domingo, 12 de maio de 2013

O meu adeus ao futebol


Na universidade, quando nos querem ensinar a ser jornalistas, ensinam-nos que uma imagem nunca pode significar mais de mil palavras. Nesta discordo em absoluto. Por mais que se diga, não se conta.


Passadas algumas horas, depois de uma noite tranquila de sono, parece-me que já sou capaz de pensar, de raciocinar, de meter os neurónios a funcionar. Porra, aquilo ontem foi duro demais! Foi um golpe tremendo… Foi trágico e repentino. Depois de sofrer um autogolo (marcado por um dos nossos na própria baliza), perder com um golo no último minuto, na última jogada do jogo, já nos descontos, foi duro demais! Pior ainda do que as minhas piores previsões que imaginavam um Porto avassalador, com um futebol estonteante. Duro demais para ser verdade! Impossível de acreditar. Quando o apitou final soou, eu perdi o pio. Literalmente.


Perdi o pio mas ainda tive o pio suficiente para dar os parabéns aos dois portistas de quem sou amigo há muitos anos e estavam a assistir ao jogo em silêncio no mesmo restaurante. Tive o pio para dar os parabéns a um outro portista de quem sou muito amigo e encontrei no caminho para casa. Ele queria mais conversa mas essa não lha dei. Dei-lhe os cumprimentos, fui educado e ponto. Tive ainda o pio para dar os parabéns pela vitória e pelo campeonato via sms a um outro amigo de infância que me enviou uma mensagem para o telemóvel nessa noite. A vingança é um prato que se come frio e eu, como todos os benfiquistas, falei cedo demais. Foi uma bofetada muito bem dada. A sorte premiou quem quis mais vencer o jogo. A sorte esteve do seu lado porque quiseram sempre vencer, tiveram sempre os olhos na baliza, nunca desistiram, conseguiram desmontar a estratégia de quem pensava ter tudo controlado. Nem foi o árbitro, nem foram as artimanhas que eram o que eu temia. Foram melhores. Mesmo que isso fosse apenas visível em dois lances: um por culpa deles e outro por acaso. Mas foram melhores e mereceram!


Fui ver o jogo com uns amigos benfiquistas no restaurante do amigo e grande benfiquista JJ Videira. Quando aquilo chegou ao fim não fui capaz de ouvir comentários, nem análises, nem nada! Pedi desculpa por me retirar, meti-me no carro e vim em silêncio até casa e no mesmo silêncio me enfiei na cama. Eles ficaram todos muito preocupados comigo, que viríamos todos juntos, quem me viriam cá trazer. Eu percebi a sua preocupação pelo meu passado naquela estrada, naquele trajeto. Tranquilizei-os, garanti-lhes que viria nas calmas e lhes mandaria uma mensagem quando chegasse ao destino, como aconteceu. Eu estava como o Jorge Jesus ficou, quando viu a bola entrar e tinha o jogo, o resultado e o campeonato na mão, fiquei de joelhos. Esperemos que perca também o lugar de treinador porque mais um ano a ver o campeonato voar é demais. Vim tranquilo e fiquei tranquilo. Doído mas inteiro. Aquilo é apenas um clube de futebol. Por mais que me custe: é apenas um clube de futebol.


Com esta idade toda, com 40 anos que vou fazer já em Junho, ainda aprendo. Hei-de aprender sempre, até ao dia em que deixar de respirar. Ontem aprendi duas lições importantes. Duras de aprender mas importantes.


A primeira lição é que a fé é como a liberdade. Mais ou menos. Com uma ligeira variação. Da liberdade aprendi, sei e defendo que a nossa liberdade acaba onde começa a dos outros. Respeito é a palavra de ordem. A fé é mais ou menos assim. Pode juntar-se à dos outros (que faz uma força poderosa como acontece em Fátima) mas a fé pode não funcionar quando choca com a fé dos outros. A ver se me consigo explicar: quando estive em coma, sei que a fé da minha família e dos meus amigos, em que viria a recuperar foi determinante. Foi importante também porque numa noite em que muitas pessoas encheram a igreja de Nossa Senhora do Carmo da Beirã para rezarem o terço por mim, eu acordei do sono da coma. Coincidência, poderão pensar os mais cépticos. Eu defendo que foi algo mais. Mas a fé dessas pessoas não iria chocar com a fé de ninguém que pudesse ter fé que eu ficasse mal ou não recuperasse! Outra coisa já é quando a nossa fé quer coisas que a fé dos outros também quer. Um dos amigos que estava ontem a jantar comigo levou o filho, um miúdo pequenito que deverá ter uns 7 anitos ou por aí. Nos minutos finais, o pequeno, muito engraçado, fartava-se de rezar com as mãos em prece e tudo. Rezava para que o Benfica não sofresse um golo e não perdesse. Pensando nisso, perguntei-me: quantas crianças do FCP estariam a fazer o mesmo para que o seu clube marcasse um golo? E quantos adultos? As fés podem competir? E quem ganha aí? Quem tem mais fé?


