quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Iª Feira do Café, uma reflexão


Texto por mim apresentado na Reunião de Câmara de hoje, no âmbito das informações dos vereadores:
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Realizou-se em Marvão, no passado fim-de-semana, a 1ª Feira do Café. Enquanto vereador responsável pela cultura e pela organização dos eventos da autarquia nos últimos 4 anos, há algumas considerações que gostava de aqui expressar em sede própria.

Tratou-se de um evento que não me pareceu oportuno e com o qual não concordei desde a primeira hora, razão pela qual optei por não me envolver, deixando o caminho livre para os mentores da iniciativa.

Discordei, em primeiro lugar, por me parecer que Marvão não necessita de mais um acontecimento desta índole, sobretudo neste período do ano em que se realizam os dois eventos mais mediáticos do nosso concelho: o festival islâmico Al Mossassa (dentro de 15 dias) e a Feira da Castanha (a 1 mês e meio de distância), isto para já não referir o facto de ter ocupado o fim-de-semana tradicionalmente destinado às festas de Marvão sempre que as da Escusa ocupam o primeiro do mês de Setembro.

Recordo aqui que a vereação da cultura foi durante este mandato, duramente castigada com cortes orçamentais justificados pela difícil situação financeira do Município. Só para mencionar um caso emblemático, a Castanha passou, logo desde o primeiro ano, a ter disponível apenas metade da verba da última edição organizada pelo executivo socialista.

Vejamos o caso do Al Mossassa: seria certamente muito mais fácil pegar em 30, 40, 50 ou 60 mil euros e fazer como 90% dos casos de recriação histórica que acontecem em solo luso, em que as autarquias contratam uma empresa num procedimento “chave na mão” e se livram assim de responsabilidades e chatices. Esse dinheiro nunca esteve disponível em Marvão, essa possibilidade nunca se colocou, mas não foi por isso que se deixou de realizar o festival com um nível qualitativo bem acima de algumas outras congéneres. Só com muita imaginação, criatividade e muito, muito trabalho, convencendo artistas caso a caso, percorrendo as feiras mais conceituadas e convidando os artesãos e os stands mais importantes se conseguiu um evento de projecção nacional, com uma média de 2.500 visitantes por dia, de que todos nos podemos orgulhar.

Também não foi por falta de verba que se deixaram de inventar e organizar Comidas d’Azeite; Carnavais Foliões de Marvão; Festivais de Teatro Amador (que poderiam ser profissionais, se mais euros houvesse); Quinzenas do Cabrito e do Borrego; Festas do Bacalhau; Dias da Criança; Feiras da Gastronomia; Dias da Juventude; Al Mossassas… Fizeram-se foi, isso sim, à medida da carteira, com o que era possível conseguir, sem grandes projecções ou aparatos, com os mínimos olímpicos.

Por falta de verba caiu um Rockfest para o qual tanto se trabalhou, deixando morrer o único grande evento destinado à juventude no concelho e aquele que ainda hoje acredito que poderia ser um evento de proa do calendário marvanense.

E é nesta linha de raciocínio que me questiono, para quê um café agora? É certo que Marvão tem tradição no contrabando deste produto que serviu de sustento em épocas bem difíceis. Bem sei que existiu em tempos uma considerável indústria de torrefacção no concelho. Mas serão estes argumentos suficientes para avançar com uma empreitada deste género? E porquê agora, a um mês de um sufrágio eleitoral?

Da experiência que tenho angariado enquanto programador cultural, aprendi que qualquer evento deve sempre ser avaliado por, pelo menos, dois prismas: do ponto de vista da organização interna e do ponto de vista da afluência que no fundo, funciona sempre como barómetro.

Analisemos pois, em primeiro lugar, o que se passou em Marvão do ponto de vista criativo e funcional no passado fim-de-semana. No meu entender, nada se ficou a dever à inventividade. Convidaram-se artesãos do concelho para exporem os seus produtos em espaços cedidos pelos habitantes da vila, tal e qual como se faz de há 25 anos a esta parte na Feira da Castanha; organizaram-se concursos de doçaria como os da Castanha, com uma mera alteração de produto; quinzenas gastronómicas “idem, idem, aspas, aspas”; conferências em que os benefícios divulgados não foram os da castanha mas os do café; cobraram-se entradas a 1 euro, a favor dos bombeiros, como na Feira da Castanha; convidaram-se os bares e as associações do concelho para virem vender os seus produtos, como na Castanha; as associações de caçadores apostaram nos grelhados e nas bebidas, como é hábito em outras edições da Castanha; contrataram-se grupos de animação de rua, uns já habituées da Castanha, outros do género dos então contratados; convidaram-se os três embaixadores culturais e musicais do concelho, Rancho Folclórico, Cantareias e Escola de Música, os habituais protagonistas musicais… isso mesmo, da Feira da Castanha, enfim…

