segunda-feira, 13 de dezembro de 2021
Roubo nerlandês no Golfo Pérsico
sexta-feira, 3 de dezembro de 2021
Eu sei para onde é que TU ias! De canoa!!!
Vivemos
num Estado de Direito, livre e democrático, pois vivemos?!? Se assim, é…siga!
Este
filha da puta, ministro da administração interna num governo que lidera o
estado para o qual trabalho, não se enxerga!!!!! Nem se enxerga ele, nem eu
consigo enxergar já o líder, primeiro ministro, no qual votei mas já não irei
repetir tal gesto, porque o que é demais, é demais!!!
Mas
já lá vamos. Por agora, fiquemo-nos em que saiu finalmente a decisão
relativamente a esta situação, que é uma afronta para todos nós, porque “o
Ministério Público (MP) deduziu acusação contra o motorista do ministro da
Administração Interna, Eduardo Cabrita, condutor do veículo envolvido num
atropelamento na A6, a 18 de Junho de 2021. A vítima, Nuno Santos,
era um trabalhador
da limpeza da estrada com 43 anos. De acordo com o site do Departamento de
Investigação e Acção Penal (DIAP) de Évora, o MP imputa-lhe um
crime de homicídio por negligência e duas contra-ordenações.”
Quem é que se lixa e está na mira?!? O motorista!
Quem
é que para vós, era o chefe daquela viatura, o responsável máximo, aquele que
teria de dar a cara por qualquer coisa que acontecesse? Obviamente, o ministro!
O
problema é que este filha da puta, não se enxerga, de todo!!!!! Nem se enxergou
quando os mancebos do SEF limparam o sebo ao desgraçado do Homeniuk (https://sicnoticias.pt/pais/2021-05-10-Morte-de-Ihor-Homeniuk.-Inspetores-do-SEF-condenados-a-penas-de-prisao-entre-os-7-e-os-9-anos-8ee06327),
nem se enxerga agora!!!
Como
é que é possível que consiga dormir descansado?!?!?!?!? Como é que se aceita
que venha falar no estado de direito, e na responsabilidade do motorista,
quando a autoridade máxima que se deslocava naquela viatura, era ele?!?!?! SERIA APENAS MERO PASSAGEIRO, como ele
diz?!?!?!?
Vamos
colocar as coisas nesta situação hipotética: imaginenos uma excursão no âmbito
de uma visita de estudo de meninos e meninas do 5º ano, 2º ciclo, portanto. Os
pais assinam uma autorização da deslocação. Assim que o fazem, quem passa a
estar responsável, é obviamente o líder da expedição, o professor/a titular. Agora
imaginem que os meninos se portam mal, no passeio após o almoço, entram num
centro comercial, vão-se a uma loja qualquer, e dão a palmada a 3 ou 4 bens sem
pagar. O responsável da loja apercebe-se, chama a polícia, e um piquete vai
direito ao autocarro, impedindo-o de regressar a casa. Entram no autocarro, os
autores são identificados, e a setôra, ou o setôr fica cândidamente a “esbajiar”
uma cigarrada cá fora, enquanto os pequenos são levados para admoestações
futuras.
É assim?!?!?!? É
justo que seja assim??!?!?
Eu
já nem consigo dar de frente com as fúcias deste animal, e já tudo me incomoda!
Diz
ele: “Eu era apenas um MERO PASSAGEIRO, e não pode haver aproveitamentos
caluniosos, num estado de direito!”
AHAHAHAHAHAH…
Ai meu granda cabrão!!!! TU, que NÃO ERAS UM MERO PASSAGEIRO MAS TÃO SÓ A
ENTIDADE MÁXIMA E RESPONSÁVEL POR TUDO O QUE IA E ACONTECIA NAQUELE CARRO, sacodes assim a água do capote?!?!?!? E se ele levasse droga?!?!!? Não tinhas nada a ver com isso?!?!?!? Eras apenas
mero passageiro?!?!? QUANDO HÁ HIERARQUIA, O RESPONSÁVEL MÁXIMO QUE SE DIGNE,
ASSUME SEMPRE TUDO!!!! Vem nos livros e aprende-se na vida: o subordinado fica
atrás das suas costas, e ele dá o corpo às balas! Com nível é assim!
Olha,
o chefe do serviço onde trabalho, que me caiu no regaço, para além de me supervisionar,
e orientar, para além de meu colega, é também, e sobretudo meu Amigo!, e uma
grande bênção! Todos os dias agradeço por isso! No passado, nem sempre tive
esta relação com os seus sucessores, mas o que lá vai, lá vai, e o que interessa
é o hoje, e o agora! Diz-me sempre: Pedro Alexandre, caso haja alguma coisa
errada, que não esteja bem, o responsável sou sempre eu, o que me dá sempre uma
enorme garantia, mas responsabilização, também!
Ai
Costa, Costa, tudo muda e longe vão os tempos em que te preferi ao Pedrocas e
ao Paulinho das feiras, por afastares de vez aquela ideia assustadora de, não
querendo empurrar as dívidas para a frente com a barriga, para que não
onerássemos as gerações futuras (tadinhas…), teríamos de ser nós a pagar a
dívida externa toda de uma vez, e falava-se então em 5.000 milhões de
euros!!!!!
Depois
veio a pandemia, perante a qual soubeste orientar as tropas de forma exemplar,
que ninguém te retire esse mérito!, mas depois vieram perdões e mais perdões,
tranches de dinheiro que virão para aí aos mogolhões,
como te tens esforçado por divulgar no âmbito das eleições autárquicas, para
bem puxares, como tu, espertalhão sabes, a brasa à tua sardinha; e ficou tudo
baralhado.
Sei
que levantaste o astral, as exportações, reduziste muito o desemprego, nos
reposicionaste perante a Europa e o mundo, perante os quais, antes de ti, estávamos
sempre de joelhos, mas… já não há paciência para ti!
EU SOU INCAPAZ DE
VOTAR NUM PARTIDO QUE TODOS OS DIAS TEM DE ENCARAR, COMO EU, OS JORNAIS DA
NOITE E AS PRIMEIRAS PÁGINAS DOS JORNAIS CHEIAS DE DEMISSÕES E MAIS DEMISSÕES
NA SAÚDE PORQUE OS PROFISSIONAIS ESTÃO EXAUSTOS, NÃO AGUENTEM MAIS HORAS
EXTREORDINÁRIAS, E A PRESSÃO É AVASSALADORA. Desculpa, mas não!
