segunda-feira, 16 de julho de 2007

O Clube da TV

Agora que reparo nisso, dou por mim a pensar que praticamente não vejo televisão.

Eu que ainda sou do tempo em que as novelas eram boas e divertidas e juntavam toda a família depois do jantar para rir com as tropelias do Zeca Diabo no “Bem Amado”, do Sonhôzinho Malta no “Roque Santeiro” e com a “Tieta do Agreste”…

Agora não dá mesmo. Acaba o telejornal e levamos todos com o Malato (já não há pachorra para o gajo!), com as novelas recicladas e os programas da treta e eu desligo dali.

Uma miséria autêntica e valha-nos o cabo, o santo cabo, mas às vezes, nem aí!

Há dias passei num zapping estilo raid aéreo pelo RTP Memória e aqui sim!

Ó pá! Não é por nada mas isto sim é letra! E que vi eu? O Júlio Isidro, esse impagável, esse magnífico, esse mítico, num dos seus muitos programas de tarde de fim-de-semana e eu digo que há homens que nunca haviam de morrer.

Vale mais 1 hora de tv nas mãos deste bicharro que uma caixa com os compactos todos dos programas da Merche Romero (e não, não estou a falar de atributos físicos. Falo de arte pura, em estado bruto, meus amigos! Não me confundam!)

E mal ligo lá aparece o Júlio, ganda homem, de paletó verde, a apresentar o número musical que se seguia: uma cover dos Creedence Clearwater Revival, pela banda lá da casa. O Tó Leal, outro místico, com uma pantalonas envergadas de para aí 5 números acima, bem engalhotadas na cintura, a cantar como se não houvesse amanhã e a Dulce Pontes que dançava como se se tivesse agarrado por distracção a um fiozinho daqueles da alta tensão que às vezes caem perto da auto-estrada.




Momento mágico de televisão 1 – ao segundo 40! A tal Dulce Pontes, movendo-se efusivamente como se tivesse a ter um ataque agudo de lombrigas, espanta-se para a direita como o cavalo do Bastinhas e deixa o resto da malta pregada. A bicha! Sabida! Vai-se a ver da melhor câmara e a companheira do lado que tem uma penca maior que a minha e a do próprio Júlio segue-a pelo canto do olho, mas o Tózinho fica especado. Ai Tó Tó! Teve de ser a das calças de pirata a dar-lhe o toque e ele, com sorriso malandro, até bate com as mãozinhas na testa. Mas não se atrapalha! Bem engraçado! Isto era televisão feita por pessoas. Isto era televisão feita com mestria, caraças!

Momento mágico de televisão 2 – 2 minutos e vinte segundos. Entra o Júlio com duas cadeiras e dispara: “Com licença, com licença, com licença, com licença. Façam favor. Prontos! Faltavam-me exactamente duas cadeiras para terminar o curso de televisão. Cá estão elas!”.

Eh pá! É preciso dizer mais alguma coisa?

Júlio, meu querido: tu mereces o Céu.

Todos os portugueses conscientes deviam doar parte do ordenado a ti e à tua família, prái por 7 gerações, para agradecer o bem que nos fizestes a todos.

Quando quiseres, passa cá por casa para beberes uma ginjinha de primeira e eu te dar a minha parte em pecuniário.

És impagável! Votei em ti no Concurso dos melhores portugueses. Lástima ter sido o velho de Santa Comba Dão!

Para fechar, um jogo da cadeira (isto sim é entretenimento!), em que o Júlio arregaça as mangas e ele próprio faz de Júri, arriscando a vida e o nariz na final, desviando a cadeira para aumentar o suspense.



Génio!

4 comentários:

Garraio disse...

Algumas vezes, aquilo que por aqui se escreve “mexe” cá dentro. Talvez por isso, quase sem querer, dou com os meus dedos preguiçosos e com a minha cabeça "over booking" pelas contínuas rasteiras que o destino me reserva, a teimar numa evasão momentânea e a caminhar ao lado das ideias que neste espaço vão surgindo.
Esta coisa da televisão do antigamente e da de agora também já me deu que pensar. Antes do Neil Amstrong dizer aquela do “este é um pequeno passo para o Homem, mas um salto gigantesco para a Humanidade” já cá o “gestas”, então puto enfezado com óculos de cú de garrafa, viajava pelo espaço, sem mover a pestana nem fechar a boca, com o Daniel Boone, o Bonanza, os Jogos Sem fronteiras (ao Eládio Clímaco, ao Fialho Gouveia e à Maria Margarida estarei eternamente agradecido pelos momentos de felicidade que me proporcionaram), o Torneio das Cinco Nações e a Final da Taça de Inglaterra. Ahhh… a Final da Taça de Inglaterra!!... Isso sim, era “tabaquinho”!!! Um ano inteiro à espera do grande dia!! E eu, com os meus trinta quilos mal pesados, “encaramouçado” no alto do caixote do milho que tínhamos lá na nossa tasquita, não perdia detalhe daquele momento único. E quando acabava a grande jogatana, lá ia eu a correr para o meio da rua, com os meus dois irmãos, à biqueirada na nossa bola de plástico contrabandeada lá da do Ti Mané Gavancha da Fontanheira, tentando imitar os artistas da Velha Wembley…