A única inovação foi mais propriamente uma mutação, uma vez que os quatro magustos estrategicamente colocados na vila foram substituídos por uma super-tenda montada no Terreiro, onde diversas marcas de café promoveram os seus produtos. Mas até este espaço era incaracterístico, moderno demais, urbano, igual a tantos outros que nos acostumámos a ver nos grandes certames, que nada tem a ver com a nossa vila ou as nossas gentes. Curiosamente, a única torrefacção do concelho presente foi deslocada para o Posto de Turismo, facto que mereceu duras críticas por parte do herdeiro responsável, das quais a tempo me escusei, por não ter quota-parte na sua colocação.

Isto para não falar no absurdo distanciamento entre áreas (Largo do Pelourinho isolado, Largo do Espírito Santo sem actividade, dois ou 3 stands encalhados no Largo de Santa Maria); nas ultrapassadas exposições de desenhos sobre café das ludotecas, a fazerem lembrar certames de outros tempos; na pouca visibilidade e interpretação dada à exposição de trabalhos fotográficos e telas na Rua Dr. Matos Magalhães e num suposto “Desfile de bolos” importado directamente de Portalegre apenas “para encher”…

Mas será que em tudo isto não houve nada de novo, uma iniciativa a louvar? Claro que sim! A ideia de aproveitar a nobreza do castelo para funcionar esporadicamente como discoteca pareceu-me brilhante. Uma excelente proposta para algumas noites de Verão, com Djs conceituados e uma divulgação mais abrangente. A criação da área de insufláveis para as crianças, que cada vez influenciam mais e mais cedo na vontade dos pais, foi outra boa ideia… E o percurso pedestre do contrabando do café, apesar da infelicidade do apelido “romântico”, foi outra notável iniciativa que deveria não só ser explorada, como homologada pela Federação Portuguesa de Pedestrianismo e “vendida” do ponto de vista turístico. A todas essas “tiro o chapéu” e louvo mas infelizmente, esse casos foram a excepção e não a regra.

A organização caiu no erro que frequentemente apontamos a outros. Limitámo-nos a copiar de nós próprios, dando um tiro nos pés. O que se conseguiu fazer foi uma má e desapropriada réplica de um evento magnífico, que nos dá notoriedade à escala nacional, a um mês da sua realização, retirando-lhe originalidade, força e projecção.

Não teria sido muito mais oportuno enriquecê-la com bons artistas do agrado do público-alvo, aqueles que nunca houve dinheiro para contratar, dignificando-a, enobrecendo-a, em vez de a transvestir?

Não teria sido preferível proporcionar no feriado municipal, aos habitantes do concelho e aos visitantes, a oportunidade de assistirem ao espectáculo de um artista consagrado, coisa que as parcas posses de muitos infelizmente não permitem?

Quanto à distribuição de verbas, porquê tão pouco para uns e tanta fartura para outros?

Porquê sempre se terá considerado a Cultura um filho menor do executivo, um alvo a abater, uma actividade secundária e agora surge na linha da frente das intenções?

Porquê se criticou sempre “as festas a mais” e agora se inventam outras assim do nada?

Tenho por hábito, em todos os eventos que organizo, solicitar uma relação exaustiva de despesas e receitas para que as possa analisar e corrigir eventuais falhas e desajustes. Faço questão que aqui, em sede de Câmara Municipal, nos seja apresentada também uma relação referente a este evento que não se limite a bens e serviços adquiridos a terceiros (os 5 mil euros da tenda e stands, as centenas de refeições…) mas inclua também a horas de todos os funcionários camarários envolvidos, incluindo o trabalho hercúleo dos canalizadores que praticamente tiveram de criar um rede de águas e saneamento específica para tanta máquina de café.

Falando de todo esse montante investido, é hora de perguntar: que retorno se obteve? Pelo que me foi dado a conhecer, da absurda estimativa inicial de 30 mil visitantes, apenas 3 mil e quinhentas compareceram. Uma diferença de zeros, dirão certamente alguns. Um verdadeiro fracasso de bilheteira na opinião de muitos outros, nos quais obviamente me incluo.

Às 15 horas de Sábado, num período considerado de ponta em termos de afluência noutros eventos do género, subi até praticamente às Portas de Ródão, sem qualquer tipo de constrangimento de tráfego e sem ter usufruído da minha condição de Vereador. No domingo de manhã, percorri as ruas da vila de bicicleta e se não fosse todo o aparato montado, ninguém diria não se tratar de um normal domingo de Setembro.