Mas quererei eu dizer com isto que não vale a pena ter fé? Que já não acredito em nada? Não! Eu chamo-lhe Deus mas é o nome que eu dou ao capataz do mundo, ao chefão disto tudo. Alguém que não tem cara, nem corpo, mas é uma força que tudo regulamenta e domina. O mundo é tão complexo, tem tanta coisa que certamente haverá uma força que regula tudo. O tempo, os elementos… tudo! Eu acredito nisso e é a essa força que rezo, que peço aquilo em que acredito e quero. A saúde dos meus, o bem estar dos meus, a felicidade dos meus sendo os meus: a família e os amigos. Peço por isso com convicção do bem. Pelo Benfica, como pedi anteontem, não irei pedir nunca mais na vida pelas razões que aqui descrevo, disso vos garanto. Essa foi a primeira lição.


A segunda lição é que posso continuar a ser do Benfica. Simpatizante do Benfica. Mas sócio capaz de mandar para lá dinheiro para aquela corja nunca mais! Doente como fui até ontem, nunca mais! Ontem foi um dia para mim decisivo. Já tive outros dias de resoluções assim importantes: deixei de fumar de um dia para o outro, numa resolução de ano novo, quando em 31 de Dezembro de 2001 tinha nascido a minha primeira filha Leonor há dias. Essa data ficou. Esta também vai ficar: 11 de Maio, dois dias antes do 13 de Maio Da outra vez larguei os cigarros. Ontem larguei o Benfica. A ligação não era cerebral. Antes era emocional e tem de acabar. Sofrer pelo clube nunca mais! Pela família e pelos amigos sim. Pelo clube não! Ontem já muitos avançavam em conversa para outros campos mas: EU QUERO LÁ SABER SE O BENFICA GANHA A LIGA EUROPA! QUERO LÁ SABER! Posso ver o jogo mas não vibro. Isso era dantes! Agora, se até o Pinto da Costa desejou que o Benfica conquistasse esse troféu nas declarações que fez ontem à noite e bem, muito bem da parte dele (e agora que não sou tão cego do Benfica tiro-lhe o chapéu e até já simpatizo com o homem, coisa que era impossível acontecer no passado!), eu também gostava que a taça da liga europa viesse para Portugal. Mas não vou sofrer por isso! E caravanas pela bola nunca mais! Eu sou mesmo é da minha família e dos meus amigos, dos que me são queridos. Do resto, ninguém mete em mim o ferro da marca. Nem o futebol, nem a política. Eu sou daquilo que quero ser e da forma que eu quero ser. Quando fui eleito vereador pelo PSD decidi, após ter ganho as eleições, tornar-me militante. Era uma forma de agradecer aquilo que o partido tinha feito por mim e como sempre gostei do Sá Carneiro e da sua visão, achei por bem. Achei por bem mas já nem pago as quotas, já nem voto no partido. Raio que os parta! Eu sou dono de mim e quem tem o prazer de ter a anilha em mim é só a minha Cristina. Quanto ao resto, continuo rebelde e selvagem. Livre! Eu sou livre! A liberdade que é o maior valor de todos, maior que o amor até, reina em mim. Viva a liberdade!


Eu sei que neste blogue o “nunca mais!” à luz dos últimos acontecimentos tem pouco valor para os leitores. Mas é pouco provável, digamos assim, que vejam aqui mais textos sobre o Benfica. Podem surgir sobre futebol mas com fervor de doença benfiquista, não esperem mais. Estou vacinado. Fiquei ontem. E olhem que a pica doeu! J  


6 comentários:

Helena Barreta disse...

