ATENÇÃO!!! INÉDITO!!! Suplemento de economia
Nota: Estimados leitores, a gerência pede a vossa melhor atenção para a singela prosa que se segue. Advertimos que pode parecer extremamente aborrecida a princípio mas todo aquele ou aquela que se aventurar pelas suas linhas poderá estar certo(a) que no final verá o seu esforço recompensado, tal será o manancial de informação fiscal absorvido…
Queridos amiguinhos…
Recordar-se-ão certamente da minha crónica acerca do Pingo Doce de Castelo de Vide. Não foi assim há tanto tempo, pois não? Eu concordo convosco. Mas a verdade é que apesar de terem passado poucos dias, já andei para lá a caminhar hoje outra vez. Não que tenha gasto tudo o que de lá trouxe na última romaria consumista mas nesta humilde guarita a que chamo casa já faltava muita coisa que faz falta todos os dias como os Ice Teas e a fruta de qualidade, de forma que não tive alternativa.
A minha Senhora voltou a estar ocupada com a Associação de Pais do Concelho (A idade tudo traz…), e não tive outro remédio senão criar um programinha alternativo de fim de tarde chuvosa para mim e para a pequena.
Foi um gosto, como sempre, e uma limpeza também. Em pouco mais de hora e meia, fiz um rombo no orçamento que mais parecia o Túnel do Marquês, equivalente a duas notas de euros das verdes, que são simultaneamente as mais difíceis de apanhar (porque será?).
Chegado a casa, depois de saciado com um excelso mas nada exuberante, apenas competente, repasto criado a partir das iguarias recém-adquiridas, recostei-me na cadeira e pus-me a pensar na vida, tal e qual como já faziam os nossos antepassados que calcorrearam estas margens do Sever há muitos milhares de anos, quando se aconchegavam na gruta a olhar o fogo após terem barbeado a presa de caça morta à escassas horas.
Em cima da mesa… o talão da compras. Que grande… Mais fino que o papel higiénico mas com uma dimensão considerável que denunciava o estrago. Concluo que nada foi muito caro embora, as coisas sejam tantas que grão a grão, encheu o Pingo Doce o papo.
O detalhe que me prendeu realmente a atenção foi o IVA e as suas diferentes taxas. Um pormenor que ajuda a marcar toda a diferença e de repente, me deu vontade de mergulhar nesta temática e partilhá-la convosco…
MAS QUE RAIO É ISTO DO IVA?!?!?!?!? Perguntam vocês e com razão. E o Tio Sabi, numa verdadeira iniciativa de Serviço Público não remunerado e fora-de-horas, esmiúça a temática para a pequenada, dos que ainda andam de cueiros por esses bancos de liceu, aos que já gostam de perder a cabeça nos meandros da economia doméstica.
Olhem bem p’ra mim armado em Medina Carreira. Já tenho um olho fechado…
O IVA… é uma cena bem real da qual todos gostam de falar mas que quase ninguém sabe ao certo ao que vai.
O IVA, que quer dizer Imposto sobre o Valor Acrescentado, é uma forma que os Estados modernos inventaram para sacar dinheiro ao pessoal. A ideia é básica e funciona na perfeição: na sociedade actual, na qual o capitalismo é regra e o consumo a palavra de ordem, a malta precisa de comprar. Com a especialização, cada um faz aquilo que pode e o resto compra e os Estados, que não são nada parvos, pensaram: “epá… se cada vez que a malta compra qualquer coisa tiver de contribuir com uns pózinhos-extra, isto é capaz de dar um monte de dinheiro…”. Se assim o pensaram, melhor o fizeram e assim se instalou o IVA entre nós.
O IVA passou a estar em todo o lado, como o Nosso Senhor. Tirando as raríssimas isenções, o IVA espreita em cada esquina e… não perdoa.
Os especialistas dizem que o IVA é o imposto perfeito porque tem uma mecânica infalível e complexa feita de liquidações e deduções. Um agente económico que não esteja isento tem uma relação de “balança” com o IVA. Ele liquida o IVA aos contribuintes (por exemplo num café ou num jornal) mas pode deduzir o IVA que pagou no âmbito da sua actividade. Se liquidou mais do que deduziu, deve entregá-lo ao Estado. Se tem mais a deduzir, fica com um crédito. Engenhoso, não é?
