terça-feira, 4 de setembro de 2007

Viagem a Lisboa IV - "De visita ao Comendador"


Avanço ávido de luxúria e saber para o Museu do nosso amigo. Começa bem: ou sou eu que sou muito patego, ou para quem gastou tanto dinheiro, bem podiam meter mais umas plaquinhas de sinalização a dizerem por onde é que se entra para aquela porra. Mas bem, lá estava eu, confirmando algumas das minhas expectativas. À entrada, uma escultura de garrafas que supostamente representa uma mulher. Bonito! Menos bonita é a enorme arca frigorífica no corredor de acesso que mais parece uma daquelas que o Filipe tem agora no restaurante novo do Sever. A placa diz que é uma obra de arte e quem sou eu para duvidar. Certo! As meninas sorriem quando pergunto “quanto custa?”. Por entre os dentinhos brancos e os lábios cheios de batôn deixam escapar um sussurro: “é grátis!”. Grátis? Ai sim? Boa!

Os ajudantes que por ali andam são simpáticos. Pelo menos esforçam-se. Vê-se que estão contentes. Pudera! Aquilo é solo sagrado. Quem pisa aquele chão, fica logo mais inteligente. A sério. Todo o mundo que ali mete o cú, fica logo com uns assomos de grandeza. Não sei, deve ser do ar ou do perfume do Comendador.

Cá o Tio Sabi, diz que para ele é assim: Não sei o que é que aquilo era antes. Não sei se era uma estrebaria, ou uma arrecadação, mas o espaço é magnífico e está estrategicamente colocado. Não percebo muito bem a orientação da disposição da colecção. Não há uma base cronológica, nem sequer lógica. As peças estão bem arrumadas segundo a sua natureza, mas andamos para trás e para a frente, subimos e descemos e saltamos no tempo mas se calhar aquilo é mesmo para impressionar. Há o espaço dos surrealistas, do vídeo, da cor, das esculturas, da Pop Art, está giro!

Eu, como sou Vereador da Cultura, também fiz cara de mau e um ar curioso para a malta não me apanhar nenhuma gaffe. E logo me esqueci dos óculos de massa, droga!

Mas avancemos, para mim há ali muita, muita, muita coisa de qualidade de que eu gosto muito. Muito mesmo. Mas também ali há muita coisinha que não lembra ao menino Jesus. Há que ter coragem para dizer que há por ali muita merda, mesmo! E tem que se ter cuidado, porque algumas demonstrações artísticas são de tal forma inovadoras que eu vi gajos mais incautos a olharem para os interruptores e para os sensores de incêndio e a dizerem que sim com a cabeça. “Génio!” sussurravam. Ai ó avó!

Gostei muito do Dali, do Picasso, do Miró, do Magritte, da Paula Rego que eu adoro tanto, do Warhol e do Vieira da Silva exposto numa das salas de baixo. Flipei com o Fischl, o Schnabel, a escultura do George Regal, o Lichtenstein (é sempre uma emoção vê-lo à nossa frente nas dimensões originais), a escultura do John De Andrea, o Mclean e o Monory. As imagens destes todos, apesar de serem de telemóvel, deixo-as em baixo para que também as possam contemplar.

Não gostei do resto quase todo. Há ali cenas que só dão mesmo para rir. Numa das salas de vídeo, vi dois homens e duas crianças a verem numa sala escura uma cena muito louca, um trabalho de vídeo, sobre uma viagem de negócios de uma gaja chamada Marina Abramovic. Era a preto e branco e a imagem, muito tosca e suja. E aquilo era uma viagem de carro, como se nós também lá fossemos. A malta seguia aquilo com a maior das atenções. Uma seca! Se desse no Canal 2 lá de casa, depressa faziam zapping, mas ali, ó amigos, qualquer um pode ser um expert em arte moderna! Vi lá uma caixa de ferramentas pintadas de cinzento e uns desenhos tão mal feitos que nem a Leonor com dores de dentes.

Gostei de ver as pessoas a olharem para as cadeiras disponíveis para quem se queria sentar a admirar as obras, como se fossem também elas uma manifestação artística.

O Berardo é como o Rei Midas, só que o outro transformava em ouro tudo o que tocava, e este transforma em arte.

