
Passava pouco da meia-noite, talvez uma meia-hora, quando me estiquei no sofá, rendido ao cansaço e ao silêncio da sala, com o código do IRS e as suas indomáveis manobras a latejarem nas têmporas. Tinha sido um dia duro de trabalho. Estiquei-me ao comprido e liguei a televisão para ver se desanuviava, não fosse eu ter pesadelos com os abatimentos e as deduções.
No ecrã, vejo os nossos Delfins (não, não eram os do Miguel Ângelo!) a sorrirem de par em par. “Olha que dois!”. O Durão e o Sócrates todos sorridentes, com o ar mais feliz do mundo, a fazerem lembrar a rábula do Sr. Contente e do Sr. Feliz, dizendo da sua graça. “A Cimeira de Lisboa é um sucesso. O Tratado já está e vai ser assinado em Dezembro. Nós os portugueses somos muita bons e viramos uma página da história da Europa e ta-ra-ta-ta, ta-ra-ta-ta…”.
E eu a imaginar uma manif de polícias ou enfermeiros a entrar por ali adentro. Era capaz de ser giro!
O quadro pareceu-me perfeito. O Sócrates com aquele olhar de vesgo, de quem está mesmo a precisar de umas gotinhas de Visadron, e o Durão com aquele ar de inchado que lhe meteram lá para Bruxelas… É impressão minha ou o homem parece mesmo que está soprado?
Só me deu vontade de ir ao sótão buscar a bandeira e correr para a rua aos gritos. Mas tentei-me acalmar, não me fosse rebentar uma veia qualquer.
Despedi-me deles e parti num zapping final por todos os canais da TV Cabo, uma das minhas maneiras favoritas de terminar o dia. Só parei na CNN, onde a malta do Paquistão resolveu dar as boas vindas à Benazir Bhutto com dois atentados suicidas. Um estrondo brutal mas parece que lá para aquelas bandas a coisa é mesmo assim.
Passei no XXL onde estava no ar uma fita softcore que mais parecia uma transmissão olímpica de ginástica.
E eu pensei: a Cimeira de Lisboa é uma boa oportunidade para eu falar de pornografia.
Não sei explicar bem porquê, mas parece-me que são coisas que ligam bem, como as ervilhas com o ovo escalfado.
A estas horas já está meio-mundo de boca aberta, outros a virarem a cara, outros a desligarem a CPU.
“Estará a falar a sério?!?!?!?!?!?! O gajo pirou de vez! Isso é coisa de estiva, de pedreiros, de chunguice, de ralé, de ciganos, de presos! Que falta de gosto, que falta de educação!”
Calma! Slow down, honey! Vamos descer ao nível do entendimento.
Sim, meus amigos. Porque não?
Nas aulas de Antropologia da Faculdade, não se cansavam de nos repetir que o homem é um animal com verniz cultural. Quando estala o verniz, salta o macaquinho que está cá dentro.
E é bem verdade! Todos concordamos que o ser humano é sensível à dor. Independentemente das convicções ou religião, custa-nos sempre quando vemos imagens de alguém a sofrer, alguém que passa fome, que está doente, que está mal.
Por outro lado, quase todos nós ficamos felizes quando vemos os outros sorrirem e estarem saudáveis e bem dispostos.
Indo um pouco mais fundo na minha maneira de ver as coisas, o ser humano é incapaz de ficar insensível perante o prazer, o sexo e em última instância, perante a sua exibição. Para quem estudou Freud e acredita no que o velhinho disse, a coisa pode ainda ser mais determinante já que quase tudo na nossa vida é condicionado pelas pulsões de cariz sexual que nos marcam desde o berço até à cova.
Despidos dos nossos tabus, sozinhos perante a evidência, compreendemos que a pornografia pode ser o derradeiro apelo à nossa condição primitiva.
O problema é que nós em Portugal ainda estamos muito condicionados por um século de repressão, em que vivemos oprimidos por um sistema social e educativo muito dominado pela Igreja, sempre rígida e manipuladora. Para nós, portugueses, o sexo ainda é tabu.
