quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Alta Fidelidade



Eu acho que sou melómano. O dicionário remete para “melomaníaco”, o que assim a cru parece bem mais assustador. A definição esclarece: “aquele que tem paixão pela música”. Ah, claro está! Confirmo e confesso: “sou um melómano empedernido!”.

Nunca fui ao Conservatório. Não sei distinguir se uma pauta está de patas para o ar ou se está correcta. Confundo a clave de sol com o símbolo do Ltda. (&). Não sei um único acorde. Mas o meu pai foi baterista dos “Cometas Negros” e acho que a música foi herdada por via genética, ou pelo menos a paixão por ela, ao ponto de não podermos viver um sem o outro.

Já houve alturas na minha vida (muitas) em que a música foi a única coisa que me restou.

Parece cliché mas no meu caso é mesmo verdade: eu não consigo viver e ser feliz sem a música. E acho que isso nota-se. Não há dia que eu não vasculhe à procura do novo grande som, nos jornais que compro, no cabo, na rádio, na net. Tento todos os dias ouvir discos novos e envolvo-me com aquilo de tal maneira que faz parte de mim.

A minha vida tem uma banda sonora. A espinha dorsal tem o “Wickie” na infância. Os Beatles mais tarde, cujas cassetes consumia freneticamente no banco de trás do Renault 5 branco. Os Xutos no Ciclo. Os Smiths e os Janes’ Addiction no Liceu. Os Blur e os Oasis na faculdade. Os Verve quando comecei a trabalhar e me casei. Os Strokes quando trabalhei em Nisa. O Jeff Buckley quando trabalhei em Marvão. Os Radiohead, os Artics e os Arcade Fire nos tempos mais próximos.

A música bateu-me como uma enorme bigorna quando numa tarde no Liceu, levei para casa debaixo do braço, o “Tender Pray” do Nick Cave e o “London Calling” dos Clash.

Não há vez que ouça o “Viva Hate” do Morrisey, que não me lembre da minha viagem de finalistas do 9º ano.

O meu primeiro disco vinil para a minha primeira verdadeira aparelhagem, comprada com as poupanças da mesada foi o “Peepshow” da Siouxie & The Banshees.

Não há vez que ouça os Cure, ou os Bauhaus, ou os Talking Heads que não me lembre do meu primo Quim Carita e das longas tardes e noites que passamos hipnotizados, a ouvir as músicas da nossa vida. Não há vez que ouça os Doors que não me lembre do Zé Pop. Não há vez que ouça os Nirvana, que não me lembre das matinées da Cave.

A música é a minha bússola. A companheira que nunca me falta e que nunca me falha.

Quantas vezes fui roubar, à palavras e à melodias de outros, os ensinamentos necessários para seguir em frente. A música pode ser um estado de alma. A música pode ser uma filosofia de vida.

Há dias, quando fazia a corridinha matinal, ouvia no ipod o projecto Bright Eyes e dizia o gajo: “Então eu vou encarar os meus medos / ou vou agachar-me como um cão / Vou pontapear e gritar ou vou ajoelhar-me e suplicar / Ou vou lutar contra tudo para esconder que desisti”. Pode parecer estranho, mas neste preciso momento, o Conor Oberst parece que está a falar para mim. Há que dar a volta!

Voltando à música, a perfeita ainda está para vir, como a onda que o Patrick Swayze procurava no genial filme “Point Break”, “Ruptura Explosiva” no nosso portuga.

Eu sei que esta conversa toda da música não diz nada a muita gente que faz o favor de visitar este meu estaminé e acha que esta história são tretas. A este ponto, as minhas queridas tias, que chateiam meia-Beirã para que lhe arranjem as folhas com os textos que aqui publico, devem de estar a comentar uma com a outra: “temos que lhe dizer que o desta semana foi muito intelectual. Não percebemos nada!”. Eh, eh, descansem meninas, esta converseta é mais para a rapaziada nova que por aqui anda.

Para eles e como o blogue é meu e parece-me que é o único sítio do mundo onde eu digo o que me dá na gana sem ter de passar cartão ou pedir opinião a ninguém, vou-lhes fazer uma sugestões.