E não me amolem que até agora isto até nem foi difícil de perceber e só por terem lido até aqui já podem fazer um figurão quando ouvirem um papagaio qualquer dizer detrás do balcão: “Ainda este mês PAGUEI não sei quanto de IVA!!!”. É aqui que vocês entram e deixam toda a gente de boca aberta quando respondem em voz baixa, em jeito de conselho, “o IVA não se paga, mestre… o IVA entrega-se… Esse dinheiro não era seu... era dos seus clientes!”. Muito nível! Escusado será dizer que sempre que um caramelo destes vos vender alguma coisa e não registar na respectiva máquina, não só está a roubar o Estado mas também vos está a meter a mão no bolso a vocês.
Ainda assim… não era bem aqui que eu queria chegar. Digamos que este intróito serve apenas para vos conduzir à verdadeira questão de hoje, das compras e do Pingo Doce: a das diferentes taxas do IVA.
DIFERENTES TAXAS?!?!?! MAS NÃO É SÓ UMA?!?!!?
NÃO! E não porque o Estado que é assim uma espécie de velhinho gigante com umas enormes barbas brancas que vive semi-desnudado numa nuvem como o Zeus na mitologia grega, também não é parvo. Quando inventou o IVA pensou logo… “epá, se há tantos bens, de valor tão diferente… não podem todos levar com o mesmo IVA. Há que fazer taxas diferentes”.
Assim, para os bens que fazem muita falta à vida do pessoal, bens de primeira necessidade pensou-se uma taxa mais fraquinha que esta gente também tem escrúpulos… isto não é assim à maluca. Esses bens em Portugal agora levam com 5% de IVA ,o que traduzido significa que o contribuintezinho paga o valor real do bem acrescido de 5% desse valor. É o “IVA DOS PEQUENINOS”.
Noutro extrema há uma taxa máxima (que vai mudando consoante haja ou não eleições) que é mesmo para aqueles bens “armados em finos” que é como quem diz: “Ai queres luxos?!?!?!? Então PIMBA! Levas com mais 20% na tola que até apitas”. Este IVA é o que eu chamo de “IVA A DOER”.
“E só há estes 2 IVAS?”, perguntam vocês e bem, que é sinal que estão com atenção. “Não! Não há só estes dois… Há ainda o IVA que eu chamo de “IVA DA COMPAIXÃO” que é para aqueles bens que já são um bocadinho para o finório mas ainda assim são de alguma necessidade. Esses escapam assim mesmo à tabela com 12%.
É nesta fase da análise, chamemos-lhe assim, que eu vos pergunto se não acham que isto até nem está mal pensado? Não está de facto. O que está mal e me fez escrever esta cena é que as taxas do IVA, as que vêm na parte esquerda dos talões de compras, antes de cada produto, ESTÃO TODAS TROCADAS, CARAÇAS! COMO É QUE É IMPOSSÍVEL?
Senão vejamos, queridos e cultíssimos leitores, eminências pardas na questão fiscal e verdadeiras aves raras do IVA. Paga-se 5% no arroz, no atum em lata, no pãozinho, no peixinho, na carninha de porco (incluindo nas vísceras, iscas de fígado e rins incluídos). Pagam 5% o polvo e o peru, o abacaxi, a bananinha, os bróculos (blaaargh) e a cenoura, as clementinas, os cogumelos e as laranjas. 5% pagam o tomate, a uva e o limão. Vai bem! Mas acham que as minhas batatinhas fritas “Lays artesanais com molho de cogumelos”, um verdadeiro luxo, uma cena gourmet, paguem apenas 5%? É um ultraje, uma ofensa a produto de requinte. Já nem me sabem tão bem…
E que dizer da minha “Água das Pedras light com sabor a framboesa”? Um verdadeiro requinte pós-jantar que me fazia sentir como a gaja do reclame dos Ferrero Rocher? Pagar 5% só por ser uma água??? Opááááá… Não me amolem! Estes gajos estão-me a estragar os luxos!
Isto para já não falar nos iogurtes magros “Corpos Danone Light com morangos e Kiwi”, nos Danoninhos, nos Bongos, nas Frizes, nos prazeres terrenos de um pobre mortal, todos eles taxados a 5%. Porquê Deus meu, porquê?????? Só para nos inferiorizar?!?!? Conseguiram…
Passemos aos 12% e entramos num domínio bizarro. Atentemos: cá em casa, quando vamos às compras para o pequeno almoço, compramos sempre fiambre e queijo. Cenas básicas para a gente comer de manhã. O fiambre paga 12%. O queijo paga 5%. Porquê? Porque um vem do porco e o outro vem da vaca? Mas não são ambos para o pequeno almoço?!?!? Vá lá alguém perceber isto…
12% pagam as azeitonas, os cogumelos laminados, o feijão, o grão, o tomate… E eu pergunto: “Ai estes não são bens essenciais? Então o Estado come o quê às refeições?”.
