mais do que se tivesse comprado um grande carrão de topo de gama. Ele há coisas na vida que não têm preço…

Ainda por cima, ganhei a minha licença de condutor de renas, válida por 5 anos. Tenho de pensar em voltar para a renovar então.


Para sempre recordar

Achei muita piada a isto: slot machines lá no Modelo do sítio.

O passarão... como diz o Nani

Como é lindo o mundo lá de cima

Parece uma taça gigante com claras em castela

Os Pirinéus

A lindíssima Lisboa

Ao longe, a ponte sobre o Tejo




Na viagem de regresso, pensei nos receios e nas hesitações que me atormentavam o espírito quando estava em Helsínquia, acabado de chegar de Lisboa e à espera do voo para Kuusamo. Que fazia eu ali? E se tudo corresse mal? E se porventura não fosse capaz de fazer boa figura? E se o tempo custasse a passar?

Por mais auto-estima que uma pessoa tenha, não é de ânimo leve que um se mete assim sozinho, mergulhando de cabeça no desconhecido, por sua conta própria e risco.

Agora tudo era mais claro para mim, certo de que regressava mais esclarecido, mais rico e orgulhoso de mim próprio. Lembrei-me das boas gargalhadas que todos deram com as piadas do português; lembrei-me do tanto que aprendi; lembrei-me dos quatro beijos que o turco me deu quando me fui despedir dele à porta do hotel, algo que me tinha dito que só se fazia a quem se quer muito bem e se respeita muito; lembrei-me dos olhos húmidos da italiana; lembrei-me do livro que a austríaca me deu, quando todos os outros receberam apenas um postal, dizendo-me que achava que eu era o intelectual do grupo; lembrei-me das palavras da dura alemã que me reconheceu dotes de liderança e vaticinou que o meu regresso às finanças vai ser bem mais difícil do que eu penso; e lembrei-me do beijo engraçado que o enorme checo me deu na testa, rindo-se e dizendo-me: “Petru… I’m gonna miss you baby! Gonna miss your jokes!”, enquanto brindávamos com mais uma Lapin Kuta.

Sim, pode ser que a gente se volte mesmo a ver um dia…

Para sempre ficarão os rostos, os gestos, os momentos… tantos e tão ricos… para nunca mais esquecer.

Grato por tudo, por ter sido tão feliz… e por regressar tão mais cheio de tudo!

Bem hajam!

Kiitos!


Duas minhas grandes saudades e uma promessa a mim próprio: uma mini Sagres e um café assim que chegasse. "Minis não há...". "Ai não? Então pode ser mesmo uma Super Bock que eu sou de clínica geral". O café ainda viu o flash. Ela é que já não. Fresquinha... aaaaaah... que boa!


É... um de cada cor... e vão vendo umas coisinhas. Graças a Deus! E a mim também que me farto de fazer por isso.




2 comentários:

nuno mota disse...

Depois da chegada resolvi escrever-te estas palavras no fundo para me congratular com os ensinamentos que nos proporcionaste e acima de tudo pela satisfação de ver que mais uma vez conseguiste deixar-nos orgulhoso de te conhecermos e de fazer parte do teu lote de amizades. Pessoalmente sinto um orgulho muito grande em ter tido ocasião de conhecer e estimar desta forma um filho de um grande amigo meu que ainda hoje recordo com saudade, devido aos bons momentos vividos, na certeza de que onde quer que ele esteja se sentirá também orgulhoso de ti ! Tenho a certeza que aquilo que viste e aprendeste serviu para te enriquecer pessoalmente e poderás também partilhar com aqueles que estejam interessados em fazê-lo !!Bem hajas por tudo ! Um abraço do tamanho do mundo !!!

Artur Sequeira Portela disse...

Em certas escolas portuguesas o Bunker até fazia sentido...

Abraços e Boa Páscoa.