terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Janeca




Pois a vida tem destas coisas e é por isso que é (por vezes) tão difícil vive-la. Não há um livro de instruções. Não há uma relação causa-efeito. De vez em quando lá vem uma bomba assim destas que nos dá a consciência real do nosso papel. A velha estória da quarta-feira de cinzas: “lembra-te que és pó e em pó te hás-de tornar”. Simples, claro, conciso, duro, direto e verdadeiro.

O Janeca tinha 50 e poucos, creio que 56 anos pelo que me contaram hoje no velório. Um homem na flor da idade, aparentemente bem de saúde, sem nenhum sintoma ou problema conhecido apagou-se num clique, num flash fulminante que o roubou e varreu de espanto e desolação quem o queria. Tal qual o meu pai, com 49 anos. Viver é reviver e isto deixa marca porque é um furacão, um terremoto que abala para sempre a vida de quem está próximo.

E nós? Como será?

Só a autópsia revelará a causa certa mas agora as suposições são sempre mais que muitas e dividem-se entre um enfarte ou uma embolia. Seja qual for a causa, a certeza da consequência e a irreversibilidade da mesma deixam-nos mais pobres. Mais tristes. Mais sós.

O Janeca foi uma amizade que herdei dos meus pais. Grande amigo do meu de quem foi sempre companheiro em patuscadas,aniversários, carnavais na vila e caçadas, habituei-me sempre àquela figura bonacheira e bem disposta de bigode farfalhudo. Grande adepto portista, era costume brincarmos com a bola. Como ultimamente tem ganho sempre, costumava picar e enaltecer o dele e eu, tinha de ceder por saber que não tinha razão. A última vez que estivemos juntos foi nas finanças onde foi pagar creio que um imposto automóvel, se bem me recordo. Em conversa com o colega João recordámos uma cena que sempre ficou: a minha primeira ida a uma discoteca que foi com ele e com a Lena no papel de pais. Eu, puto, estava de férias no Algarve e eles levaram-me com o outro pessoal amigo à Trigonometria. Passaram por meu pai e mãe e nós rimo-nos desse episódio. Sempre preocupados se eu estava a sentir—me bem e a integrar-me, foram-me perguntando se não queria beber nada. Perante tanta insistência, disse que sim.

“E o que queres, Pedro?”

“Uma Coca-cola!”

Já passados tantos anos, quase trinta, ainda nos rimos os três a bom valer da cena. Eu era o puto e creio que para os amigos daquela geração, hei-de sempre ser.

Hoje, até o tempo estava mais triste, chuvoso e com muito nevoeiro que cobria tudo com um manto espesso e cinzento. Apesar disso, centenas de amigos reuniram-se e colocaram este último adeus à frente de tudo o resto na agenda. Por incrível que pareça, é nestes momentos que nos apercebemos que as tecnologias e exigências do mundo moderno não valem de nada. As pessoas são o mais importante. Sempre as pessoas. Únicas, valiosas, insubstituíveis. Abraços que não dava há anos, caras que não ouvia há muito tempo, gente que adorei ver e creio que gostou de me ver. Gente que não veria hoje se não tivesse sido por ele. Creio que o reconhecimento disso é uma bonita homenagem.


As memórias ficarão sempre. Enquanto durarmos. Dias como o de hoje, metem-nos no lugar e fazem-nos perceber o volátil que é tudo. A efemeridade da vida.



4 comentários:

Artur Sequeira Portela disse...

Bonitas palavras. Um abraço Pedro.

Henrique disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Henrique disse...

Bela homenagem Amigo Sabi... Tal como descreves se habituaram e identificam de imediato com essa figura, não podias ter esculpido melhor imagem nas tuas palavras para quem conheceu o Sr. Janeca "figura bonacheira e bem disposta de bigode farfalhudo." Paz á sua alma e condolências á família e conterrâneos.

Henrique Batista disse...

Lembro agora... Portagem; Sever; servi-lhe cubatas de Gin Gordon*s ou melhor, garrafas! Era como um ar que se lhe dava...