O grande Nuno Markl, cujo blogue visito diariamente, tem-me ensinado muita coisa, aberto muitas portas e revelado grandes bandas. Foi através dele que conheci a música da Regina Spektor e só isso já chegava para tudo ter valido a pena. Seguindo as suas pisadas, deixo aqui 3 pistas, 3 novas bandas, 3 grandes canções, 3 vídeos que são, para mim la créme de la créme do que tenho “ouvisto”, como dizem algumas velhinhas destas bandas (é uma mistura de ouvir e ver). Boa!

Sendo assim, deixem-me lá brincar e armar-me um bocadinho em Marcelo Rebelo de Sousa da música, vestindo por breves minutos, a pele de uma das minhas profissões de sonho – crítico musical! Pagos para fazerem o que eu faço nos tempos livres. C*****s!

1. Hard Fi – Suburban Knights
5 estrelas! Grande, grande, mas enooorme música, direitinha para a história. São os Clash escarradinhos! A mesma pose, a mesma atitude brigona, a mesma subversão a respirar por todos os poros, as guitarras aos pulinhos e em bicos dos pés, a declaração de guerra definitiva ao mundo inteiro. Nem vou ouvir o resto do disco para não me desiludir. Estes cavaleiros suburbanos, estes jovens belicistas, estes gritos de revolta são a razão porque o Rock jamais morrerá! Aposto que o Joe Strummer, esteja lá onde ele estiver (também foste novo demais!) possa ouvir isto. O seu legado jamais morrerá!



2. The Enemy – Away from here
Por falar em Sósias, o campeão este é a carinha do Paul Weller dos Jam, para aí com 20 anitos. Eu não sei o que dão a estes miúdos em Inglaterra para conseguirem fazer letras e melodias desta qualidade quando ainda nem barba têm na cara. No entanto, se o Rimbaud produziu a sua melhor poesia com 15 anos, acho que estamos falados. A mesma revolta, a mesma crítica à sociedade e aos valores de plástico, a mesma ânsia de viver. E eu tenho pena de não ter 15 anos também, senão mesmo agora ia ali acordar o meu vizinho Mário para fazermos uma banda de garagem. Tínhamos um problema: como lhe falta um dedo, só pode ir à bateria. Nas teclas, desafinava de certeza. Ele não se importa. É amigo!



3. Jack Peñate - Torn On The Platform
Este não engana ninguém: é mesmo fã do Jeff Buckley, com aqueles trejeitos na voz… As guitarras são maravilhosas, a lembrar o Johnny Marr e os Housemartins, a swinging London dos anos 80 e princípios dos 90. Muito bom e o vídeo, é uma delícia! Até a minha filha adora.



Meus amigos, é tudo por hoje nesta lição da Telescola sobre a música pop, retomaremos a emissão dentro de momentos.

Se tiverem mais um pedacinho livre, dêem uma espreitadinha a estes outros vídeos, bem mais antigos, mas todos eles com temas que fazem parte da Banda Sonora da minha vida, a editar brevemente pela Vidisco!

Vão em paz, e que o SOM vos acompanhe!


É só clicar,

Fastball – The Way

Jimmy Eat World – The Middle

Lit – Miserable (hum, a Pamela! Grrrrau!)

Weezer – Buddy Holly

Gnarls Barkley – Crazy (sim, esta todos conhecem, mas não é por isso que deixa de ser uma dádiva dos céus! E o vídeo, Meu Deus, o Vídeo!)

Nota do Bloguista de Serviço: o “Vendo o mundo de binóculos do alto de Marvão” gostaria de agradecer a gentileza do site You Tube pela disponibilização de imagens à revelia. E pensar eu que perdi anos da minha vida feito estúpido à espera do Top + ou lá como é que se chamava aquela cena, para ver quem estava em 1º lugar, na ânsia de ver algo novo e descobria que era o Stevie Wonder, pela milionésima semana, com o inenarrável “I just call”. Pois eu, só telefonei para dizer que a Internet é a maior invenção do homem, porque é a soma de todos os outros progressos e já não digo mais nada hoje. Boa noite. Bons sonhos e até amanhã.

5 comentários:

John The Revelator disse...