Agora,
em quem eu vou votar… não sei! Concordo muito, muitas vezes com o Bloco de
Esquerda, e acho que faz falta, como também até aceito a postura da Iniciativa
Liberal, jamais irei para os laranjas, os Verdes e a K7 dos comunas, mas estou
assim naquela.
Bem sei que tu proteges demais o caramelo este porque estudou contigo na escola, ou o raio que o parta, mas já não há quem aceite esta merda.
Decide-te!!!
Tchau! Fui!
quarta-feira, 1 de dezembro de 2021
Parabéns Nôno! (pelos já 20!)
Minha querida filha, Nônôzinha, muitos parabéns pelo teu vigésimo aniversário.
Porra!
20 anos…!!!!
Eu
sei que parece um lugar comum, mas não parece só… é mesmo!, por ser uma lição
que aprendi com a vida: passa tudo muito depressa, a correr, tudo depressa
demais! Parece que ainda foi ontem que regressei, completamente exausto, do
hospital de Portalegre, depois de ter visto o esforço sobre humano que a tua
mãe fez para depois de um dia inteiro em contrações, à espera, mais de que o
médico decidisse que estava na hora, do que tu chegasses, para ainda ter ido
buscar forças sabe-se lá onde, para te conseguir meter cá fora.
Eu,
que vi de frente, ao contrário do que mandam as boas práticas, muito por causa
das obras que estavam curso no nosso hospital de Portalegre, na “Ortopedia”,
por a “Maternidade” estar a ser alvo de melhoramentos, jamais me conseguirei
esquecer, mesmo que via 1.000 anos, de tudo o que vivi naquela noite. Uma noite
em que apenas depois de termos ganho por 2-1 ao Santa Clara, com golo de
Mantorras, depois de termos estado a perder, vimos o médico responsável, que
padece de grande Befiquismo, graças a Deus (mas ali não ajudou nada!), ter
subido ao quarto onde a tua mãe se contorcia já de esperanças, sem forças, por
ter estado o dia todo a exasperar. Nada fora diferente daquilo que o pessoal de
apoio me foi dizendo durante o dia, sobretudo quando me viam cabisbaixo, ao
fundo do corredor, sem ter direito a bola, nem Benfica, nem nada que se pareça,
já completamente esmorecido pela forma como estavam a decorrer as
movimentações.
https://www.zerozero.pt/jogo.php?id=17674
Por
esta altura já sabes de tudo o resto, de como não me avisaram do momento em que
a minha primeira filha estava para chegar a este mundo, de como eu me esgueirei
pelo corredor abaixo para tentar ver, daquela Mefistofélica enfermeira que me
barrou, não me deixou entrar, e deu sinal (mais de negação do que de
interrogação) ao médico, que corroborou com um “o pai é muito grande para
entrar para aqui que isto é muito apertado!”, o cabrão; de como me deitei a ela,
e lhe apertei a manápula dizendo com firmeza: “EU SOU PAI E SEI DOS MEUS
DIREITOS! ESTOU-ME A MARIMBAR PARA AS OBRAS, SAIA-ME DA FRENTE, SE NÃO POSSO
ENTRAR, EU VEJO AQUI DA PORTA!”, e vi, como a tua cabecinha cabeluda sai cá
para fora, e como o ar de cansaço da tua mãe, se encheu de luz, glória e
descanso.
Depois
veio aquela atribulação de ver como eles te agarravam pelos pés, como se das
patinhas de um coelho te tratasses, da aflição de tu, toda roxinha, a deitares
fumo do calor do ventre, não emitires som algum quando eu sonhava com um berro
desalmado que me soaria a “Pedrocas, já estou aqui!!!!”, daqueles segundos que
eram como horas, em que mais parecias uma tripa roxa pendurada incapaz de
emitir um sinal de vida, e das tão abençoadas nalgadas, que te desentupiram
toda e as gooooOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOooEEEEEEEEEEEEEEEeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeellllllllllllaaaaaaaaaaaaaaaaaassssssssssssss,
meu Deus, que nunca tinha ouvido um som tão bonito!!!
Já
20 anos desde aquela noite a seguir, e daquela memorável frangalhada que paguei
aos meus amigos no Zé Calha, e eram bastantes!!!!; 20 anos depois da noite de
lerpa que seguiu na nossa casinha da rua do Espírito Santo, em Marvão, só
interrompida pelos meus constantes “epá falem baixo que acordam o morto!!!!”,
para não incomodarem o velório que estava a acontecer ao lado, na Igreja
fúnebre vizinha.
Pobre
defunto… mas… cá do nosso lado, era tanta gente, tanta boa disposição, tanta
alegria, mesmo no dia a seguir quando percebi que me tinha deixado dormir, e
eles tinham saído de fininho, não sem antes terem dado grande amok no álcool
por ali disponível, e terem barbeado muito do que havia para comer no
frigorífico, mas não sem antes o terem aquecido nas louças velhas que tiraram
da parede, à falta do discernimento lhes ter dado para que procurassem dentro
dos armários, outras diferentes daquelas mais à mão.
Olha
Leonor, o que te quero mesmo é felicitar, dar os parabéns, e dizer que claro
que aquilo que mais quero, é que sejas muito feliz na tua vida, e te aconteça
tudo do melhor! Creio que aqui não acabo por diferir dos outros pais e mães.
Neste
contexto, gostaria de te conseguir transmitir dois conceitos / aprendizagens /
vivências:
1)
Este aniversário são os teus 20 anos, número redondo, bonito, de afirmação da
maioridade. É o teu aniversário mas… é meu também e da tua mãe, por tu seres a
maior, e melhor obra que fiz com a Cristina até, 9 anos depois, quando nasce a
tua irmã. Assim que respiraste pela primeira vez, deixei de viver apenas neste
corpo de metro e oitenta, pois passei também a bater no teu coração, como bato
no da tu irmã, porque vocês são, para além do meu maior orgulho, a afirmação
derradeira da vida sobre a finitude que afronta cada um dos mortais.