Seria bom se também aqui fossemos mais latinos, mais mediterrânicos, mais abertos e mais livres. Vivemos mal com a nossa sexualidade. Na maior parte do tempo, fingimos que não existe, faz-de-conta que não sabemos que é daí que todos vimos. Convencemo-nos uns aos outros que os bebés ainda chegam de França no bico de uma cegonha. Somos como os Teletubbies: sorridentes e assexuados.
E depois estranhamos quando os pais de família com posição e carreira saem de casa e do armário e rumam noite dentro à caça de meninos nas cidades…
É por isso que este pode ser um bom ponto de partida, um bom arranque para a educação sexual que nunca tivemos.
Há cautelas a tomar! Eu digo que este tipo de entretenimento é como o Jazz: cai-se facilmente na tentação de dizer que tudo aquilo é igual, que é sempre a mesma coisa, mas não é. É preciso educar… o ouvido.
E eu nem sou um particular entusiasta da modalidade. Digamos que sou um simpatizante e nada mais.
Não critico aquelas pessoas que passam as tardes a chorar à frente da televisão, a verem os filmes da tarde da TVI, dos coitadinhos, dos que sofrem e são encornados e depois ficam muito aliviadas porque carpiram no mal dos outros, os seus próprios males.
Mas para mim, há coisas bem melhores…
Descobri este mundo nos restos das revistas que os ferroviários deixavam esquecidas no chão, junto às camaratas estacionadas perto do depósito da água na Beirã. Eu e os meus amigos, ainda todos de calções, ficávamos pasmados a admirar o que seria aquilo. Os mais velhos faziam o favor de explicar e quase sempre confiscavam a mercadoria. Mas deu para fazer uma ideia. Nós a olharmos uns para os outros e os rufias a rirem-se enquanto caminhavam e nos deixavam para trás.
Na altura não havia Internet nem nada dessas modernices e nós contentávamo-nos com os calções curtinhos das Doce e o fato prateado da Super-Mulher.
No ciclo, ver representações de nus, só se fosse na “Enciclopédia do Corpo Humano” que não nos deixavam requisitar. A Professora de Biologia saltou o capítulo da Educação Sexual. Alegou que a turma era difícil. Os pais não falavam muito sobre isso. Eram os anos 80.
Voltei a apanhar esse andamento mais tarde, numa versão soft de edição portuguesa, a efémera “Élan”, que marcou a vida de Lisboa e a mentalidade do país. Naqueles anos loucos em que a cocaína e o champanhe marcaram o andamento da nossa capital, foi uma luz na escuridão que culminou com o escândalo do arquitecto Taveira e as suas incursões…à retaguarda. Por aquelas páginas passaram os novos valores da socialite do país, muitas carinhas e corpinhos larocas da rádio, tv e disco, que nos acompanham, algumas delas, até hoje.
O primeiro filme para maiores de 18 vi-o na mítica sala nº 1 do GDA, em Santo António, numa sessão das 11 e meia. Entrei à socapa, fiz-me passar por mais velho e antes que pudessem olhar para a minha cara para aferirem se era verdade a idade que dizia ter, já eu estava sentado no 1º balcão. O título era sugestivo, “Sexo na Selva” e a sala estava ao rubro. A fita era algo surrealista, a senhora que a projectava também, e havia uns cortes pelo meio onde apareciam umas pessoas num quarto que eu ainda hoje estou para saber quem seriam. Foi mau mas divertido. Foi tema de conversa entre amigos durante semanas.
Na altura do Liceu já se mostravam umas Playboy nas bancas, sobretudo a versão espanhola e a sempre excelente edição brasileira. As grandes divas das novelas revelaram-se ao mundo inteiro como Deus aqui as plantou, despidas mas com os bolsos cheios de dinheiro.
Depois veio o vídeo e o dvd e a net e a coisa tomou proporções à escala mundial e está para além do controlo de seja quem for. Sexo é a palavra mais digitada nos motores de busca e com isto digo tudo.
De todas as publicações, resta uma merecida menção à revista “Gina”, um verdadeiro ícone cultural do nosso país, autêntico rito de passagem que marcou gerações, quanto mais não fosse, pelas as suas pródigas prosas.
