
Eu acho que sou melómano. O dicionário remete para “melomaníaco”, o que assim a cru parece bem mais assustador. A definição esclarece: “aquele que tem paixão pela música”. Ah, claro está! Confirmo e confesso: “sou um melómano empedernido!”.
Nunca fui ao Conservatório. Não sei distinguir se uma pauta está de patas para o ar ou se está correcta. Confundo a clave de sol com o símbolo do Ltda. (&). Não sei um único acorde. Mas o meu pai foi baterista dos “Cometas Negros” e acho que a música foi herdada por via genética, ou pelo menos a paixão por ela, ao ponto de não podermos viver um sem o outro.
Já houve alturas na minha vida (muitas) em que a música foi a única coisa que me restou.
Parece cliché mas no meu caso é mesmo verdade: eu não consigo viver e ser feliz sem a música. E acho que isso nota-se. Não há dia que eu não vasculhe à procura do novo grande som, nos jornais que compro, no cabo, na rádio, na net. Tento todos os dias ouvir discos novos e envolvo-me com aquilo de tal maneira que faz parte de mim.
A minha vida tem uma banda sonora. A espinha dorsal tem o “Wickie” na infância. Os Beatles mais tarde, cujas cassetes consumia freneticamente no banco de trás do Renault 5 branco. Os Xutos no Ciclo. Os Smiths e os Janes’ Addiction no Liceu. Os Blur e os Oasis na faculdade. Os Verve quando comecei a trabalhar e me casei. Os Strokes quando trabalhei em Nisa. O Jeff Buckley quando trabalhei em Marvão. Os Radiohead, os Artics e os Arcade Fire nos tempos mais próximos.
A música bateu-me como uma enorme bigorna quando numa tarde no Liceu, levei para casa debaixo do braço, o “Tender Pray” do Nick Cave e o “London Calling” dos Clash.
Não há vez que ouça o “Viva Hate” do Morrisey, que não me lembre da minha viagem de finalistas do 9º ano.
O meu primeiro disco vinil para a minha primeira verdadeira aparelhagem, comprada com as poupanças da mesada foi o “Peepshow” da Siouxie & The Banshees.
Não há vez que ouça os Cure, ou os Bauhaus, ou os Talking Heads que não me lembre do meu primo Quim Carita e das longas tardes e noites que passamos hipnotizados, a ouvir as músicas da nossa vida. Não há vez que ouça os Doors que não me lembre do Zé Pop. Não há vez que ouça os Nirvana, que não me lembre das matinées da Cave.
A música é a minha bússola. A companheira que nunca me falta e que nunca me falha.
Quantas vezes fui roubar, à palavras e à melodias de outros, os ensinamentos necessários para seguir em frente. A música pode ser um estado de alma. A música pode ser uma filosofia de vida.
Há dias, quando fazia a corridinha matinal, ouvia no ipod o projecto Bright Eyes e dizia o gajo: “Então eu vou encarar os meus medos / ou vou agachar-me como um cão / Vou pontapear e gritar ou vou ajoelhar-me e suplicar / Ou vou lutar contra tudo para esconder que desisti”. Pode parecer estranho, mas neste preciso momento, o Conor Oberst parece que está a falar para mim. Há que dar a volta!
Voltando à música, a perfeita ainda está para vir, como a onda que o Patrick Swayze procurava no genial filme “Point Break”, “Ruptura Explosiva” no nosso portuga.
Eu sei que esta conversa toda da música não diz nada a muita gente que faz o favor de visitar este meu estaminé e acha que esta história são tretas. A este ponto, as minhas queridas tias, que chateiam meia-Beirã para que lhe arranjem as folhas com os textos que aqui publico, devem de estar a comentar uma com a outra: “temos que lhe dizer que o desta semana foi muito intelectual. Não percebemos nada!”. Eh, eh, descansem meninas, esta converseta é mais para a rapaziada nova que por aqui anda.
Para eles e como o blogue é meu e parece-me que é o único sítio do mundo onde eu digo o que me dá na gana sem ter de passar cartão ou pedir opinião a ninguém, vou-lhes fazer uma sugestões.