Já agora permite que acrescente qualquer coisinha nova. Um dos melhores discos que ouvi nos ultimos meses, e que entra directamente para o TOP. Aqui vai a amostra (e delicia-te com o video!)

The Maccabees - Precious Time
http://www.youtube.com/watch?v=fQ5JiOeZwpc

Numa onda mais Rock

Enter Shikari
http://www.youtube.com/watch?v=P4MiC67seUY

Não conhecia os Hard Fi. É demais, mas The enemy é melhor!

Pedro Sobreiro disse...

Hey hey Junior, my man! Boas propostas! Os Maccabees passaram-me ao lado. Carecem de segunda apreciação mas parecem-me bons. Os Enter Shikari são outro campeonato, mas alta pedalada. É engraçado porque uma vez apanhei o vídeo a meio na MTV2 e depois esqueci-me de pesquisar melhor porque não me lembrava do nome. Grande malha. O vídeo e o poder total fizeram-me lembrar quando vi pela primeira vez o single dos Refused - do "The Shape of Punk to Come". Aquela velha história do espaço fechado com os fãs à volta resulta sempre bem. Os putos têm nível. Aposto que faltaram muitas vezes às aulas para ouvirem Iron Maiden. Eu por acaso, também faltei a algumas pelo mesmo fim mas eu era mais AC/DC nesses tempos.

Como uma boa proposta merece uma contra-proposta, a cena mais excitante do momento vem directamente do Brasil com os Bonde do Role. Dois miúdos e uma miúda endiabrada que são a versão brasileira dos Buraca Som Sistema só que com muito mais piada, mais ritmo e mais qualidade. Isto é música quase porno, com linguagem proibida, directamente para as favelas, onde o Rio Baile Funk está a incendiar tudo. Pelas reportagens que li, ao som destes ritmos, os bailes nas esquinas dos bairros de lata aquecem, "rola ali um grande clima" e acaba tudo numa louca orgia até de madrugada. Há até agências de viagens que programam tudo para enfiar os turistas neste andamento. São é logo avisados que a coisa pode correr muito bem mas também pode acabar muito mal, com o fogo cruzado de gangs rivais de tráfico de droga que disputam cada metro do seu território. Eles chamam-lhe "Turismo de Risco e Aventura". Parece-me bem. Ou isso ou a EuroDiney.

O vídeo está em http://www.youtube.com/watch?v=Kgb6FxuaPQA.

Fica em paz e que o SOM te acompanhe.

Bugalhão disse...

EM CONTRA- MÃO

UM PAÍS DESERTO…

Sinceramente, meus amigos, acho que finalmente estou a ficar velho!
Sempre me tenho recusado a aceitar aquela máxima em que se costuma dizer “no meu tempo…”, porque acho que o “nosso tempo”, é enquanto estamos vivos (ou nos sentimos vivos), mas estas últimas crónicas do Pedro… deixam-me um pouco vacilante, que tenho de começar a pensar se afinal também tive “o meu tempo…”.

Bem sei que a música é uma “linguagem” universal, mas que os meus amigos só se sintam atraídos pela música que se faz lá fora por gente de origem bárbara…, deixa-me preocupado e a pensar, se tal como os músicos, também os bancários e os banqueiros, os professores, os cobradores de impostos, os presidentes de câmara, os economistas, os enfermeiros, os juízes, os médicos, os vereadores do poder local, os advogados, os agricultores, os passadores de droga, os polícias e os outros, os mecânicos, os costureiros, os vendedores de carros e outros, os barbeiros, os funcionários das autarquias, os motoristas, os empregados de mesa, os empresários, os canalizadores, os jogadores da bola, os ministros, os trabalhadores fabris, os secretários de estado e as outras, os carpinteiros, os pedreiros, os directores gerais e os outros, os animadores de rádio e televisão, as editoras musicais e as outras, etc., etc., DE ORIGEM ANGLO-SAXÓNICA, serão aqueles que fazem coisas boas e dignas de referência para passar no “You Tube”.
E que essa mesma gente que habita este “jardim” à beira-mar plantado, não passa de uma corja de incompetentes e pouco inspirados, que nem para fazerem umas cantigas para alegrar a malta jovem servem. Pobre gente…
Ou como dizia o outro “FRACOS DIRIGENTES, QUE FAZEM DE GENTE FORTE, FRACA GENTE…