2)
Passa tudo muito depressa, Leonor. Ouve aquilo que te digo. Vive intensamente,
aproveita e saboreia cada minuto porque daqui a amanhã, serás tu a sentir
aquilo que eu sinto. Ainda ontem vivia na Beirã…
Pertencendo
nós a uma família matriarcal (e não precisas que te faça um desenho para que
percebas aquilo que te quero dizer), tenho que te confessar que lamento que não
estejamos tão próximos quanto eu gostaria. Certamente me dirás que assim é,
porque eu também vivo a minha vida, tomo as minhas opções. Até compreendo, mas
permite que te diga que a vida de cada um é inalienável, e deve ser vivida,
embora nunca duvides do meu Amor por ti, e que por ti faria tudo sem
pestanejar, numa fração de segundos.
Tenho
saudades dos tempos em que passávamos os dois, os fins de semana em que a mãe
trabalhava, juntos, em casa, em Marvão, a passear. Tenho saudades dos milhares
de fotos e vídeos que te fiz, que perdi quando se perdeu o disco rígido que
ainda tenho esperança de conseguir recuperar, por ter lá um repositório imenso
de uma década fundamental da minha vida.
Tenho
pena de não conversarmos mais, de não estarmos mais próximos. Sei perfeitamente
que a ligação que tu, e a tua irmã, têm com a tua mãe, para além de ser mais
forte e mais antiga (convém não esquecer que foram geradas, e saíram de dentro
dela!), eu também cá estou, com todos os meus defeitos, tontices, imperfeições,
parvoíces. Eu… sendo eu.
Há
já muito que não te escrevia nos anos, como tinha o hábito de te fazer antes.
Este blogue é o meu repositório, o meu espaço virtual para viver, e desta vez
senti um apelo. Sabes que ligo às redes sociais e me importo com o blogger e
com o facebook. Não sou do Instagram citadino e urbano, como tu. Gosto de
passar por lá para descarregar umas fotos tuas sem fazer muitas ondas, que depois
meto no telemóvel como capa de fundo (uma para ti, outra para tua irmã). Às
vezes penso que gostaria que fizesses aqueles testemunhos de agradecimento, e
amor lamechas como alguns, muitos filhos fazem aos pais, mesmo que sejam da
boca para fora, mas eu sei que esses… não são para mim. Há que aceitar. Coisas piores
há.
Tenho
o maior orgulho em ti. Orgulho que sempre tive por tu seres o produto final do
amor de duas pessoas que sempre se quiseram muito (já desde 1986; um com 13,
outro com 11; há 35 anos, e sempre se quiseram nesta vida). Agradeço sempre a
Deus que sejas inteligente, trabalhadora, exemplar aluna, doce filha, grande e
sincera amiga, boa companhia, consciente cidadã, e muito bonita (mais ainda que
a tua mãe!), agora magrinha, como eu te pedi sempre que tivesses cuidado.
Sonho
muito que sejas aquilo que queres ser, que consigas os teus objetivos
académicos e profissionais, que fiques com o Luís e consigam ser felizes os
dois, que queiras ter, e tenhas filhos, meus netos.
Nunca te esqueças que estaremos sempre aqui por ti, e que a ti, com Deus nos faz a nós, perdoaremos e amaremos sempre tudo.
Muitos
parabéns, Leonorzinha. Sê sempre feliz!
sábado, 20 de novembro de 2021
Morrer gelado à porta do quentinho bom do Céu
Ao final do dia, após o jantar, quando
me sento no sofá à lareira, com a família, no quentinho do lar, assistimos, graças
às gravações automáticas, às notícias de cá, e do mundo inteiro. Esta tragédia absolutamente
tenebrosa que se assiste na fronteira entre a Bielorrússia e a Polónia, tem
sido a minha última assombração.
O que se passa ali na realidade, e não é explicado às pessoas com detalhe (ai a falta que fazia um bom programa de informação semanal, que abordasse os três ou quatro assuntos mais importantes da cá, e de lá fonteiras, à imagem do saudoso “Informe Semanal” da TVE), é que o nosso continente europeu é para muitos hoje um “El Dorado”, um território sonhado, onde impera a democracia e a justiça, a liberdade de oportunidades, onde qualquer um pode almejar a ser feliz. Ora estes objetivos são tão procurados, que os desgraçados que tiveram a infelicidade de ter nascido num continente mais pobre, num país dominado por um tirano, onde não tenham acesso a trabalho, comida, higiene, condições de saúde, um sistema médico que os apoie e salve, sejam capazes de fazer tudo, incluindo enfiarem-se numa embarcação sobrelotada no escuro da noite, para fugirem à polícia natal que não os quer deixar “fugir”, e às autoridades dos que tampouco os querem receber, muitas das vezes, para darem à costa já cadáveres, e ajudarem tragicamente, a batizar o mar mediterrâneo que nos separa do continente africano, como o maior cemitério dos nossos dias.
Alexandre Lukashenko, o presidente da Bielorrússisa que foi reeleito para o seu sexto, SEXTO (!!!!) mandato (estão a ver a saúde da “coisa”, não estão?) com 80% dos votos, tem sido carinhosamente apelidado como "o último ditador da Europa", e tem recebido o apoio sempre entusiasmante do presidente russo, ex-KGB (serviço secreto da USSR) Vladimir Putin. Pois o que tem sido é uma pedra no sapato da União Europeia praticamente desde que foi eleito pela primeira vez, em 1994, tendo uma das suas últimas patifarias sido esta, em que desviou um avião para a efetuar a detenção do jornalista e ativista Roman Protasevich, em Minsk, numa operação dos serviços de segurança bielorrussos. Segundo testemunhas, Protasevich expressou medo de ser executado na Bielorrússia. Pudera!
![]() |
https://observador.pt/2021/05/23/bielorrussia-oposicao-acusa-lukashenko-de-desviar-aviao-para-deter-um-jornalista-que-enfrenta-pena-de-morte/ |
Pois este sujeito é
de tal calibre que é mestre em promulgar leis de segurança nacional que alargam
os poderes da polícia, bem como de outras forças estatais, que podem utilizar
armas militares para reprimir a desordem. E que desordem será essa, pois
então, perguntam vocêses todes? Pois qualquer uma que seja ou contra o senhor,
ou contra a vontade do mesmo. Natural neste ambiente, não?
