quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Eu sobrevivi... à vacina da Gripe A (até ver...)

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E prontos, já está!

Agora já me podem tossir para cima e encher de espirros que eu não me preocupo nadinha. A vacina da Gripe A, melhor, contra a Gripe A já cá canta! Olaré!

Como sabem, eu sou asmático. Isto é, era muito asmático quando era puto, fiquei um bocado mais quando comecei a fumar e agora já sou menos por causa do desporto mas isto de ser asmático é como ser alcoólico ou drógado, no sentido em que é uma merda que não passa. Nunca ouviram aquela conversa que diz que “um bêbado uma vez, é um bêbado a vida inteira e tem de estar sempre de pé atrás com a bebida porque se meter qualquer cena, mesmo que seja um cálice de anis, pode começar a encher a cara, desatar aos gritos, partir tudo e deitar tudo a perder?”. Pois bem, a asma é igual.
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Eu até posso aqui estar armado ao pingarelho, numa de “Sport Billy” a dizer que estou todo atleta e já não tomo a “bomba” para a bronquite, mas basta um resfriado mais forte para ficar com os pulmões entupidos, à rasquinha para respirar e a parecer que tenho um ninho de gatos dentro de mim de cada vez que tento meter ar. Foi por isso que me assustei com esta conversa da Gripe A. Se com a prima dela, leia-se a gripe normal, já me vejo aflito, imaginem com esta que deve de ser mesmo assim uma cena de “Gripe Liga dos Campeões”. Quem tem cú tem medo e nestas matérias quem se balda amola-se sempre pelo que… venha para cá a boa da vacina.

E prontos, falei com o meu médico de família e ele arranjou-me a cena. Ligaram-me do Centro de Saúde e disseram-me que o frasco depois de aberto tinha de ser logo gasto (o que dá sempre um ar de mistério à coisa e fica bem. Dá-lhe um ar precioso, vá!) e que como o frasco tem 10 doses e já tinham 8 pessoas, quando houvesse mais 2 interessadas me ligavam. Esta é a versão oficial, mas cá para mim, esta conversa das 10 pessoas é só porque depois é mais fácil para eles fazerem as estatísticas do que se levasse cada uma quando lhe dava na real gana. Sabem que o pessoal lá do Ministério da Saúde e do Governo andam sempre super-atarefados e a mamar bordoada de todo o lado. Têm pouco tempo para contas e por isso inventaram esta fórmula simplificadora de terem de ser 10 de cada vez a levar a dose para as contas de somar serem mais simples. Imaginem que destes 10 que levaram hoje, 2 tinham como reacção a perda parcial do olfacto da narina esquerda. Fácil, não é? Parece que já estou a ver a 1ª página do Correio da Manhã: “20% dos vacinados contra a Gripe A em Santo António passaram a cheirar só metade”. Genial!

A asma não foi o único motivo porque levei a vacina. Levei também porque gosto de estar na moda, e não há assunto mais na berra do que este. Estar na moda faz-me sentir bem e é por isso que a roupa que tenho comprado este ano é quase toda roxa / violeta. E nem os comentários infelizes de um ex-colega que me disse numa dessas vezes que eu ia bem vestido na moda que “mais parecia o Senhor dos Passos” me fez desanimar. Ele há gente…

Também levei a vacina porque é de borla e a mim ensinaram-me desde pequenino que temos de aceitar tudo o que nos dão. Quer dizer… quase tudo. A minha avózinha, de cada vez que se despedia de mim quando ia para o Liceu dizia-me: “Ai filho… não aceites rebuçados que podem ter droga”. Coitadinha… se fosse assim tão fácil…

A picada não me doeu nada e o líquido a entrar na pele também não. Dureza! Um homem não chora e eu, mancebo na reserva territorial, quinto de 73, estou treinado para sobreviver nas condições mais adversas só com um abre-latas e um dedal (não me perguntem como agora…), mesmo apesar de nunca ter sequer ido às inspecções. Se tivesse ido, de certeza que me seleccionavam para os Páras ou para os Comandos. Ou uns ou outros, mas numa tropa especial era de certeza. Nem que fosse como porta-estandarte ou Sargento-Corneteiro.

Depois da pica, já estava aviado e prontinho para me vir embora, todo contente por não ter desmaiado com o tamanho da agulha quando me disseram: “Agora tem de esperar meia-hora”.