Já agora…: Amália, Rui Veloso, Sérgio Godinho, António Variações, Madredeus, Jorge Palma, Paulo Gonzo, Xutos, J.P. Pais, Ala dos Namorados, Filipa Pais, Pedro Barroso, GNR, Fausto, André Sardé, Quadrilha, Vitorino, Carlos do Carmo, Clan, Marceneiro, Delfins, Zé Afonso, Camané, Sétima Legião, José Mário Branco, Luís Represas, Paco Bandeira, Fernando Tordo, Carlos Paredes, Marisa, Maria João, José Cid, Paulo de Carvalho, Dulce Pontes, Rodrigo Leão, David Fonseca, etc….
Corram a naturalizar-se britânicos, emigrem rapidamente…e já agora, levem os outros dez milhões de falantes da língua de Camões. E façam da “margem norte”, tal como a margem sul, UM PAÍS DE CAMELOS …

Um abraço do “camelo” João Bugalhão.

Luis disse...

Olá Pedro. Sou também 'bugas' (sobrinho dele) e tb respondo a quem me chama com esse diminutivo, mas vou usar Luís para não te enfegar o blog (como o outro bugas). Assim começo com 1 crítica: não é 'Wickie' é Vickie. E digo-te que as minhaas duas filhas tb o viram até à exaustão em K7, antes de verem os canais da TV Cabo com séries mais 'evoluídas'. Por outro lado, é gratificante verificar que não somos os únicos a gostar de música feita com mais algum alcance, diferente daquele que pouco mais pretende que vender como se vendem 'rajás' no Verão. E é bom que o teu blog fale de tudo e mais alguma coisa, mas eu evitaria o futebol (sou lampião), pois já sabes que a malta tuga é rija, é macho, e passa a falar só de bola, que o resto dos assuntos é coisa de borboleta ou de intelectual. De modos que, para acabar o que já vai longo, parabéns pelo espaço de debate que criaste, e qt ao outro bugas (o tio) que diz dever andar desactualizado, paciência: faz parte do desenvolvimento do individuo envelhecer. E é apenas isso que lhe está a acontecer. Não é para levar a sério (no que à música popular, urbana ou tradicional, nacional ou estrangeira, diz respeito, é claro.). Obrigado por me aceitares neste espaço de infoalentejanos e... Inté (luisbugalhao@gmail.com)

Pedro Sobreiro disse...

Ah, voilá! A família Buga em grande estilo! E obrigado ao sobrinho Luís (claro que sei quem és! Estás bom?) por ter respondido por mim ao tio. Meu querido John da Buga, a questão que defendes é uma falsa questão (mais uma vez?). Para mim só existem dois tipos de música: a que eu gosto e a que não me diz nada. E o resto são cantigas! Que mais me dá que cantem em austríaco ou hebraico ou na língua que for. Desde que mexa comigo, eu oiço. Se for em inglês, tanto melhor, assim sempre chega a todos. Eu também ouço o Jorge Palma e os Clã e muitos dos que citas como se fossem só teus. Mas a questão não é essa. O que seria de mim se em vez de ter bebido de todas as influências que quis ao longo da minha vida e falo também do cinema e da arte em geral, se tivesse ficado confinado ao universo tuga. Pobre de mim. É que eu, ao contrário de muitos, sou contra as quotas nas rádios e as protecções aos nacionais. Se querem ser ouvidos, que trabalhem e ponham corda nas unhas para que possam ir mais longe. Se os leres por aí, verás que muitos deles, têm como influências músicos que tu chamas de origem bárbara. Que seria desse mesmo Jorge Palma sem um Leonard Cohen, sem a sagrada família Buckley, sem o Nick Drake, os Velvet, os Beatles e mesmo os Stones, sem o Bob Dylan, sem a Patty Smith ou o Jimmy Hendrix, sem os Doors ou o Lou Reed? Um dia que o apanhes no Crato ou por aí, experimenta a perguntar-lhe. Um abraço e ouve sempre boa música. Ah, é verdade, há mais rádios em Portugal para além da Antena 1. Mas tens razão, assim para cotas, essa é mesmo a melhor!