Esta tensão entre a fronteira da
Polónia, que pertence à União Europeia, e a da Bielorrússia, ex-país da USSR, e
fim da linha com o resto do mundo, reside em que esta tem conseguido atrair as
rotas emigratórias, e os cidadãos do Iraque, Afeganistão, Síria
e outros países para suas respetivas fronteiras, mais para desestabilizar a EU, que
outra coisa qualquer.
Segundo um comunicado de imprensa da Comissão
Europeia, de 24 de junho último, o Conselho introduziu novas
medidas restritivas contra o regime bielorrusso para dar
resposta à escalada das graves violações dos direitos humanos na Bielorrússia, e
à violenta repressão da sociedade civil, da oposição democrática e dos
jornalistas, bem como à aterragem forçada de um voo da Ryanair em Minsk, em 23
de maio de 2021, e à detenção conexa do jornalista Raman Pratasevich e de Sofia
Sapega.
As novas sanções económicas específicas incluem a proibição da venda, fornecimento, transferência ou exportação, por via direta ou indireta, a qualquer pessoa na Bielorrússia, de equipamento, tecnologia ou software destinados principalmente à vigilância ou interceção de comunicações telefónicas ou pela Internet, assim como de bens de dupla utilização ou de tecnologias para uso militar, e visam determinadas pessoas, entidades ou organismos na Bielorrússia. São impostas restrições comerciais relativas aos produtos petrolíferos, ao cloreto de potássio ("potassa") e às mercadorias utilizadas para a produção ou fabrico de produtos do tabaco. Além disso, é limitado o acesso aos mercados de capitais da UE e é proibida a prestação de serviços de seguro e resseguro ao governo bielorrusso e aos organismos e agências públicos bielorrussos. Por último, o Banco Europeu de Investimento cessará qualquer desembolso ou pagamento ao abrigo de quaisquer acordos relativos a projetos no setor público e de quaisquer contratos de serviços de assistência técnica existentes. Os Estados-Membros deverão também ser obrigados a tomar medidas para limitar a participação de bancos multilaterais de desenvolvimento dos quais sejam membros em atividade na Bielorrússia.
Como retaliação, Lukaschenko, garantiu na semana passada que
irá responder a novas sanções europeias relacionadas com a crise migratória na
sua fronteira com a Polónia, cuja responsabilidade é atribuída por Bruxelas, a
Minsk: "Estamos
a aquecer a Europa e eles estão a ameaçar fechar a fronteira. E se cortarmos o
gás natural que vai para lá? Aconselho os líderes polacos, lituanos e outros
sem cérebro a pensar antes de falar".
Neste complicado jogo de diplomacias políticas bem intrigadas, em nenhum está, na verdade, isento de culpas, é bem fácil de ver, e perceber, quem está a agir com as piores intenções.
Cansados de lidar com esta pressão cada vez mais desgastante, a Polónia já anunciou há dias que está a equacionar construir um muro na fronteira com Bielorrússia, que vai custar cerca 353 milhões de euros e deve abranger 180 quilómetros, cerca de metade do comprimento total da fronteira entre a Polónia e a Bielorrússia. Enquanto a humanidade se deveria esforçar por estreitar laços e unir esforços, a segregação continua a fazer-se sentir, de forma cada vez mais incisiva, e em locais cada vez frequentes, nas zonas limítrofes.
Afinal não são animais, não são cães, não são seres inferiores a nós, não racionais, que não pensam, não sentem, que não contam. Falo de seres iguais a nós, nossos irmãos, descendentes de um antepassado comum, cuja inteligência, caso fosse potenciada, desenvolvida, poderia chegar sabe-se lá onde. O mais certo é caírem, e morrerem gelados, roxos, envolvidos no manto frio da noite.
Entretanto, nas nossas sociedades evoluídas, nos nossos ambientes faustosos, onde não falta todo o conforto no lar, a sempre quente comida sobre a mesa, as roupas aconchegantes, a riqueza da segurança pública e dos hospitais, vamos a continuar a assistir pela TV, como à nossa “porta” batem milhares de mulheres e sobretudo crianças, canalizados pelas rotas de tráfico de seres humanos, que passam semanas a fio na floresta, cheios de frio, de pézinhos nús na neve, sempre rodeados pelos lobos famintos, até que muitos, e um já seria demais!, morram de hipotermia. Isto dói, porra!
sexta-feira, 12 de novembro de 2021
O avançado "fura-redes" dROCAS Sabi, a faturar n'"A LiNHA AVANÇADA"
Ouço
rádio desde sempre. Esse sempre, tem sido mais presente desde os idos anos do
início da década de 90 do século passado, quando a estudar em Lisboa, passei a
andar para todo o lado com um pequeno transístor da Sony, envolvido numa bolsinha
de cabedal negro, que me enxia a casa, e a vida de música e de companhia.
Desde
então, tem sido uma presença constante na minha vida, desde o banho matinal, à
viagem de carro para o emprego, durante todo o dia no trabalho, e só à noite,
em casa, a rádio cede lugar à televisão e ao pc, às leituras diversas, e à atenção
total à família.
Habituei-me
a ser muito da turma do Ribeiro, o outro Pedro, que se fez patrão na Comercial,
desde os tempos do Malato e da Ana Lamy. Sempre ouvi, consumi com sofreguidão e
quase com selo de exclusividade, até ao cúmulo de ter acompanhado e ajudado a cumprir o sonho da minha
filha Leonor, em ir assistir a um espetáculo do natal, Xmas in the night, ao
Pavilhão Atlântico, hoje Meo Arena.
De
há uns tempos a esta parte, acho que cansei das playlists, do mudarem os
animadores e a estação parecer sempre a mesma, e atingi a dieta atual: começar
na Comercial ao acordar, sim, mas deixar-me das (já aborrecidas) historietas do
Markl de seguida, para às 9.30h mudar para a Antena 3, para o “Vamos Todos
Morrer” do Van der Ding, e para ouvir o grande Zé Nunes, na sua deliciosa “Linha
Avançada”. Depois volto à animação da manhã da Comercial até mudar para a
Antena 1 por volta das 12.15h, para ouvir o Portugalex, dos tremendos e
imperdíveis Manuel Machado e António Marques. Acabo por passar a tarde toda na
irmã mais nova, a Antena 3.