Pedro, compreendo perfeitamente o que diz, pois para mim, o que vale mesmo a pena festejar e celebrar é a vida, é termos saúde e família, é o bem estar dos nossos e agradecer, todos os dias, o que temos de mais valioso.

Ao contrário do futebol, na vida pode não haver uma segunda oportunidade, mas quando há, isso sim é A Vitória.

Um abraço

Unknown disse...

Amigo, isso chama-se frustração! A frustração tem que ser ultrapassada. E, certamente, teres escrito este excelente texto já te ajudou a combater essa frustração…

Por isso, peço-te que comeces, desde já, a reconsiderar essa atitude face ao “sofrimento” clubístico, no qual também me incluo. Tu és um dos mais apaixonados benfiquistas que conheço e com quem mais gosto de partilhar estes momentos de benfiquismo.

Passamos o tempo a “actuar” no domínio da racionalidade neste teatro que é a vida, pelo que, além do da família e amigos, se há universo onde é bom dar largas à emoção e à paixão é este… o do futebol, o do Benfica!

Eu também não sou de partido nenhum, mas do Benfica sou desde que me conheço e serei até morrer. E do Arenense!

Sobre a fé sabes o que penso. E, nessa matéria, fico-me por aqui… para não ferir susceptibilidades… neste teatro da vida!

Sobre o jogo de ontem e o futebol em geral, tenho a mesma opinião do Valdo, ontem expressa no “Expresso”. Teorizam-no demais! É verdade que o futebol inclui tácticas, estratégias, profissionalismo e trabalho mas inclui também muita paixão e muitos momentos de sorte (ou falta dela).

Se, ontem, por acaso aquela última bola não tem entrado, hoje o Benfica seria considerado o maior e considerar-se-ia que o Jesus teria montado a estratégica certa para, neste momento, levarmos por diante os nossos objectivos…

E, se por acaso, uns minutos antes o livre do Cardoso tivesse entrado, mesmo que fazendo “tabela” num do Porto?

Nesse caso o PIB teria crescido um pouco mais! Por exemplo, nós teríamos consumido a normal sobremesa (doce ou fruta) e até, talvez, champanhe… E queimaríamos mais uns litros de gasolina. Imagina o multiplicador disto a nível nacional!

Grande abraço e votos de recuperação até quarta feira…

Bonito Dias

Tiago Pereira disse...

Amigo Pedro,

Reforço o pedido do Bonito, para que não largues esta "família" que precisa de ti, precisa de todos!!

Racionalidade e Futebol, são duas palavras que não combinam...e por isso deixa o coração falar mais alto!

Tira uma "licença sabática"...até quarta-feira, e depois voltamos a falar!!

Tal como a política, no sentido nobre da palavras, o Futebol é uma Luta para o resto da vida...

...e vida haverá para celebrarmos Juntos vitórias nestes campos!!

um enorme abraço

Jorge Miranda disse...

Tio Sabi,
até eu Sportinguista dos sete costados fiquei dorido.
Mas uma equipa que a 2 minutos do fim, tem a bola para um lançamento lateral a 10 m da linha de baliza do adversário e sofre um golo no conta-ataque não merece ser campeã.
O que foi fazer o Matic, o Enzo peres e o Luisão áquele lançamento?
Isto é que os jornais deviam discutir e não discutem...
Um abraço
Jorge Miranda

Pedro Sobreiro disse...

Comentário recebido via email e publicado a pedido do autor em diversas partes pela dimensão, o meu amigo Nuno Pires:


Meu querido Amigo Pedro,

Quem gosta de Futebol, sente e vibra como tu por um clube, não se consegue desligar dessa paixão.

Percebo o que escreves e sei perfeitamente o que sentes, pois a dor é enorme e custa muito mas muito a desaparecer.

Mas é assim amigo, futebol é emoção e risco, quando o nosso clube atinge os patamares que atingiu esta época corremos o risco de ganhar tudo, mas também podemos não ganhar o Óscar como o grande Jorge Jesus defende.

Conheces-me e sabes o que sofro pelo Futebol, o que sofri pela Selecção Nacional desde 2004, mas principalmente pelo Benfica.

Eu também jurei que podia viver sem o Futebol, no ano em que tive a história que conheces com o Giovanni Trapattoni, pensei que não iria sofrer mais pelo Benfica.