Humm… fico por aqui, isto não é a minha auto-biografia. Mas gostaria de deixar uma reflexão. Nestes 30 anos… a televisão mudou muito. Talvez para pior. Mas a nossa vida mudou muito mais. Para pior ainda, acho eu. “Viajamos” em claro excesso de velocidade o nos prende permanentemente a atenção na nossa estrada. Já não dá para apreciar a paisagem…



Hoje troquei o caixote do milho pela comodidade do sofá. A boca pode continuar aberta, mas os olhos nem por isso. Raramente consigo ver um jogo de futebol, excepção feita à dos jogos dos Scolari Boys. Quando ele sair e regressarmos à nossa parvalheira de sempre, prometo reapreciar a minha posição…




Naqueles tempos em que subia para o caixote do milho, contavam-se os carros ali na ladeira dos Galegos. Só no Verão os espanhóis atacavam em massa nos café cubano e nos pratos de Macau. Esse Verão, pletórico de actividades, metia alguns grilos na gaiola, tomava valentes banhos no pego da Caldeira, na Laginha, onde o Jaquim Laurindo dava grandes amonas nos putos mais novos, os bordalos do ribeiro dos Galegos não ganhavam para sustos, e a fruta, nem sempre madura, essa era comida directamente na “fábrica”.
A nostalgia da infância agudiza-se-me, contudo, pelo olfacto. Se calhar, porque a vista nunca foi o meu sentido mais forte. Tenho saudades de cheirar… Cheirar a terra molhada, cheirar os tortulhos debaixo dos castanheiros, cheirar a sombra da figueira “estuveira” do Ti Tonho Boto em pleno mês de Julho. Cheirar as roseiras da minha mãe de manhã antes de ir para a escola, cheirar as flores silvestres do Caminho Velho, cheirar o rosmaninho ou as xaras da Penha Aguda e do Souto Coelho.



Há bocado, dei comigo a pensar qual foi a última coisa que me lembro de cheirar… e acho que deve ter sido o fumo do tubo de escape de algum daqueles passeantes que aproveita os seus domingos, para, com o braço de fora, ir ali às bombas fazer um chichi e atestar o depósito.

A televisão… essa passou a ser o meu xanax. Quis Deus que inventassem uns comandos à distância programáveis que as apagam… já eu durmo a bom dormir.

Garraio disse...

Já agora...

Gostava de saber como era o Verão (e a televisão) nessas planícies do sul...

Pedro Sobreiro disse...

Eh, eh, eh... Amigo Garraio, quanta nostalgia! Belas memórias, sem dúvida. Talvez fosse engraçado reunirmos os testemunhos de infância de malta do nosso tempo, fazermos uma edição e oferecermos aos nossos filhos no Natal, para saberem como fomos tão felizes com tão pouco.

É que do tempo da minha avó para o meu, passou-se de carros de lata para bólides em miniatura que comprávamos em Valência.

Do meu tempo para o da minha filha foi uma vertigem tecnológica louca.

A primeira vez que tive assim um computador à minha disposição já andava na faculdade e lá não havia nem o primeiro! Esta era da minha namorada Cristina e da irmã e era um mundo mesmo novo para mim. Eu não me esqueço! Ainda sou do tempo das aulas de dactilografia! Hoje em dia, quando vejo a Leonor a viajar pelos sites da Barbie, das Winx e do Sítio dos miúdos, sozinha, frente ao pc, noite dentro com apenas 5 anos fico a pensar... É engraçado… mas não havia antes de estar a aprender a roubar abrunhos ou a sacar um grilo da toca só com uma palhinha (e escuso-me a utilizar o termo genérico porque designávamos esta operação então!)?

Sinal dos tempos.

Aprendem rápido demais, sabem muito demais, vivem acelerados demais, esquecem-se depressa demais.

E falta toda uma geração para sabermos no que é que isto vai dar um dia.

Como eu te compreendo!

Como te sei tão exclusivo e reservado, obrigado pelo desabafo e por partilhares essas deliciosas memórias.

Já agora, bem hajas também pela resolução da gaffe informática.

Um abraço

Bugalhão disse...