Ele que se livre de tocar no nosso Rui Costa, coitadinho, transformado em estátua de resíduos sólidos. Ó Berardo, não mo estragues, que vai ser por ali que nós vamos ser campeões.

Ai! Desculpem! Já me estiquei! Futebol e arte não jogam juntos! Acho que me excedi!

Se puderem, não se esqueçam de passar por lá na próxima visita à Capital. Aquilo é purificador… sai-se de lá a falar francês!

Au revoirzinho!

Do que gostei muito:

Paula Rego - The Barn



Eric Fischl - Mother and Daughter (94)

Julian Schnabel - Portrait of Jacqueline (84) - Feito com restos de pratos partidos



George Regal - Flesh nude behind brown door (78)



Andy Warhol - Judy Garland (79)



Roy Lichtenstein - Interior with restful paintings (91)



John De Andrea - Arden Anderson and Norma Murphy (72)



Jack Monory - Velvet Jungle nº 10 - 1 (70)

Do que não gostei mesmo nada:


Sim, sim, conta-me histórias. Caixas destas tem lá o Arlindo muitas na oficina!


Já percebi porque é que não se paga bilhete!

2 comentários:

Margarida disse...

Gostei muito de ler a sua apreciação ao museu colecção Berardo. Ainda assim, aconselho-o a procurar um livro de História da Arte do Século XX para muito facilmente encontrar as peças que menosprezou e encontrar-lhes um novo sentido. Por vezes as obras de arte mais aberrantes, inestéticas e, aparentemente, desnecessárias escondem determinadas reacções artísticas a coisas mais bonitinhas e inteligíveis "à primeira". São muitas vezes essas das quais nos rimos que vêm a ser as nossas preferidas quando compreendemos a mensagem deixada pelo artista e o seu enquadramento. Não se deixa de ler um livro quando ainda só se leu as 3 primeiras páginas, pois não?

Pedro Sobreiro disse...

Minha cara Margarida, por quem sois? Antes de mais bem haja pela visita e por me ter tão educadamente chamado burro. Temos de ter fair-play e saber meter as tais orelhas de jumento quando nos excedemos, mas se me permite, discordo em absoluto consigo.

Os calhamaços da história da arte podem de facto dizer o que quiserem. Eu, no meu blog, também. Os teóricos até podem dizer maravilhas mas já ouviu certamente a história do Rei que ia nú?

Tomemos o caso concreto da caixinha com as ferramentas e as lagostas pintadas a prateado de que falei atrás. Os teóricos podem proferir as mais elogiosas referências à coisa e dissertar ao longo de centenas de páginas. O comendador pode engolir a históia e ir na cantiga. Eu não vou. Sou assim, meio aparvalhado Só gosto de coisas bonitinhas... Para mim aquilo não passa de uma caixa de ferramentas e lagostas pintadas de cinzento e ponto final.

Quer outro exemplo? O filme "Branca de Neve" do João César Monteiro que também vi por lá e que certamente conhece como sendo uma obra, algo, obscura. Há críticos que dizem maravilhas, de uma obra de cinema que vive da escuridão. Eu acho que o gajo era um gozão de alta escala que estava deserto que alguém chegasse ao pé dele e lhe dissesse que aquilo não passava de uma piada de mau gosto. Não teve essa sorte, o pobre. Para mim, peço desculpa, é um lixo e a Margarida não me vai certamente criticar por eu dizer o que penso, bolas! Podemos discutir arte, sempre! Não me coloque é mordaças!

Ah! E quanto aos livros, já deixei de ler diversos por não gostar das 3 primeiras páginas. E não só livros, discos e filmes também já foram arquivados após maus começos. É que o tempo é cada vez mais precioso, sabe, e há tanta coisa de qualidade (na minha modesta opinião) para ver, ouvir e ler que não perco tempo com maus inícios.

Dir-me-á que poderei ter passado ao lado de grandes obras por não ser como os ciganos que não gostam de ver bons princípios aos filhos. Eu poderia responder-lhe que perdi uns mais ganhei outros. É a lei da vida.

E não me diga que alguma das peças é da sua autoria? Aí! Peço desculpa pela sinceridade. Mas podemos sempre conversar.

Cumprimentos,

Pedro