12% pagam as polpas de manga e maracujá e o rolinho de salsicha que a minha filha comeu logo lá dentro do Pingo Doce porque estava cheia de fome… mas nós guardámos o papelinho e pagámos na caixa. Ainda há gente honesta, está bem?
12% pagam os rissóis, o esparregado e a lasanha congelada para quando a gente tem de comer à pressa e não temos nada pronto e os nossos sogros se esqueceram de nos convidar para almoçar. Não faz mal… aquilo também não é nenhuma obrigação… é quando calha… nós sabemos…
Agora digam-me com toda a sinceridade: “acham bem que o vinho, O VINHO, DEUS MEU”, o néctar que os Deuses nos ensinaram a extrair da uva sagrada, esse bem primordial do qual o nosso avozinho Salazar até dizia que ao ser consumido dava de comer a não-sei-quantos milhões de portugueses, pague 12%??? O VINHO NÃO É ESSENCIAL?!?!? Estou sem palavras. Um produto tão natural… É… injusto… no mínimo.
No domínio dos 20% estão os chocolates. Sim, os chocolates pagam 20%. E os pretinhos que andam lá a apanhar os grãozinhos ao calor, para receberem uma miséria, que vivem daquilo, são o quê? Turistas? Bem…
A bolachas de água e sal… 20%. AS BOLACHAS DE ÁGUA E SAL?!?!?! A água pura é taxada em 5%. Se é em bolacha… 20%. Ai não são feitas de água também? Ai eu… ÁGUA e sal!
O camarão… 20%. O camarão, o camarãozinho do meu coração, que é um autêntico peixinho… 20%. O peixe paga 5%. O camarão… 20%. Para o Estado, o camarão deve de ser algum mamífero, com certeza…
Uma pá para o lixo que eu comprei por 1 euro e 49 cêntimos, que é essencial, repito, ESSENCIAL para acabar com o pó na minha casinha, paga 20% de IVA. Está certo! Limpar o pó é um luxo!
Um saco preto para trazer as compras paga 20%. Luxo! E se eu não o comprasse trazia as compra onde? No cú?
E para terminar que com esta já não posso mais e fico arreado… uma caixinha de 24 minizinhas Sagres, daquelas de 25 cl que sempre trazem mais um bocadinho, aquelas da Rita Andrade, tão fresquinhas, tão puras, só com água e malte e cereais e coisinhas saudáveis que fazem alegria… 20% ó Mê Deus!
Acabo de crer que não há justiça no mundo.
O IVA vai dar cabo de mim!
PS: Vamos fazer um “suponhamos”. Assuponhamos o seguinte: esta espelunca, este blogue, esta coisa já recebeu mais de 180 000 visitas gratuitas. Se cada uma custasse 1 euro, valor que para além de me parecer absolutamente justo, me parece até miserável, eu já tinha dinheiro para pagar a minha casinha toda, comprar uma Vespa 125cc e dar uma volta ao mundo. E… atendendo a que a taxa do IVA não poderia ser outra que a de… 20%, obviamente, isto significa que os Estado poderia ter ganho 36 000 euros que antes perdeu.
OUVIRAM, SENHORES DO SIS? Bora lá meter esta cena com pagamento obrigatório e fazer uma bruta faena!
Ai acham mal?!?!? E estar aqui a escrever estas coisas durante horas, sozinho, agarrado ao computador, a dar cabo dos meus olhinhos, não merece pagamento? Egoístas…
PS1: Não quero deixar passar a ocasião sem mandar um abraço ao Pedro, digníssimo Director do Pingo Doce de Castelo de Vide que hoje se aproximou de mim para me agradecer as palavras que escrevi sobre a estrutura que tão bem dirige. Um gesto bonito que me tocou. Disse-lhe que nós, os portugueses, estamos habituados a dizer mal e que raramente elogiamos o que está bem. Já vai sendo altura de mudar e eu, sempre que posso penso que faço a minha parte. Depois fiquei a pensar nisso. Da outra vez, limitei-me a publicar o texto no blogue mas desta vez fui mais longe… via e-mail direitinho para os recursos humanos da casa-mãe (Grupo Jerónimo Martins). Pode ser que surta efeito. Oxalá! Bem merecem!
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Deste IVA gosto eu... Taxada a 100%