sexta-feira, 28 de março de 2008

Augusta Emerita


Estive há dias em Mérida, acompanhado por autarcas do lado de lá da fronteira, para uma reunião de trabalho que tinha como propósito a captação de financiamento para um projecto cultural comum. Infelizmente, não posso hoje afirmar que as negociações decorreram conforme o previsto, mas a viagem valeu a pena, quanto mais não fosse, pelo companheirismo, pelo incremento das relações externas e pela vontade que despertou em mim de regressar em breve àquele lugar, com mais calma e com as pequenas.

Mérida não era novidade. Já por ali tinha andado de mão dada com os pais mas isso foi há muitos anos e desse tempo não guardo mais que algumas memórias vãs e uma ou outra foto amarelecida pelo tempo, às quais fui juntando informação mais recente que recolhi de jornais, revistas, conversas e imagens.

Esta visita de trabalho veio como que… reacender a chama.

Ah, e eu que sou tão apaixonado pelos romanos, pela sua forma de vida, pela sua visão do mundo e por tudo o que os rodeava e isto também não é coisa de agora, antes começou quando eu ainda mal sabia ler e comecei a coleccionar livros do Astérix que o meu padrinho me oferecia de cada vez que o visitava aos fim-de-semana em Idanha-a-Nova. E o que me fascinava mais naquilo tudo, não eram as cargas de porrada que o nosso amigo gaulês e o seu fiel Óbelix davam nos legionários, ao ponto de em cada soco desferido só deixarem cá em baixo as sandálias e os dentes a mais. O que me encantava naquelas vinhetas era sobretudo a possibilidade de conhecer o mundo deles como era então, com toda a sua belicidade, realismo e rigor histórico.

Depois foram os Kalkitos (lembram-se? O dos cowboys? Da estação orbital? Do navio dos piratas?) e as séries televisivas como o “Eu, Claúdio” e “Os Últimos dias de Pompeia” que ajudaram a adensar a paixão.

Com o já mítico “Spartacus”, do genial Stanley Kubrik, gravei em mim para sempre todo aquele imaginário, guiado pelo olhar de um jovem Kirk Douglas que personificou como ninguém antes e ninguém depois, toda a revolta que um homem consegue guardar dentro de si, lutando pela vida enquanto conquistava a cada movimento de espada, a dignidade e a liberdade dos seus pares.

Mais recentemente, o “Gladiador” de Ridley Scott, injustamente menosprezado na balança dos críticos, caiu-me mesmo no goto, menos pelo final lamechas mas mais pelos minutos iniciais da batalha com os bárbaros, numa sequência arrebatadora e de pura antologia que jamais esquecerei e que na minha modesta opinião, mais do que justifica o investimento dos produtores. Para mim, poderia mesmo acabar ali.

Há meses, os romanos voltaram, desta vez na televisão, pela mão da faustosa HBO que já nos tinha ofertado a melhor série de todos os tempos (sem margem de contestação e sim, estou a falar-vos dos “Sopranos”) e que agora mergulhou na recriação histórica com uma “Roma” como nunca a tínhamos visto antes, com todos os seus sanguinários jogos de poder e intrigas políticas, com toda a sua agressividade latente e sexualidade explícita.

De forma que nesta senda de relacionamento, Mérida parece-me perfeita porque é assim que se apresenta aos amantes do mundo romano. Apesar da importância estratégica que assume nos dias de hoje, funcionando como capital da própria região da Extremadura, não perdeu aquele ar de pequena “quase” vila do interior, com ruas estreitas e pequenos recantos, muito limpa e ajardinada, bem distante, por exemplo, da naturalidade “gitana” da graciosa vizinha Badajoz, essa também jóia mas de um outro tesouro encantado, neste caso, o islâmico.

Fundada 25 anos antes do nascimento de Cristo pelo imperador Óctavio Augusto, foi criada com o propósito de ser o local para onde regressariam aqueles que se distinguiram em vida pelos seus feitos militares em prol da mãe Roma, e a empreitada não podia ser mais bem sucedida porque 10 anos depois já era capital da província da Lusitânia, uma das três em que se dividia a Hispânia, hoje Península Ibérica (nesta altura ainda íamos a tempo… perdoem-me o desabafo!).