No
dia de ontem, com a sua natural galhardia e espírito bom vivant, mister Nunes,
ao falar sobre o confronto nessa noite entre a seleção portuguesa e a seleção
da Irlanda, abordou um episódio mítico que presenciei na minha juventude/vida,
do qual não ouvia falar há mais de 30 anos, e me levou a entrar em contato com
ele via facebook, e a ter como recompensa, a honra de ser largamente mencionado
no programa de hoje, 12-11-2021, como podem ouvir em baixo.
Esta
foi a crónica que me fez entrar em contato com o carneiro amigo Zé:
Dia
11 Novembro, dia do jogo Portugal x Irlanda, ouçam clicando no link abaixo:
https://open.spotify.com/episode/09h6IVqCzprduUuV3x4Xyr?si=c21c86db127f4b22
No
seguimento, escrevi-lhe em mensagem:
Meu querido José Nunes, boaaaaaaaaaaaaaaaas! Sou o Pedro Sobreiro, de Marvão (Alto Alentejo), tenho 48 anos, e sou um ouvinte assíduo das tuas “Linha(s) avançada(s)”, que não perco enquanto me encaminho para as finanças onde trabalho. Adoro saber do futebol mas sobretudo das tuas estórias, brincadeiras, sound bytes, e larachas gerais. Bem hajas por na manhã de hoje, 11/11/21, dia em que a nossa seleção jogará com a Irlanda, teres recordado o celtic punk dos Pogues, e o seu mítico concerto no final dos 80, no Coliseu dos Recreios. Na verdade, esse foi o primeiro concerto ao vivo da minha vida que inclui já uma lista simpática onde se incluem desde os gigantes U2, Rolling Stones, Leonard Cohen, reais Doors sobrevivos, acompanhados de Ian Astbury dos Cult, e alguns festivais onde vi, por exemplo, os Artic Monkeys, os Strokes, e os Arcade Fire. Voltei a esse coliseu para ver nomes como Nick Cave and the Bad Seeds, e os Radiohead, mas essa primeira visita, em que acompanhei o meu querido amigo Francisco Roldão, que também trabalha na RTP, ficará inesquecível para sempre. Recordo-me perfeitamente dessa história que contaste, de terem gamado o anel ao bebedíssimo, como sempre, Shane McGowan, episódio sobre o qual eu já não ouvia falar há umas luas. Tão booooom! Abração”, num texto que leu quase na íntegra! J
Para meu espanto, respondeu de imediato:
Depois
mais escrevi,
Aproveito este
contato contigo para reforçar o apreço que tenho por ti, que tem a ver com as
tuas qualidades humanas, jornalísticas, de gourmet, amante da boa gastronomia
portuguesa, e de entertainer, enfim. Claro que te sigo religiosamente, bem como
à deliciosa "Cozinha avançada", e sabendo eu da riqueza da gastronómica
do meu concelho, quero desde já convidar-te, a ti e aos teus deliciosos colegas
estarolas, para almoçarmos num dos templos gastronómicos daqui.
No Liceu, como te disse, estudei com o Francisco Roldão, que me levou a ver os Pogues, trabalha na RTP e é um dandy muito popular, fã dos Oasis, próximo do Baião e da Tânia de Oliveira, do qual talvez já tenhas ouvido falar. Aqui estudei também com o grande Alexandre Afonso, que chegou a ser meu colega de secretária, e do qual era muito amigo, embora a vida nos tenha afastado, e já não nos vejamos há algum tempo. Eu também fiz Comunicação Social no ISCSP, mas a vontade de regressar à terra, a falta de emprego na área por aqui, e a oportunidade de concorrer ao maior concurso da função pública em Portugal até então, para a DGCI - Direção Geral dos Impostos, hoje A.T.A. - Autoridade Tributária e Aduaneira, fez-me mudar para uma área onde sou também muito feliz. E prontos, portantes, como diz o JJ, é tudo! Um grande abraço, muita saúde e tudo a correr bem! Do carneiro amigo, lampião mas que gosta do JJ só na perspetiva humorística (J. J. Bóce), e está deserto que o bacano baze pró Brasiú, e que o grande maestro vá buscar mas é o nosso Pepa, (antes que o Pintinho o abafe) já que deixou fugir o Amorim.
Para ouvir:
https://open.spotify.com/episode/2y5eVzDdJmo6KBNQAmKWj5?si=eb51c98c69f946e3
Fiz
o comentário:
Bom dia, Caríssimo
carneiro amigo! Embevecido pela menção, e sobretudo, pelo extenso tempo de
antena, que permitiu ler quase toda a mensagem, te agradeço do fundo do
coração, e reforço o convite que fiz! Grande abraço, querido ZÉ NUNES!!!!
E
como eram os Pogues, o assunto afinal, de quem tive tantos discos?!? (UMA DELÍCIA!!!)
E já numa fase final, com o Shane miraculosamente vivo, mas bem amolgado pelas décadas de abusos, e sem a original Kirsty MacColl, tragicamente falecida prematuramente num acidente com uma embarcação.
domingo, 31 de outubro de 2021
Shangri La - O meu horizonte longínquo sobre carris (Parte VII - As casas (de todos nós))
![]() |
As "Manas Sobreiro" que para sempre ficarão assim, gravadas na minha cabeça (e coração), captadas pela objetiva do responsável por esta revista cultural, Prof. Dr. Jorge Oliveira |
A Ti Aurora
A (taberna da) Ti Aurora era um espaço muito pequenino no largo da igreja, bem ao lado da casa do Sr. Murta, uma outra figura muito popular da terra. Creio que tinha o marido por lá a acompanhá-la, mas a memória é muito vaga, o que fazia dela uma daquelas mulheres de negócios sem medos, que era capaz de dominar o seu ambiente.
Recordo-me que naquela altura, como todos os espaços
comerciais da terra, vivia muito à custa da clientela que ali chegava através
dos carris, e com isto incluía ferroviários, maquinistas, trabalhadores comuns
da CP, e profissionais de outras atividades ligadas à linha do comboio.
Guardo uma imagem do Sr. Valentim, funcionário da alfândega,
e pai do meu querido amigo Manuel Ventura, sentado junto a uma mesa redonda, a
fumar um cigarro de enrolar e a beber o seu tintinho.
A melhor história que recordo daquela casa, tem a ver com a
minha tendência em andar sempre com os miúdos mais velhos. Naquela altura, eu
queria era ser grande, e se eles já o eram, nada melhor que com eles
acompanhar, para ver se lhe conseguia pegar o jeito, e crescer por osmose.
