sexta-feira, 4 de setembro de 2009

No País das Maravilhas (da Alice)

massive attack - teardrop

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Na sala entravam apenas uns raios de sol dourados típicos das tardes de Setembro, os únicos que conseguiram fintar as persianas e a barreira do calor.

O médico espalhou uma substância gelatinosa no ventre e olhou para o monitor a preto e branco que me fez lembrar a pequena televisão que tinha aos pés da minha cama de solteiro.

As primeiras imagens, espessas e difusas, pareciam o anti-ciclone dos Açores numa edição de meteorologia dos anos 60.

Fiz olhos de chinês e tentei, dentro da minha ignorância, encontrar ali um sinal de vida.

O homem mexia nos botões sem tirar os olhos do ecrã e num passe de mágica, estabeleceu ligação directa com um coração que batia rápido mas num ritmo perfeito e cadente. Eu suspirei.

Seguiu então rodando com jeitinho o scanner manual que foi desvendando uma toca bem escondida.

Vislumbrou-se um a perninha aqui… uma mãozinha ali… a cabeça que rodava. Há ali muito espaço para viver. O útero de uma mãe é um pátio bem jeitoso para uma vida de 15 centímetros.

O homem enervou-me com tanta medição, tanta régua electrónica, tanta elipse à volta de tudo, valha-me Deus. Se ao menos fosse fazendo o relato como fazem nos jogos de futebol, a malta tranquilizava… mas tanto silêncio…

Quando pareceu já ter o serviço todo feito, foi vendo se sabia algo mais e a dada altura, saiu-nos do nada uma carinha, acomodada entre os dois punhos fechados e uma boquita que se abriu.

(Suspiro longo, lento e profundo. Ai eu… que não sei se me aguento assim, opá!).

(Sorrisos)

No final, contrariando o ar de duro de toda a sessão, sorriu enquanto nos olhou por cima das lentes e disse: “Acho que é outra menina. Não tenho a certeza… Mas pelo que vi… As probabilidades são enormes… Era o que queriam?”.

Nós os humanos, temos coisas do arco-da-velha. Uma delas é glorificarmos coisas sem sentido e que não justificam de todo o estatuto de semi-divindade (vide futebolistas, estrelas de cinema, políticos, modelos, enfim…). Outra é a nossa absurda tendência para relativizarmos coisas em que vale mesmo a pena pensar. Pois eu, cada vez que penso numa vida, numa vida que sai de nós, no milagre que é isto tudo, fico absolutamente banzado. Que coisa poderosa pá, porra!

5 comentários:

nuno mota disse...

Será que vais seguir as pisadas do teu sogro e fazer apenas rachas ??? rsrsrs ...
O importante é que nasça perfeita, a mãe fique bem e vocês possam continuar a ser uma Família feliz, que bem o merecem !!! Felicidades mais uma vez !!!

Catarina disse...

este é, sem dúvida alguma, o único milagre em que eu acredito...

banda sonora perfeita, as usual...

Lembras-te quando dava a Alice no País das Maravilhas na televisão e a música do genérico era cantada em alemão? Temos que pedir aos nossos Fritzs que ensinem!!!

jb disse...

olá Pedro, entrei pelo blog da catarina e espreitei aqui a tua janela sem pedir licença!
mas limpei os pés antes de entrar! e a alma! que está limpa, pura desde 30 de junho! é maravilhosa a sensação! ainda me lembro das primeiras ecografias e agora já o tenho tão gordinho, com 2 meses a sorrir ao meu colo!
parabéns pela Alice (um dos nomes se fosse rapariga)
muitos beijinhos que esse país das maravilhas a aqueça por mais uns mesinhos! depois serão todas as coisas boas da vida a acalentar-lhe a alma!
beijinhos Joana Brandão e Lucas Brandão Bucho

Marilia Rosado Carrilho disse...

Daqui vão também os meus parabéns para todos.

Que se desenvolva e nasça no seio de muita saúde... e alegria, claro!

Pedro Sobreiro disse...

Obrigado a todos pelos vossos desejos e amizade. Beijo e forte abraço.