
Os portugueses são peritos em fazer reuniões que não dão em nada.
Sob o pretexto de estarem a fazer algo verdadeiramente importante, recriam-se em conversas inúteis, em fantochadas que quase nunca dão em coisa alguma.
90% das que assisto são meras formalidades, tão pretensiosas como inócuas.
O seminário de hoje, em Évora, não foi excepção. Numa manobra bem ao estilo do governo Sócrates, as cabeças pensantes prepararam um roadshow que percorre o país com o suposto objectivo de informar os agentes culturais de novas formas de financiamento. O que poderia à partida ser uma boa oportunidade para aprender e descobrir novos caminhos para viabilizar programações na área, cedo se revelou com uma jornada que quase nada acrescentou e onde todos os oradores se limitaram a ler powerpoints que nem sequer foram adaptados ao público-alvo e não passaram da cepa torta.
Um dia inteirinho disto! Como a manhã foi mais do que elucidativa de como iria ser a tarde e sabendo que as apresentações iriam depois ser disponibilizadas no site oficial, eu e o Dr. Nuno Ferreira, técnico da área de projectos e candidaturas da CM Marvão que me acompanhou, decidimos que não havia mais tempo a perder e fizemo-nos à estrada.
Enquanto percorríamos as artérias circundantes da cidade, pejadas de rotundas e cruzamentos, falávamos da vida e de como as coisas que têm mesmo de acontecer acabam por nunca falhar.
Nesse preciso momento, quando passávamos o cruzamento junto à Eborae Música, uma senhora com ar apressado decidiu arriscar e começou a atravessar a passadeira em passo de corrida, não respeitando o sinal vermelho para peões. Mal tive tempo de meter pé ao travão e consegui imobilizar a viatura a uns escassos dois metros dela. Em vez de parar, recuar e corrigir o erro, persistiu na sua tentativa…
Segundos depois, sou interrompido pelo barulho ensurdecedor da travagem de um carro que surge na via esquerda imediatamente a meu lado.
Quando me viro, assisto, ali mesmo junto a mim, ao choque brutal entre a viatura e senhora que embateu com violência no capot, foi transportada por instantes na frente da carrinha e saiu projectada no ar por vários metros quando a esta parou por completo. Parecia uma autêntica boneca de papel a pairar no ar.
Só tive tempo de estacionar na berma e sair a correr, a tempo de gritar ao condutor da carrinha para que não tocasse na senhora até que chegasse auxílio. Por instantes, temi que estivesse morta mas parecia estar consciente, apesar de imóvel e a sangrar imenso da fronte. Tentei acalmar o condutor, e começámos de imediato a ligar para o 112. Quando consegui linha, tentei a custo explicar o local onde nos encontrávamos.
Do meio da assistência surgiu então um jovem médico que com uma calma impressionante tentou socorrer a senhora enquanto aferia a gravidade da sua situação. Foi dando instruções à equipa em linha através do telemóvel que lhe segurei junto ao ouvido e minutos depois chegou a ambulância. A senhora estava consciente, mexia os pés e os braços, mas parecia estar muito magoada por dentro. O choque foi brutal. Segurei-lhe a mão e tentei acalmá-la, sabendo lá se se ficaria no instante seguinte. Colocámos-lhe uma estrutura plástica por baixo do corpo e depois de estar na maca, seguiu para o Hospital de Évora, já devidamente imobilizada. Parecia que o pior já tinha passado.
Virei-me depois para o condutor e os agentes da PSP. Acedi de imediato quando este me pediu para ser testemunha. De facto, o condutor estava completamente inocente. Era impossível ter reagido a tempo. Foi tudo tão rápido e inusitado e o seu campo de visão era praticamente nulo...
Depois de preencher a declaração com o meu relato, nada mais podendo fazer, segui o meu caminho. O condutor que agradeceu reconhecido o meu gesto, apresentou-se como sendo uma alta autoridade de uma polícia especial. Fosse quem fosse. Ali não havia outra coisa a fazer.
Embora estejamos habituados a ver cenas destas nos filmes e nas televisões, presenciar uma tragédia destas é algo que jamais se apagará da minha memória. As imagens e sobretudo o som do embate, vieram todo o caminho a fazer ricochete no meu pensamento. Os nervos do momento baixaram-me ao estômago e vim como se um peso estivesse dentro de mim.
Liguei há momentos para o hospital. Do banco disseram-me que a situação era mais grave do que parecia. A vítima está neste momento nos cuidados intensivos, lutando entre a vida e a morte.
Tudo se esfuma numa fracção de segundos. 60 anos de uma vida… quantas alegrias… quantas tristezas… que família… quantas coisas por fazer…
E nós… que passamos as nossas vidas ralados com miudezas, com pormenores sem importância…
E eu… que me tenho deixado abater e aborrecer por coisas e situações que não merecem nada…
Fico a abanar...
Porquê ali e assim?