Engano meu! Hoje respeito muito mais os profissionais de Futebol que antes, pois também erram como nós, sofrem como nós, pois são como nós.

Em 2009, por razões profissionais conheci um arbitro da 1ª Liga, com quem falo muitas vezes sobre futebol. Trocamos muitas sms poucas horas passadas após o apito final de muitos jogos que tem apitado do Benfica. E esse respeito que construi dos profissionais de Futebol após a minha história com o notável Trapattoni, alargou-se também a arbitragem.

Eles são personagens de episódios de um Mundo diferente, mas acredita que depois são tal e qual como nós e sofrem também como nós.

Pedro Sobreiro disse...

Pedro,

O que é que tu preferes, um Benfica que acaba o Campeonato a 15 pontos do FC Porto, ou um Benfica que discute até ao último minuto um campeonato na casa do seu maior rival?

Preferes um Benfica fora das competições Europeias, ou um Benfica que na próxima época vai entrar no Pote 1 da Champions?

Pedro,

Qual terá sido o sofrimento dos adeptos do Bayern Muniche a época passada quando perderam a final da Champions na sua própria casa? Terão abandonado? Terão voltado este ano novamente após apuramento para a final da Champions deste ano?

Qual terá sido o sofrimentos dos adeptos do Man. United, quando no ano passado comemoravam a conquista do titulo, e já nos descontos o vizinho Man. City virava o resultado de 2-1 para 2-3 em apenas 3 minutos, desviando também assim o titulo de Campeão?

Qual terá sido o sofrimento dos adeptos do Bayern Muniche, na celebre final da Champions de 1999 em Barcelona, a ganhar 1-0 ao minuto 89, e em que viram tudo mudar nos 3 minutos de compensação para 1-2, e perder assim uma das principais competições que qualquer um ambiciona ganhar.



Pedro,

Existem muitas, mas muitas histórias destas e que vão ficando registadas nas memórias dos apaixonados pelo futebol, como é o teu caso, o meu e muitos dos amigos que temos em comum.

Lembra-te, o que era o Benfica de Manuel Damásio e do Manuel Vilarinho, contabiliza a quantidade de jogadores que transaccionávamos, os treinadores que sepultávamos, erros atrás de erros.

Hoje temos um grande Presidente e um grande treinador. Temos um Presidente visionário que se sabe rodear, temos nesta direcção o Futuro do Benfica, o próximo Presidente vai sair desta estrutura, e Jorge Jesus tem sido peça importante neste projecto. Vamos despedi-lo? Contratar quem? Começar tudo de novo? Não temos que acreditar!!! Temos que apoiar!!! Se tivesse em Lisboa estaria no Aeroporto a aplaudir. Tenho um episódio de um jogo que o Benfica fez em Guimarães para o Campeonato Nacional em 18-02-2006, e que hipotecou praticamente as hipóteses de ganhar o Campeonato, 3 dias depois jogávamos na Luz a 1ª mão dos 1/8 de final da Champions com o Liverpool que acabámos por ganhar 1-0 com um Golo do Luisão já +/- ao minuto 85. Eu que estava em Lisboa fui ao Aeroporto esperar a Equipa mais a Gabriela que muita paciência tinha para estas minhas aventuras. Havia um forte dispositivo policial, mas éramos os 2 únicos adeptos. Cumprimentei todos os jogadores que de cabeça baixa por mim passavam, e lembro-me que o Simão capitão de Equipa, me felicitou a mim pelo gesto, pela atitude, pelo reconhecimento. Felizmente que nos Domingo já não eram só 2 mas sim muitas dezenas. Estamos no bom caminho, apoiar nos bons e maus momentos.



Pedro peço-te que reconsideres e continues a vibrar e a viver esta magia que é o Futebol!!!

Deixo-te de 2 vídeos:

O Primeiro que sirva para te motivares e recuperares a paixão que sempre tiveste pelo Benfica;

O Segundo, um video que ilustra que temos que olhar em frente e abordar assim, a importante final da próxima 4ªFeira.

FORTE ABRAÇO.

E VIVA O BENFICA



https://www.youtube.com/watch?v=IuaO7KfKFYA



https://www.youtube.com/watch?v=uDdgX2jl08k