Perante estes resultados, quem nos responde? Quem dá a cara? Não serão certamente os responsáveis pela Associação Industrial e Comercial do Café que nos deixaram nessa mesma noite em que terminou o evento, aqueles que segundo sei, tomaram a experiência de Marvão como o “ano zero”, de preparação para a deslocalização do evento para outros territórios mais profícuos.

A mim, bem me podem contar histórias, falar em entrevistas e reportagens porque eu vi com os meus próprios olhos como foi e o que foi, sei a profundidade do erro e a sua extensão. A mim não me dão a volta. A mim, não me enganam com falas mansas.

Oxalá quem vier a seguir saiba reconsiderar investidas do género. Oxalá ponderem datas e oportunidades. Oxalá respeitem o estatuto de alguns eventos que levaram muitos anos a construir e já atravessam décadas e gerações. Oxalá saibam inovar com sentido, “cabeça, tronco e membros”. Oxalá…

A bem de Marvão e de todos os que por ele têm trabalhado.


Marvão, 16 de Setembro de 2009

O Vice-Presidente


(Pedro Alexandre Ereio Lopes Sobreiro)

10 comentários:

g.s.r. disse...

Oxala... repense numa candidatura.
O concelho precisa de pessoas como o Pedro. E eu que não ligo nada a política, mas interessa-me o bem estar dum concelho.

Emma Serrano

nuno mota disse...

Não existem duvidas, ainda não abandonas-te a vereação e já existem saudades tuas ! A pensar e a agir assim como responsavel por uma autarquia, o nosso País seguramente não seria aquilo que é e seria olhado de outra forma por todos os cantos do Mundo! Mas sabemos que os cargos por vezes transformam as pessoas pelo que conhecendo-te como conheço, com exemplos desses, serias dos que n~~ao te deixarias transformar e darias um OPTIMO AUTARCA, defensor do nosso Concelho que bem precisa de pessoas que, como tu, olhem mais alem da politica e... etc !!! Abraço grande !!! Vai descansar e volta na proxima pois fazes MUITA falta !!! Abraço grande !!!!

nuno mota disse...

Ah, e quando voltares volta de novo pela porta grande que é o teu lugar !!! rsrsrsrs

Nuno Pires disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Nuno Pires disse...

Quase me matavas!!!! Com a seriedade desta reflexão ia lendo, lendo, lendo.... e até me esquecia de respirar.

Aplicando todo esse teu raciocinio a uma Grande Empresa o que aconteceria aos Administradores da mesma? Provavelmente eram demitidos, perante uma gestão incorrecta neste caso de eventos.

Penso que uma Autarquia tem de ser olhada com uma visão estratégica, e equilibrada, tal e qual as empresas.

Por vezes preferia nem ter conhecimento deste tipo de coisas, pois pergunto a mim mesmo como é possível num concelho tão pequeno, existir tanta competição.


Grande Abraço Pedro,

Parabéns pelo teu trabalho.

Nuno Pires

Artur Sequeira Portela disse...

«Por falta de verba caiu um Rockfest para o qual tanto se trabalhou, deixando morrer o único grande evento destinado à juventude no concelho e aquele que ainda hoje acredito que poderia ser um evento de proa do calendário marvanense.»

É verdade Pedro...mas a maioria só se importa com a 3ª idade...
Eles pensam que bebem uns copos e está a festa feita...
Eles sabem lá!!!!!

santoslimaright@gmail.com disse...

João Santos Lima

Não posso estar mais de acordo com tudo o que foi escrito e muito bem escrito. Com os comentários estou igualmente de acordo. Como é possível ter-se desprezado a Juventude? A visão global expressa no texto é FUNDAMENTAL é URGENTE que os futuros AUTARCAS A TENHAM. Um abraço amigo

Gilberto Gil disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Gilberto Gil disse...

Fico contente pelo Nuno Pires ter esta visão de uma grande empresa! E assim levar esta ideia para uma Autarquia!
Mas seria bom que não fosse uma grande empresa como as da actualidade, pois seriamos sacrificados por estar a respirar muito ar e a beber muita água!
Mas de facto, a visão estratégica e o equilibrio são essenciais!
Bem pensado!

do alto de marvao disse...

Acho muita graças a esta gente toda!!!!
Mas também sei que o assunto foi a reunião de Câmara, mas não consta aqui o que foi dito pelo Presidente nessa mesma reunião!!
Acho que para analizar as coisas temos que saber a resposta do Presidente! Falta colocar a resposta. Depois da resposta aqui estar então analizamos!
Um abraço