O bizarro mundo que gira à volta desta indústria parece estar agora a ganhar terreno e a instalar-se nas mentalidades cá do burgo. Já brilham as Feiras temáticas na capital e no Algarve, o negócio prolifera, parece haver uma maior abertura. Afinal, pornografia não é prostituição. Pornografia é legal e prostituição não. São coisas bem distintas.
Agora já há a FHM e a Maxmen e os homens não se envergonham de as comprar nas bancas à frente das mulheres até porque têm muitíssima qualidade e são dirigidas por dois dos meninos bonitos do extinto “Independente”, para além de serem dois jornalistas de gabarito: Pedro Boucherie Mendes e Domingos Amaral, respectivamente.
É preciso fazer um esforço para abrir as mentalidades. Na minha cadeira de “Seminário de Investigação” da Faculdade, quando disse que o meu tema era “A educação sexual através da imprensa cor-de-rosa”, um mergulho nos consultórios sentimentais da “Maria” e afins em busca das linhas orientadoras dos gurus de então, todos se riram. No final, se bem me recordo, foram 16 ou 17 valores para o grupo.
Porque é preciso desmistificar esta questão, vamos pegar nas pessoas que têm nojo e questioná-las perante a realidade. Provavelmente viram o “9 semanas e Meia”, o “Orquídea Selvagem”, o “Ultimo Tango em Paris”, o “Emmanuele”, o “Pato com Laranja” e até gostaram.
E eles respondem em coro: “Ah, mas isso não é pornografia!”. “Ai não? Mas está a um degrauzinho só!”.
E bem vistas as coisas, se calhar até viram “O Império dos Sentidos” e o “Garganta Funda” que agora até têm direito a documentários e a edições especiais e não ficaram chocados.
Há que saber ver as coisas com olhos de gente e ver onde está a qualidade. Um dos meus realizadores favoritos, Paul Thomas Anderson, autor do belíssimo “Magnólia”, estreou-se com o brilhante “Boogie Nights”, um filme que presta homenagem a esta específica indústria cinematográfica e ao seu anjo caído, John Holmes, e chegou a ter candidatos aos Óscares…
È importante que partam sem preconceitos e ponham os mitos de lado. Do género:
1) Os filmes para maiores de 18 são sempre a mesma coisa!
Resposta: Para além de não ser verdade e de existirem inúmeras sub-categorias, há imensas coisas na vida que são sempre iguais e isso não é necessariamente mau, certo?
2) Os filmes para maiores de 18 são uma nojice e uma pouca vergonha!
Resposta: Podem ser, mas para pouca-vergonha, já bastam algumas exibições do glorioso nesta época e as pessoas continuam a ir ao estádio.
3) Os filmes para maiores de 18 não têm história!
Resposta: Outra vez errado. Há belíssimas histórias de amor dentro do género. Mas realmente, se querem histórias a sério mais vale lerem o “Guerra e Paz” do Tolstoi ou o “Vermelho e Negro” do Stendhal. Histórias dessas não são para aqui chamadas.
4) Os filmes para maiores de 18 não têm grande aparato!
Resposta: Negativo. Há-os com tanques de guerra e até com aviões e helicópteros. É uma indústria profícua…. Tanto por descobrir!
4) Os filmes para maiores de 18 são maçudos e tecnicamente são vazios!
Resposta: A maior das mentiras! São inclusivamente estudados em escolas de cinema. Tudo ali é pensado ao pormenor: a música, os ângulos, a mise-en-scéne, a colocação da voz, os travellings… Basta prestarem atenção. Têm a sua arte.
Como vêm, tudo mitos! Para terminar e em jeito de conclusão, tenho de dizer que o Quentin Tarantino adora-os e eu também não desgosto, vá lá!
Da próxima vez que se cruzarem com um, não confundam puritanismo com hipocrisia.
Ou ao menos reconheçam… quantos de você, meus ratinhos da net, não recebem todos os dias uns exemplares desses ficheiros marotos terminados com um XXX? E aposto que não vão directos para a reciclagem sem uma vista de olhos, certo?
Sendo assim, e uma vez que já estou encostado ao muro, quem nunca tenha prevaricado… que atire a primeira pedra.