Por querer sempre andar atrás, quase sempre sobrava para mim,
o que fazia com que fosse alvo de chacota, e bulllying, como se chama agora,
mas eu não me chateava nada, nem chateio hoje. A propósito, já aqui comentei
que a ligação da família do meu pai a Valência de Alcântara era muito forte, e
a visita aquela localidade estremenha no sábado de tarde, era passeio
frequente. Pois se nunca omiti que sempre fui muito mimado pelas
minhas tias, também é verdade que gostavam muito de me comprar em Valência, o
encanto dos petizes daquela altura, os berlindes, sobretudo os lindíssimos
“olhos de boi”, brancos, com linhas coloridas à volta.
A festa que era quando o Pedrocas lá aparecia com um saquinho
novo, recebido da nova visita ao outro lado, com tantos, todos tão luzidios,
dentro do saquinho de corda verde, para… os perder num ápice, mais depressa do
que o diabo esfregava o olho! Assim que lhes dava o cheiro que eu tinha a nova
mercadoria, todas as portas que estavam fechadas, se escaqueiravam de imediato
para… se voltarem a fechar assim que se procedia à limpeza. ~
Bastava um “Jogo da Roda” (em que cada jogador poderia ficar
com os berlindes estacionados dentro do círculo, que o seu conseguisse retirar
de lá, apenas embatendo contra eles de uma assentada só), para a alegria se ir
desvanecendo em aflição e tristeza, à medida que as esferas negras deles (com
utilização proibida para os mais novos e… “se não queres assim, não jogas!”),
entravam por aquele círculo adentro como se fossem bulldozers do Bolsonaro a
devastarem a preciosa floresta Amazónica. Porca miséria! Da alegria da chegada,
à desolação da partida, minutos depois, era sempre um ápice.
Completamente trucidado pela minha ineficiência, regressava
logo após a casa mesmo à espera de novo ralhete mais que merecido mas… eis
senão quando de lá vinha era um: “ai filho, deixa lá, não chores, não te
aborreças… que a gente compra-te uns novos assim que lá voltarmos”, que era já
na semana seguinte, se não houvesse nada em contrário. Pois isto me enchia
tanto de consolo, quanto me impedia de crescer, verdadeiramente.
E a Dona Aurora, de quem tenho apenas uma vaga imagem da
figura, mas já não do rosto, também foi testemunha destas sevícias a que era
submetido. Um dia mandaram-me comprar “baba de cegonha em pó”, entre risinhos
de chacota que eu, do alto dos meus 6 ou 7, ou menos, não percebi.
- Dona Aurora, eu queria baba de cegonha em pó, se faz favor
(sem saber muito bem se sequer levava dinheiro para isso. Talvez me fiasse…)
- Ai filho… vai-te embora que já te enganaram outra vez… Não
andes com eles! Anda com os da tua idade…
- Ora!!!!
b)
Clube
O Clube era, de longe, a instituição de recreio com mais peso
naquela aldeia, segundo a minha visão. Não sei bem qual a sua origem, se tinha
ou não, órgãos sociais; se tinha associados e qual era a composição da direção,
mas como disse no início, isso tampouco interessa agora. O que sim interessa é
que a sua localização era central na terra, bem por cima da linha do comboio, e
o edifício era magnífico, sendo atualmente particular, dentro do qual se (con)vivia
muito.
Quando se entrava, subiam-se umas escadinhas muito íngremes,
e existiam diversas salas onde se poderia, por exemplo, jogar às cartas e
outros jogos de mesa como o dominó, ver televisão (num tempo em que ainda muito
poucos dispunham de uma própria, em casa) e… conviver, com uma vista lindíssima
sobre a terra (com os comboios a passarem logo ali por baixo), o panorama,
Santo António, um pouco acima; e Marvão, numa varanda que se debruçava sobre a
linha.
c)
Cantina do “Serras”
da Estação
O Sr. Serras era um homem muito grande, encorpado, calvo, de barba
branca, a quem a terra sempre ficou muito a dever, embora nunca lho tenha
agradecido em vida, lamento-o; por ter sido uma das figuras principais na
criação da associação “A Anta”, que ainda hoje presta serviços sociais à terceira
idade e necessitados; é um dos principais empregadores, e motivo pelos quais a
terra ainda não morreu. O Sr. Serras era casado com a Dona Zita, que trabalhava
na Segurança Social ou noutro ministério público em Portalegre. Eram retornados
de África, pessoas com uma visão abrangente e avançada para a época.
Na altura exploravam o espaço onde hoje está estabelecido o
Train Spot, num edifício lindíssimo mesmo junto à estação, e era na pequena
cantina que ladeava esta que acontecia muito do convívio entre os funcionários
da estação, os da C. P., e os clientes da linha que por ali passavam nas
ligações internacionais.
Às 3 horas da tarde, passava o T.E.R. e depois mais tarde do
TALGO. Recordo-me daquela estação mais parecer um aeroporto em hora de ponta de
chegadas, tal era a quantidade e qualidade de gentes, cores, roupas, linguagens
e tamanhos, que deixavam qualquer um boquiaberto, ainda muito mais uma criança
de menos de 10 anos, que por ali circulava ingenuamente.
O “Serras” era o sítio para se ler o jornal do dia, se beber
um café e um bagacinho, se fazerem as palavras cruzadas ou jogar uma cartada. A
cantina do “Serras” poderia ser um ponto de passagem à hora de almoço, ou um
bom entretém para os homens, no final da tarde.
d)
Sr. João Viegas
Este era um espaço que também combinava a habitual disposição
estrutural de então, que ainda hoje é presente nas grandes superfícies: um
espaço para as senhoras fazerem compras para casa, ladeado por um espaço estilo
taberna, para os machos conviverem, entretanto. Situada a escassos metros
abaixo da linha do caminho-de-ferro, tinha um espaço central na aldeia e era
por isso beneficiado em relação à concorrência.