Todo o legado que ali permaneceu e resistiu milagrosamente ao tempo é pura e simplesmente avassalador. Brutal, mesmo! É muito, muito bom, muito bem cuidado, muito valioso, muito respeitado, muito visitado, muito Património da Humanidade, muito… prontos!

Eu sabia que não ia ter tempo para tudo, sobretudo quando na mala levamos uma criança de 6 anos que mal dobramos a esquina do bairro de casa, pergunta insistentemente “se ainda falta muito”. Eu gostava que um desses pais que são loucos ao ponto de irem assim com 3 e 4 filhos, alguns deles de colo, para sítios tão inóspitos como o Gerês, escrevessem um livro a ensinar como é que fazem. Eu cá comprava logo… sempre dava para tirar algumas ideias.

Mérida não é longe, nada disso, é aí a uns 45 ou 50 quilómetros de boa estrada para lá de Badajoz e demora-se daqui qualquer coisa como 1 hora e 45 a chegar. È verdade que quase se demora tanto tempo como daqui a Lisboa, que fica a 2 horas sem BT no caminho, mas a Lisboa vamos nós mais vezes e isto vale mesmo a pena.

Com a viagem e os fusos horários e a mania da hora da sesta, de manhã pouco mais deu que para chegar e visitar a “Casa do Mitreceo”, famosa pelo seu mosaico que representa uma visão cosmológica do Universo e é muito procurado. É claro que antes já tinha feito uma pesquisa no Posto de Turismo e já sabia muita coisa, como por exemplo, que se comprasse o bilhete para ver tudo, pagava 10 euros mas tinha direito a um livrinho todo catita que explica as coisas e se não fosse já saber isso, o jovem que estava na bilheteira com ar aparvalhado, a ouvir música no leitor mp3 do telemóvel, não se iria certamente lembrar de mo entregar. Bem, bem!

A Casa é magnífica e podemos por ali perfeitamente entender como seria uma “villae” romana, com as suas diversas e bem definidas divisões, o pequeno jardim interior, todas as pinturas decorativas, os magníficos e irrepetíveis mosaicos, a zona termal com os diversos tanques, o pórtico de entrada, a zona de estudo e tudo mais. Vejam bem que os gajos até se deram ao luxo de desenhar um Cupido com uma pombinha nos braços no chão do quarto que era assim mais para o namoro. Cheios de estilo. Epá! Adoro! Chegavam lá e diziam assim: “ó filha, olha só o que eu mandei fazer a pensar em ti” e era garantido! Espertalhões, sim! Porque nós, dos romanos, não ficámos só com o latim, os princípios básicos do direito e o gosto pela frequência dos lugares públicos. Na verdade, nós devemos muito mais a estes tipos que se vestiam assim só com uma farpela por cima e eram peritos em técnicas de engate e naquela altura marchava tudo fossem cachopinhos ou cachopinhas, velhas e velhos e até uma lucerna eu lá encontrei com a uma senhora a cometer acrobacias sexuais creio que era com um cavalo ou um gafanhoto gigante de patas para o ar que ali valia tudo. Eram grandes, estes romanos!


Antes do “cierre para la comida” ainda deu para visitar a área dos “Colombários” que não tinham nada a ver com pombos mas sim com a morte e com a forma como eles a encaravam. Tinham um ritos muito giros e uma manias bem engraçadas que nós aprendemos melhor num centro de interpretação ao ar livre que é simples mas eficiente e do qual nos fazia muita falta um do género no castelo de Marvão. Diz lá que entre muitas coisas, gritavam 3 vezes pelo nome do defunto para ver se o gajo estava mesmo embarcado, lhe davam uma moeda que ele não podia aceitar por razões óbvias (estava morto!) mas que ficava lá à mão de semear. E depois diz também que os queimavam mas depois passaram antes a enterrar embora as duas práticas coexistissem; diz que as áreas funerárias eram fora das muralhas da cidade para não criar mau ambiente; diz que a pessoa depois de morta era quase transformada em divindade, enfim, muita coisa gira!





“Ala que se faz tarde” e o almoço no M mais do que óbvio, seguido de umas comprinhas e voltamos à carga com o Anfiteatro e o Teatro Romano. Quem bota os pés no Anfiteatro e o olha cá de cima, quem tem capacidade de abstracção e tem alguma imaginação, estremece e vibra com o peso da história. Ver aquilo tudo cheinho de gente aos gritos, clamando pela vida do seu gladiador favorito, torcendo para que escape às feras que emergem do chão e dos orifícios laterais das bancadas perante a passividade do imperador e do mecenas… foge, é lindo! Mágico mesmo! Um sítio com a história toda lá dentro.


