terça-feira, 27 de novembro de 2007

As lições do patrão


O último disco do Bruce Springsteen tem tocado até à exaustão no meu ipod enquanto corro na escuridão da estrada. Tem-me feito companhia, bem juntinho ao meu ouvido e eu corro mas parece que não estou a correr. Parece que vou num imenso teledisco, numa viagem que me domina e me controla. Marco o passo com o ritmo da bateria, trepido com o som das guitarras e deixo-me levar pela força das suas palavras.

Nunca fui grande fã, mas não há dúvida que este é o grande disco por que muitos esperávamos há muitos anos.

A minha relação com o Boss sempre teve altos e baixos. Conheci-o no estrondo do “Born in he USA” mas cedo me deixei enfeitiçar pela magia do belíssimo “The River” e pelo enigmático e poético “Nebraska”. Ouvi-o muito, muito, nas longas tardes e noites de Verão e Inverno na casa do meu primo Quim Carita.

Depois larguei-o na fase “Human Touch” / “Lucky Town”, quando estava na moda e foi foleiro. Redescobri-o no electrizante “Plugged” para a MTV e no inusitado “The Ghost of Tom Joad”, inspirado na personagem do livro de Steinbeck. A partir daí, parece que o homem se virou para as suas raízes, para a pureza da primeira hora e criou dois grandes discos, “Devils and Dust” e o bestial “Seeger Sessions” que já faziam antever que coisa grande vinha a caminho.

“Magic” é um Springsteen vintage, o Springsteen que como reza a lenda, foi visto um dia pelo repórter como “o futuro do Rock’n’roll”, o Springsteen que se assume como herdeiro directo e vulto maior desde Dylan, na construção da consciência sonora americana, amaldiçoada e redimida pela viola e pela harmónica.

Magic tem tudo o que de bom um dia fez. Tem harmonias vocais à Beach Boys, guitarras à Byrds, a excelência da sua poética e a mão no coração dos States.

O homem é grande, o homem irradia pinta e estilo e classe inebriante.

Quem me dera rescrever o passado e voltar a poder ouvi-lo no concerto que me passou ao lado em 94.

Entretanto, há sempre estas 12 balas de consolo.

A CANÇÃO DE TERRY

Esta canção foi lançada como o 12º tema de “Magic”. Não foi listada na contracapa do cd ou em qualquer outra parte do booklet. Surge como “faixa-escondida” depois de uma pausa digital de 10 segundos que segue a música 11 – “Devil’s Arcade”.

Grande companheiro e amigo muito próximo de Bruce, Terry Magovern faleceu a 30 de Julho de 2007. Magovern começou a trabalhar para o Boss em 1987 como assistente pessoal, mas eram amigos desde 1972.

O funeral de Terry teve lugar na Igreja Metodista Unida de Red Bank, no dia 2 de Agosto. Durante o memorial, Bruce tocou pela primeira vez esta música que tinha sido escrita no dia antes. No seu discurso explicou que olhou para todas as músicas que já tinha feito e tentou escolher uma que fosse apropriada para o Terry. Descobriu que essa ainda não tinha sido criada. Foi tocada com guitarra e harmónica e continha um verso extra que não consta da gravação oficial que dizia “Podemos reconstruir as nossas gloriosas torres mas não podemos reconstruir a alma”.

As gravações de “Magic” foram feitas entre Março e Maio deste ano.

A canção de Terry foi acrescentada em Agosto.

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Terry's song (trad. livre da minha autoria)

Eles construíram o Titanic para ser único, mas muitos navios dominaram os mares;
Construíram a Torre Eiffel para ser una mas podiam construir outra se quisessem;
O Taj Mahal, as pirâmides do Egipto, são únicos, suponho eu;
Mas quando te fizeram a ti, irmão, partiram o molde.

Agora o mundo está cheio de maravilhas debaixo do sol rasante;
E às vezes há uma coisa que chega e tens a certeza que é única;
A Mona Lisa, a estátua de David, a Capela Sistina, Jesus, Maria e José;
Mas quando te fizeram a ti, irmão, partiram o molde.

Quando te fizeram a ti, irmão, transformaram o pó em ouro,
Quando te fizeram a ti, irmão, partiram o molde.

Dizem que não o podes levar contigo, mas acho que estão enganados;
Pois tudo o que eu sei é que acordei esta manhã e algo grande tinha partido;
Partido para o éter negro onde ainda és jovem, forte e frio;
Tal como quando te fizeram, irmão, quando partiram o molde.

Agora a tua morte está sobre nós e devolveremos as tuas cinzas à terra;
Eu sei que te reconfortará saber que tens sido abençoado e amaldiçoado;
Mas o AMOR é um poder maior que a morte, tal como as canções e as histórias contadas;
E quando ela te fez, irmão, partiu o molde.

Essa atitude é um poder mais forte que a morte, viva e ardendo na pedra fria;
Quando te fizeram, irmão…



E PARA TERMINAR...
Para os fãs, uma pérola descoberta há dias e que comprova que o Lavoisier era muy fino. Na verdade, nada se perde, tudo se transforma no grande circulo que é a vida. A música não foge à regra. Os Arcade Fire, uma das grandes bandas alternativas do momento junta-se em palco ao velhinho para tocarem juntos um dos temas do aclamado “Neon Bible” que assenta que nem uma luva ao patrão, como se fosse dele.




Eu compreendo a excitação do bacano que gravou isto na sua máquina digital. Realmente, é de gritos. Desfrutem!

2 comentários:

Bonito disse...

Não costumo fazer comentários quando o tema é música. Não é porque não goste da dita; aliás, penso que todos gostam: cada um à sua maneira. É porque evito pronunciar-me sobre temas que não “domino”. Além disso o meu inglês também não é muito famoso portanto… bico calado! Se não ainda me chamam “cota” (ou será quota).

Mas… do Boss gosto…gosto muito… e gosto há muito tempo! Julgo que é mesmo da “batida”, porque da prosa pouco pesco! (obrigado, Sabi, pela tradução… a sério) e, além disso lembra-me sempre um amigo comum: o grande Zeca.

Enfim, já bebia uma “bejeca” com ambos (e todos os outros) ao ritmo deste som. Se calhar até fumava um cigarrito…com moderação!!!!!

Grande Boss e… grande Sabi


Grande Abraço

Bonito Dias

Pedro Sobreiro disse...

Ó meu amor... Essa bejeca vamos bebê-la com o Zeca já no próximo domingo, nos anos da Nônô.

Por acaso, também me lembro sempre muito dele quando ouço o Boss porque sei que ele gosta muito e porque os acho parecidíssimos.

No domingo tiramos-lhe as parecenças todas...

Um abraço