O Sr. João Viegas era um homem baixinho, muito sério e nada
de copos, que geria o espaço com muita sensatez e responsabilidade. A família
ficaria muito marcada por um trágico acidente de viação, no qual faleceu a mãe
da filha Nélita, uma jovem da terra que trabalhava nos telefones do escritório
do Sr. Carita.
e)
Sr. Joaquim
Ventura
Este espaço, na minha memória, era assim uma cena do tipo
armazéns “Braz & Braz”, em Lisboa. Uma casa enorme, com um balcão comprido
longitudinal que aos meus olhos de criança, teria dezenas de metros. Ali se
vendia… de tudo, ao que me lembra. O Sr. Joaquim Ventura, que sempre me batizou
por “Pedro, Penedo, da Rocha, Calhau, olho de vidro, cara de mau”, cognome que
eu achava piada, mas altamente injusto, porque nunca me achei ser daquela
forma, ruim. Parece que tenho na memória que caia sempre com um rebuçadinho, ou
por aí. Acontece que o Sr. Joaquim Ventura era pai da Dona Mimi, que casou com
o primo Manuel, filho do Sr. Carita, que era o padrinho do meu pai, cunhado da
avó paterna, portanto. Quero eu dizer com isto tudo que o meu pai e o seu genro
eram primos-irmãos, e eu sempre senti que o carinho ali era diferenciado. Gostava
muito. Recordo-me que tinha óculos?
f)
Sr. António do
carro de praça
O Sr. António, homem de média estatura, não muito alto, mas
muito robusto, é provavelmente dono dos “apertos de mão” mais convincentes que
me lembro. Sendo uma figura que conheço de toda a vida, claro que fico sempre
feliz de o rever, mas… a pensar duas vezes depois de lhe ter esticado a mão. Já
tenho reparado nos rostos, dele e dos outros intervenientes no mesmo ato, e…
pelo ar, que me parece que a firmeza se repete, e não se verifica apenas
comigo.
Recordo-me desde sempre dele como dono da mercearia cujo
alvará viria depois a ser comprado pelas minhas tias, que sempre conciliou com
o serviço de táxi. É bom de recordar que naquela altura nem toda a gente tinha
carro (bem me recordo quando os meus pais compraram o primeiro Renault 5
branco), e aquele tipo de serviço era muito requisitado, então.
Quando trespassaram o espaço, mudaram-se para a parte de
baixo da linha, e abriram um café com serviço de refeições, num prédio que
construíram.
g)
Casa Nicau
Era incrível, e muito sintomático da vida que fervilhava
naquela pequena aldeia, que se agigantava sempre que passava um comboio (de
mercadorias, e sobretudo, internacional); a quantidade de espaços comerciais que nela existia.
De todos eles, embora não fosse o que tivesse as melhores condições (a azinhaga
ao lado, era o W. C., penso eu de que; porque nunca me lembro de ter puxado o
autoclismo numa lá dentro), esta casa era, muito pelo carisma do proprietário,
o Sr. Joaquim Nicau, aquela que para mim, mais se destacava. Condutor da
camioneta da carreira da Rodoviária Nacional, comprou o alvará ao Sr. Batista,
que nunca me recordo já de ver aberto, porque não é do meu tempo.
Tendo sido sempre colega de escola do seu filho mais novo, acompanhei sempre aquela casa que, enquanto o pai trabalhava fora, era
assegurada pela esposa, a D. Teresa, que assumia a mercearia e a taberna,
também. Sendo muito popular entre os jovens, e os homens por ter tido sempre as
mais populares máquinas de arcada, flippers e matraquilhos; a casa vivia
sobretudo do carisma do progenitor, que muito pelo trato interpessoal que tinha
devido à sua atividade profissional (interagia diariamente com centenas de
pessoas); e do toque para a cozinha da dona da casa.
O “estimado amigo” que era a forma como tratava os clientes,
e se lhe colou como alcunha para sempre; era um verdadeiro barman de 1ª linha
de aldeia, que sobre tudo sabia falar, opinar, não deixar ninguém indiferente.
Sportinguista dos 7 viol(ai!) costados, pegou a devoção ao filho mais novo, e
transformou aquela casa num núcleo daquela clube na aldeia. Bem-disposto, bem
falante, e uma figura perante a qual ninguém poderia ficar indiferente, sempre
viveu com esforço, devoção e glória as suas paixões sportinguistas e
socialistas, o único campo em que o vermelho entrava na sua vida.
h)
Pastelaria “O
Leque”
Foi fundada numa casa de raíz, construída nos anos 80 pelo
Sr. João da Cunha Felino, antigo guarda-fiscal, um beirão natural de Monsanto,
de extrema educação e cortesia. Extremamente carinhoso e afável, este Senhor,
casado com uma outra figura da terra, a D.ª Conceição, funcionária de apoio das
atividades na escola da terra, filha do antigo proprietário da casa onde foi
fundada a Casa Nicau; idealizou criar ali mais um espaço para se poder ocupar
nos tempos livres, talvez a pensar já na reforma.
“O Leque” tinha um caráter que a diferenciava de todos
espaços concorrentes por ter um ar mais citadino, com um espaço específico
pensado para as senhoras, com mesinhas redondas de camilas; uma zona para os
homens mais parecido com um bar que com uma tasca, e um reservado idealizado
para o petisco.
i) Manas Sobreiro, da mercearia Sobreiro
![]() |
Cartoon desenhado pelo pai na parede da taberna |
Por último, mas não em último, como dizem os ingleses; deixei a casa que me diz mais, pelas razões óbvias. Num momento muito particular da vida da nossa família, marcado pelo desaparecimento prematuro do meu tio Lázaro Duarte Gomes, com 60 anos de idade, apenas; as minhas tias, Maria que enviuvou, e Cremilde, solteira; que não detinham uma ocupação concreta, foram impulsionadas pelos meus pais, para comprarem em conjunto com eles, o alvará da loja no largo do fontanário, que pertencia ao Sr. António Sobreira, do carro de praça. Desta forma, estariam ocupadas mentalmente, durante toda a semana e, trabalhando, acabariam com dois problemas, numa solução só. A perspetiva económica nunca foi o intuito primordial, nem poderia ser numa terra, que embora tivesse uma população diária muito significativa à conta da atividade dos comboios, tinha tantas casas que… basicamente, vendiam o mesmo.