Pois é meus “cachopos” como vocês estão a envelhecer…
Isto do “tempo” é uma treta, ainda “ontem” entrámos na escola e mal damos por nós (como diz a canção dos Xutos), somos pais de crianças…
Não gosto muito destas coisas do “saudosismo”, destas lamechices, mas vocês, com a pureza como se referiram a coisas tão bonitas da vossa infância (quando eu já era um digno “Dragão de Olivença), fizeram-me recordar um episódio da era em que vocês “viram pela primeira vez a luz do sol”, e simultaneamente, recordar uma série de gente boa, muitos deles certamente já não pertencerão ao mundo dos vivos…
Decorria então o ano 1968 e eu, o “joão pequenino”, como era conhecido, tinha descoberto, não a paixão da “intermet”, não a paixão da televisão, mas sim a paixão da TELEFONIA, que o primo “Jaquim” havia trazido de Moçambique, como recordação de três terríveis anos de uma guerra injusta (a quem eu havia escrito, pelo menos 500 aerogramas ditados pela tia Júlia).
Claro que o “brinquedo” não tinha sido trazido para mim… nem tal “luxo” era permitido na minha pobre casa (aquilo è que era crise meus amigos e o deficit era zero…), mas eu, rapidamente me fiz o maior apaixonado da “coisa”. Ele eram os “romances”, “os discos-pedidos”, “à noite escondido na cama o Rádio Moscovo e a Voz Livre de Argel (eu com apenas 11/12 anos a aprender a dizer mal do “regime”)”, mas a maior paixão, claro, era o “FUTEBOL e o grande BENFICA”.
Domingos e quartas-feiras, era sagrado…
E assim, após 3 anos de tirocínio de “futebol auditivo”, chegou 1970 e com ele, a minha 1ª possibilidade de ver, um acontecimento do outro mundo para mim, um “JOGO DE FUTEBOL”.
Em Santo António das Areias, inauguração do local onde futuramente, 15 anos depois, iria passar a maior parte do meu tempo livre: o Campo dos Outeiros…
A Equipa da casa: O Grupo Desportivo da Casa do Povo de Santo António das Areias (perdão se não era esta a verdadeira denominação); equipamento: calção preto, camisola amarela com risca preta, botas-de-travessas; adversário: sei lá…não me lembro, “porra”…
Desculpem-me, mas qual jogo da final da taça de Inglaterra, qual final da taça de Portugal ou dos Campeões… este foi o melhor jogo da minha vida, presenciado escondido atrás do “canchos”, porque não tinha dinheiro para o bilhete, nem roupa nova para a cerimónia…

Aqui deixo o nome de alguns dos “meus heróis” de então:
- Guarda-Redes: Pepe, “a Bruxa” (que agora tenho de tratar após um AVC);
- Manuel Joaquim Mota, Bernardino, Xico Padeiro, Mané, o filho da menina Rita, João Manuel Lança (o meu ídolo), Manuel Freire, Valadas, o Costa dos Barretos…bolas, não me lembro de mais…

Nota do autor: Em Outubro 1985, com 28 anos, fui pela 1ª vez Treinador Principal do GDA. Neste mesmo local de culto, ao qual cheguei 3 horas antes do 1º apito do árbitro e fiquei ½ hora sozinho no centro do campo, a agradecer aos “meus deuses” por me terem permitido tal sonho. Os “gajos” que pus a jogar na altura (porque agora era eu que mandava), foram os seguintes (todos marvanenses, não havia cá “estrangeiros”):
Mário Guedelha (o boquêradas); Magafolas (o mais novo e o mais velho), Adelino (o dos carapulos de vinho-branco), Bonacho (o tremedeiras), Xico (cesto-de-flores); Pitucha (o terror dos árbitros), Tonho-Zéi (recordista de horas aos espelhos dos balneários distritais), Zé Alves (que vinha de Setúbal de propósito para fazer um jogo de futebol), Quim (o Xaréu = ao pitucha, mas mais mau), Chaparro (não precisa de outra classificação) João Vitorino (o farinheira), Rui Felino (a que acabei com a carreira precocemente), Lourenço (o plásticos), Andrade (que queria entrar porque tinha o nº 14 e já tinha entrado o 13), Picanssos (o mais velho e o mais novo), Manuel Freire (sim lá o de cima o de 15 anos antes), Zé Domingos (o Xangai) e os “meninos” Bonito e João Carlos (o gaspachadas) e não me lembro se o Orelhas (miranda) já lá andava a dar cabo das botas…

O resultado? 1-0, contra o Avisense…”G”ande Equipa Malta”
Foi uma grande experiência de vida. Em 2002 ainda era treinador dessa EQUIPA!

OBRIGADO AMIGOS