Vou dali meio abananado e subo as escadas que dão acesso à bancada do Teatro com um sol ainda de Inverno (apesar da Primavera) batendo de chapa. Quando chego ao cimo e olho para baixo digo para mim mesmo que é inacreditável. Do outro mundo! As colunas (belíssimas!), a delicadeza dos capitéis, as estátuas, toda aquela envolvência é de deslumbre absoluto. Pelo amor de Deus, parem de mandar os miúdos ao Badoca e ao Aquário Vasco da Gama e dêem-lhe disto que é tão bom. E a acústica? De arrepiar.





Da loja de merchandising e souvenirs não falo porque me custa: estava tão bem que eu era capaz de trazer aquilo tudo, tudo! até a rapariga do balcão que de romana não tinha nada mas era bem… parecida.

Como a hora ia adiantada, avançámos justamente para o Museu que se percebe logo pelas portas porque é que se chama NACIONAL de Arte Romana. É a estocada final. Não dá hipótese! Liga dos Campeões! São só 3 pisos magistralmente divididos que abarcam tudo aquilo que se possa imaginar sobre o que foi este período da história. As formas de vida, espaços públicos, organização política, manifestações artísticas, tipos de habitação, lazer e ócio, religião, monumentos funerários, a moeda, os mosaicos, os adornos, as maquetes, administração, movimentos migratórios e profissões. Aquilo é de tal maneira bom que se entra para lá palerma e sai-se de lá doutor em romanos. Corram!

Ainda por cima, para além de tudo isto, por estas alturas, na nave central estava montada uma magnífica exposição denominada “A via da Prata: uma calçada e mil caminhos” que abordava de forma profusa toda esta temática.

Querem mais? A cereja no cimo do bolo… a jóia mais bela da coroa: uma exposição temática com o sugestivo título: “Pompeia e Herculano: à sombra do Vesúvio”. Eh, eh. Lá dentro? Logo à entrada, três módulos de gesso que representam ao milímetro, três dos muitos corpos que foram encontrados naquelas paragens, três do que sucumbiram aos gases tóxicos e foram soterrados em cinzas vulcânicas. Depois? Quadros, esculturas, textos, artefactos de uso pessoal, vidros, frescos, utensílios de cozinha, mobiliário em bronze, instalações multimédia para explicar melhor o que se passou, divindades, amuletos, cerâmicas, tudo, tudo vindo de Nápoles, emprestado pelos amigos italianos. Ah! Música. Pura poesia.

E bem, saí assim meio a levitar. A pensar como às vezes temos tanto e tão bom aqui tão perto e passamos a vida feitos burros a passear a cabeça entre as orelhas, em vez de desfrutarmos a vida e tentarmos viver melhor.

Ah…

Em Mérida, até os drogados têm estilo. Como o que me interpelou à saída do Museu pedindo uma moeda e eu lhe passei alguns trocos só para não ter de o ouvir e o gajo me diz “ni un eurilho?”, como quem diz, “para dares esmolas destas, mais vales ficares com elas!”. Muito bom!

Na “Braseria de los Duendes”, pincho moruno, cerveza sin e calamares para el viaje.

Em Mérida, banho de História e Cultura.

Como eu percebo o gajo que disse “nem só de pão vive o homem”.

Podes crer, pá!

8 comentários:

João Bugalhão disse...

Tive também o prazer de conhecer Mérida à meia dúzia de anos.

Com a tua descrição senti-me lá de novo, pois também eu passei por esse lugares que tu tão bem descreves. Porque vamos lá tão pouco? Porque para a maioria de nós, Espanha, é ainda uma inimiga e a maioria dos nossos “pedagogos”, continuam a orientar-nos para os países bárbaros, que mais não têm feito que despojar-nos ao longo da história.
Lembro aqui, a vintena de Estátuas Romanas, roubadas da nossa Mérida marvanense (Ammaia), pelos nossos “aliados ingleses”, em meados do século XIX.