O grande Nuno Markl, cujo blogue visito diariamente, tem-me ensinado muita coisa, aberto muitas portas e revelado grandes bandas. Foi através dele que conheci a música da Regina Spektor e só isso já chegava para tudo ter valido a pena. Seguindo as suas pisadas, deixo aqui 3 pistas, 3 novas bandas, 3 grandes canções, 3 vídeos que são, para mim la créme de la créme do que tenho “ouvisto”, como dizem algumas velhinhas destas bandas (é uma mistura de ouvir e ver). Boa!
Sendo assim, deixem-me lá brincar e armar-me um bocadinho em Marcelo Rebelo de Sousa da música, vestindo por breves minutos, a pele de uma das minhas profissões de sonho – crítico musical! Pagos para fazerem o que eu faço nos tempos livres. C*****s!
1. Hard Fi – Suburban Knights
5 estrelas! Grande, grande, mas enooorme música, direitinha para a história. São os Clash escarradinhos! A mesma pose, a mesma atitude brigona, a mesma subversão a respirar por todos os poros, as guitarras aos pulinhos e em bicos dos pés, a declaração de guerra definitiva ao mundo inteiro. Nem vou ouvir o resto do disco para não me desiludir. Estes cavaleiros suburbanos, estes jovens belicistas, estes gritos de revolta são a razão porque o Rock jamais morrerá! Aposto que o Joe Strummer, esteja lá onde ele estiver (também foste novo demais!) possa ouvir isto. O seu legado jamais morrerá!
2. The Enemy – Away from here
Por falar em Sósias, o campeão este é a carinha do Paul Weller dos Jam, para aí com 20 anitos. Eu não sei o que dão a estes miúdos em Inglaterra para conseguirem fazer letras e melodias desta qualidade quando ainda nem barba têm na cara. No entanto, se o Rimbaud produziu a sua melhor poesia com 15 anos, acho que estamos falados. A mesma revolta, a mesma crítica à sociedade e aos valores de plástico, a mesma ânsia de viver. E eu tenho pena de não ter 15 anos também, senão mesmo agora ia ali acordar o meu vizinho Mário para fazermos uma banda de garagem. Tínhamos um problema: como lhe falta um dedo, só pode ir à bateria. Nas teclas, desafinava de certeza. Ele não se importa. É amigo!
3. Jack Peñate - Torn On The Platform
Este não engana ninguém: é mesmo fã do Jeff Buckley, com aqueles trejeitos na voz… As guitarras são maravilhosas, a lembrar o Johnny Marr e os Housemartins, a swinging London dos anos 80 e princípios dos 90. Muito bom e o vídeo, é uma delícia! Até a minha filha adora.
Meus amigos, é tudo por hoje nesta lição da Telescola sobre a música pop, retomaremos a emissão dentro de momentos.
Se tiverem mais um pedacinho livre, dêem uma espreitadinha a estes outros vídeos, bem mais antigos, mas todos eles com temas que fazem parte da Banda Sonora da minha vida, a editar brevemente pela Vidisco!
Vão em paz, e que o SOM vos acompanhe!
É só clicar,
Fastball – The Way
Jimmy Eat World – The Middle
Lit – Miserable (hum, a Pamela! Grrrrau!)
Weezer – Buddy Holly
Gnarls Barkley – Crazy (sim, esta todos conhecem, mas não é por isso que deixa de ser uma dádiva dos céus! E o vídeo, Meu Deus, o Vídeo!)
Nota do Bloguista de Serviço: o “Vendo o mundo de binóculos do alto de Marvão” gostaria de agradecer a gentileza do site You Tube pela disponibilização de imagens à revelia. E pensar eu que perdi anos da minha vida feito estúpido à espera do Top + ou lá como é que se chamava aquela cena, para ver quem estava em 1º lugar, na ânsia de ver algo novo e descobria que era o Stevie Wonder, pela milionésima semana, com o inenarrável “I just call”. Pois eu, só telefonei para dizer que a Internet é a maior invenção do homem, porque é a soma de todos os outros progressos e já não digo mais nada hoje. Boa noite. Bons sonhos e até amanhã.