Estas coisas deixam-me sempre nervoso. Sobe-me logo a minha hipocondria. “Olá… Mas meia hora? Porquê?”.

“Ah, pode dar alguma reacçãozinha…”.

“Alguma reacçãozinha? Em matérias deste calibre não há reacçõezinhas! Por favor! Reacção do tipo o quê? Um AVC? Uma síncope cardíaca? Uma combustão humana espontânea? Ai a porra…” Aqui comecei mesmo a ficar nervoso e naqueles 30 minutos vieram-me à cabeça todas as teorias da conspiração que tinha arquivadas na despensa do meu cérebro. Estaria a servir de cobaia? Hummmm… Concentrei-me na máquina do café para não ficar histérico e comecei a ler tudo à minha volta, a ver se me distraía. Pensei que estava a respirar para um saco de plástico como vi num filme para não entrar em pânico e conseguir controlar-me. O facto de a minha filha, com 8 anos também ter levado e estar ali a brincar despreocupadamente, ajudou-me. As crianças às vezes não têm noção do perigo que correm… E para mais, ela só levou meia dose e eu mamei com a de cavalo. Bem… pelo menos era um bocadinho maior.

A única reacção que tive foi ter vestido a camisola ao contrário logo a seguir, mas acho que esta não conta. Ah… e ao fim aí de 14 minutos e meio, comecei a ficar com a orelha esquerda muito quente, mesmo a ferver. Mas acho que esta também não conta… isso sempre me aconteceu e a minha mãe dizia que era porque estavam a dizer bem de mim num sítio qualquer. Porque é do lado do coração. Se fosse a orelha direita era a dizer mal. A direita é do lado do fígado. Está tudo explicado.

Vim cá para fora tomar ar e só voltei quando o tempo passou. Cheguei à recepção e disse: “Olha, afinal sobrevivi”.

“E…”.

“Queria saber se me davam ordem de soltura. Se me posso ir embora.”

(Foram lá dentro)

“Diz que sim. Podes ir”.

“A sério? E posso fazer tudo? Tipo nadar? Correr? (Como nos anúncios dos tampões?). Comer qualquer tipo de alimentos? Não há nenhuma dieta especial? Precauções específicas? Cuidados especiais? Vou-me embora e deixam-me assim sozinho? Não há antídoto? Sem soro nem nada? Por minha conta e risco? E a minha filha… coitadinha… já abalou… sozinha à mercê dela… sabendo lá…”.

“Podes fazer tudo!”.

Sendo assim… corri… jantei… e agora estou aqui refastelado no sofá, ao quentinho, contando a minha experiência para a posteridade enquanto milhões de partículas de vírus morto percorrem todo o meu organismo, enfiados na corrente sanguínea, fazendo ninho nas células e eu só me pergunto… são partículas de vírus morto… e se alguma ressuscita?”.


(A gerência aconselha repetir a leitura deste último parágrafo ao som de guinchos de violinos em crescendo, como nos filmes de terror. Termina com um gongo. Se tiverem um cd das bandas sonoras do Hitchcok ajuda. Se não, façam como eu e imaginem. Também dá.

A gerência gostaria também de agradecer a amabilidade e compreensão de todo o pessoal técnico do Centro de Saúde de Santo António das Areias.

Nenhum animal foi agredido durante a escritura desta prosa).

3 comentários:

Catarina disse...

a imagem está belíssima, lembrou-me logo o Dr. House!

Hoje o braço está um bocadinho dorido,não? a mim doeu-me dois ou três dias

Sandra Bugalhão disse...

Pedro!
Mais uma vez dei por mim a ler o que escreves-te e a sorrir para o meu pc.
Tambem a mim a minha avó me dizia para não aceitar rebuçados nem nada de estranhos porque tinham droga. As orelhas vermelhas e quentes. Direita ou esquerda. Dizer mal ou bem... Espectacular!
Pergunta á Cristina de ela ainda se lembra de uma viagem de autocarro do Salvador para Santo Antonio eu ia sentada ao lado dela e tu no banco de trás a cantar a Paixão dos Herois do mar o caminho todo. Uma serenata para ela.
Beijinhos

Pedro Sobreiro disse...

Olá Sandra! A Cris fala muita vez nesse episódio, sobretudo quando a música toca no rádio...

Devíamos ter uns 14 ou 15 anos...

Belos tempos...

Parece que foi ontem...

Beijo grande para ti!