Mas o que na tua descrição me entristecesse, é que também nós em Marvão, poderíamos ter um património semelhante, se tivéssemos um país a sério, que ajudasse a trazer à superfície essa congénere de Mérida, que foi Ammaia, certamente mais pequena, mas que poderia representar para Portugal o que Mérida é para Espanha. Também ali, temos tudo o que descreves: o Teatro, o Fórum, as Termas, o Anfiteatro, as Zonas Funerárias, etc., só que estão enterrados. Quanto ao Arco da sua porta principal? Bem, esse foi “desviado” para C. Vide, e destruído em 1898. Vá lá saber-se porquê.

Infelizmente, a Ammaia, continua a saque, como sempre esteve ao longo dos séculos e não se vislumbram melhoras.

João Bugalhão

Garraio disse...

A minha espanhola não me deixa responder-vos.

Conheço Mérida hà carradas de décadas de anos, e gostava de ser guia de muitos dos que por aqui opinam sobre a IBÉRIA.

A peninsula é grandiosa. grandiosa, grandiosa.


Quem tiver humildade suficiente inscreva-se nas rotas ibéricas.
Fazemos por menos de 500 paus.
´

É só querer ficar de boca aberta.

Pra isso tou cá eu. Sem necessidade de Bentos Portunhas.

João Bugalhão disse...

ó Garraio, explica-te lá...conho!

João Bugalhão disse...

T.A.:Em cima, onde se lê “à meia dúzia de anos” deverá ler-se “…há meia dúzia de anos”

Luís Bugalhão disse...

e cordoa (ou cordova); e granafda.
tudo organizado, tudo recuperado para gáudio, para deleite dos turistas!

e eu já estive tb em pompeia, e é extraordinário!

pq é que não se faz aí?

nos tempos que correm é difícil...

o estado nem pensar, gestão economicista há décadas.
os privados têm medo de não ter rendibilidade.

grandes fotos mais uma vez.

abraço

ps. e vamos adonde ti garraio? bjs à tua espanhola ;-)

Catarina disse...

Há uns anos atrás fui com os meus pais ao festival de teatro clássico de Mérida, um festival de muita qualidade, que será com certeza, dos melhores que se fazem aqui por perto.
Foi no anfiteatro romano, à noite, e lembro-me que quando do me sentei, a pedra estava ainda muito quente, dos 40 graus (ou mais) que tinham estado nessa tarde.
A minha mãe lembra-se que a peça era de um grupo espanhol e chamava-se "A criação do mundo" ou algo parecido.
Pois que eu não me lembro muito bem, confesso, o que eu me lembro da peça é outra coisa...
Aquilo foi mesmo muito à frente, muito tipo "La Fura dels Baus". No meio de muito fumo, luzes e música estrondosa, entra por ali a dentro um enorme barco, assim tipo caravela.
Eu já estava de boca aberta mas muito mais iria ficar...
De dentro do barco começam a sair pessoas, muitas pessoas...todas nuas......muitas, assim dezenas...
sem exagero, assim dezenas...todas nuas...Dançaram muito, esbracejaram muito, correram por ali adiante, eu sinceramente não me lembro muito mais do enredo...
Uma pessoa quando assiste a uma cena destas na companhia dos pais encolhe-se um bocado, mas enfim, foi uma bela peça, foi uma bela noite, e recomendo o Festival de Teatro Clássico de Mérida, pois recomendo.

Para ver aqui:http://www.festivaldemerida.es

Pedro Sobreiro disse...

A mim já me aconteceu uma cena parecida mas foi numa despedida de solteiro e era mesmo de verdade.

Foi engraçado...

Luísa disse...

Boa escolha! também já por lá passei duas vezes...e conto voltar...
Recordo-me da minha filha muito pequena...e onde chegava pela primeira vez, sempre perguntava: " onde está o castelo?? esta terra não tem castelo???"...
Partilho desse prazer de levar os filhotes a descobrir as terras, a sua história, os monumentos...desde cedo....agora que a minha já está grandota...também fui com ela, como estava prometido há muito tempo, visitar Sintra...e veio maravilhada pelas descobertas feitas em vários locais: Palácio da Pena, Quinta da Regaleira, Palácio Nacional de Sintra...e o magnífico Convento dos Capuchos...recomendo pelo menos dois dias mágicos nessa verde Sintra....