Haviam outros garantes diferenciadores, e o trato pessoal era sempre determinante para onde pendia o fiel da balança. “As manas”, até e sobretudo por não terem uma figura masculina por detrás do balcão, foram carinhosamente apadrinhadas pelos trabalhadores da C.P. (maquinistas, revisores, outros trabalhadores de manutenção das linhas) que por ali passavam diariamente a comer o farnel que as esposas lhe preparavam de casa. Por vezes, ali se faziam umas tortilhas de batata à espanhola (absolutamente divinais, como só a minha tia sabia fazer), e um ou outro petisco circunstancial, como um ovo estrelado à antiga em azeite, uma latinha de atum, sardinhas com tomate, ou anchovas, que eram comprados… na mercearia do lado, ou seja, ali.
O espaço ganhava outra vida quando o meu pai, saia do
escritório, por volta da 18h, e reforçava o staff, dando um apoio suplementar
na parte do bar. Nesse então, o público-alvo deixava de ser a dona de casa que
vinha buscar o arroz para fazer com tomate, a fim de acompanhar os
carapauzinhos fritos; para passar a ser o marido que vinha beber um tinto,
conversar um bocado e, ouvir um ou outro fadinho, que a guitarra estava sempre
detrás do balcão. Ficarão sempre na história, as tertúlias que muitas vezes se
prolongavam noite dentro, e por vezes, até já à madrugada, quando os convivas,
ou os motivos, eram especiais.
A morte prematura do meu pai, com 49 anos apenas, vítima de
um enfarto do miocárdio, muito provocado pelos hábitos tabágicos absolutamente
fora do normal (ninguém resiste a 2/3 maços diários por muito tempo), aliados a
uma propensão genética a complicações cardíacas (a morte ainda mais prematura
do irmão com apenas 14 anos, nas escadas do Sr. João Viegas; e a intervenção à
sua irmã Irene numa das primeiras operações em Portugal de coração aberto, eram
bem prova disso), ditou também o fim daquele espaço.
Com o passar dos anos, e o envelhecimento das minhas tias,
ainda mais gritante no caso da Cremilde, que foi caindo gradualmente aos pés da
demência, agora pomposamente chamada com o nome de um cidadão estrangeiro
(Alzheimer); a loja foi definhando, até fechar. Deixaram de ser compradas as
caixas de chocolatinhos da Regina, e de outros bombons bons; de chupas e toda a
espécie de pastilhas elásticas com que se deliciavam as minhas filhas, e
qualquer criança que por lá passasse, para se ir tornando cada vez mais um
espaço comunitário, onde as vizinhas passavam a tomar um cafezinho, quase
sempre de oferta, e para elas não estarem fechadas em casa. Voltando às
origens, enfim.
Fazendo sempre um ponto de honra em nunca deixar de
acompanhar a quem sempre me apoiou a mim, fiz questão de as ir visitando sempre
que podia e confesso que me doía muito, quando dava com as duas a dormir, de
cabeça deitada sobre a camila onde estava a braseira quentinha, enquanto o
velhinho rádio baixinho debitava o terço na Renascença.
Nos últimos tempos já viviam as duas juntas na casa da minha
tia Cremilde, de porta trancada por dentro, para evitar que esta acordasse a
meio da noite, enquanto a Maria dormia, e saísse pelas ruas da Beirã, soluçando
por vezes em choro compulsivo, por não conseguir encontrar aquilo que queria,
mas nem sequer sabendo que jamais poderia reencontrar, porque o passado jamais
volta assim.
Por saber, sofrer tanto devido a esta a sua ansiedade pela incapacidade
de tomar conta da irmã; e sobretudo devido à degradação do seu estado de saúde (à
causa de uma complicação de pele, na testa, que lhe obrigava a visitas
frequentes ao IPO a Lisboa), muito a influenciei para que fossem para um
quartinho particular para a Santa Casa de Marvão, que sabia que era esta a
única possibilidade de as conseguir manter juntas. Depois da tranquilidade de o
ter feito, descansei, por as saber sempre acompanhadas, bem alimentadas, bem
higienizadas, com supervisão médica constante, em segurança.
Soube (muito tempo) depois pela minha vizinha da Beirã,
esposa do Sr. Graça, que lá trabalhava (que pela terra ser tão pequena, éramos,
somos e seremos, de cada vez que nos virmos, vizinhos), a primeira noite da
minha tia Maria na Santa Casa foi de grande sobressalto, e pânico até, porque
sentia que iria morrer.
- Ó Dona Maria!!! Que disparate tão grande, valha-me Deus!
Então as senhoras estavam tão sozinhas e aqui estão tão acompanhadas, sempre
com vigilantes a acompanharem o vosso descanso, sempre com uma equipa médica
por perto, sempre com tanto gente para garantir o vosso bem-estar, e agora…
diz-me que vai morrer? – disse a vizinha.
Não foi nessa noite, foi na noite a seguir. E não houve nada,
nem ninguém que lhe valesse. Para mim, que a conhecia, estimava, prezava, amava
como ninguém da mesma forma que eu (cada um, é como cada qual, e eu hei-de sempre
ter a minha); morreu de desgosto. Morreu por depois de 86 anos de vida, não ter
tido sítio algum para ficar nesse final da caminhada, senão aquela casa onde
haverá sempre o estigma de serem despejados todos aqueles que não têm ninguém
para lhes dar colo, quando eles deram tanto durante a vida.
Esta é uma dor que viverá sempre comigo.
Todos sabíamos que lutava há tantos anos com o problema
cancerígeno, mas ainda hoje não sei bem o que se lhe sucedeu para se finar. Esfumou-se,
e eu, que tinha ido a Algés para assistir ao Nos Alive com a minha Leonor,
levei um choque tremendo, por ter sido inesperado, e sobretudo, por ter sido um
interveniente crucial nesta situação. Sem remorsos, mas com algum, ou muito
peso na consciência pelas circunstâncias, regressei praticamente sem dormir
nessa noite deitada a altas horas, acordada em sobressalto pelo telemóvel, onde
o choro lamurioso da filha me deu a notícia. Assisti à preparação do túmulo,
numa das minhas duas campas de família no cemitério da Beirã, e vi a
reordenação dos restos mortais dos que já lá estavam, para conseguir ser feita
a deposição dos seus.
A Cremilde continua, graças a Deus, naquela casa onde
seguramente nem sabe onde está, mas sei eu, que a visito com regularidade
semanal, está como se estivesse num casulo, onde não lhe falta amor, compreensão,
e até lhe é dada a comidinha toda triturada, porque até isso, até de mastigar
se esqueceu já. Até que, como em todos nós, Deus queira.