sexta-feira, 23 de novembro de 2007

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Todas as noites penso que quero ser uma pessoa melhor. Todas a noites rezo para ser uma pessoa melhor.

Hoje, como tantas vezes ultimamente, quando chegou a hora de dormir, subi as escadas com ela às cavalitas nos ombros, como tanto gosta.

Quando já deitados, bem juntinhos e de olhos nos olhos, perguntei-lhe: “hoje foste feliz?”.

“Hoje fiz tudo o que eu queria, pai. Tomei um banhinho de espuma e comi espetadas”.

Às vezes pergunto-me se serei merecedor da graça demolidora do seu amor.

5 comentários:

victor disse...

Peço desculpas antecipadamente por não poder assistir ao vosso piquenique , mais fica a saber que é mutuo o sentimento de agradecimento.Quem te conhece, ainda que virtualmente, sabe da tua capacidade de escrever histórias que emocionam e tratam de temas complexos com a naturalidade daquele que domina, com habilidade, o manejar das frases.

Eu também todas as noites penso que quero ser uma pessoa melhor, embora não rezo para ser uma pessoa melhor, também tenho filhos e também pergunto-me se serei merecedor de seu amor, e se algum dia terei que escrever assim:
Amado Filho,
O dia em que este velho já não for o mesmo, tenha paciência e me compreenda.
Quando eu derramar comida sobre minha camisa e esquecer como amarrar meus sapatos, tenha paciência comigo e se lembre das horas que passei te ensinando a fazer as mesmas coisas.
Se quando conversa comigo, repito e repito as mesmas palavras e sabes de sobra como termina, não me interrompas e me escute. Quando era pequeno, para que dormisse, tive que contar-lhe milhares de vezes a mesma historia até que fechasse os olhinhos.
Quando estivermos reunidos e, sem querer, fizer minhas necessidades, não fique com vergonha e compreenda que não tenho a culpo disto, pois já não as posso controlar. Pensa quantas vezes quando menino te ajudei e estive pacientemente a seu lado esperando que terminasse o que estava fazendo.
Não me reproves porque não queira tomar banho; não me chames a atenção por isto. Lembre-se dos momentos que te persegui e os mil pretextos que tive que inventar para tornar mais agradável o seu banho.
Quando me vejas inútil e ignorante na frente de todas as coisas tecnológicas que já não poderei entender, te suplico que me dê todo o tempo que seja necessário para não me machucar com o seu sorriso sarcástico.
Lembre-se que fui eu quem te ensinou tantas coisas.
Comer, se vestir e como enfrentar a vida tão bem com o faz, são produto de meu esforço e perseverança.
Quando em algum momento, enquanto conversamos, eu chegue a me esquecer do que estávamos falando, me dê todo o tempo que seja necessário até que eu me lembre, e se não posso fazê-lo não fique impaciente; talvez não fosse importante o que falava , e a única coisa que queria era estar contigo e que me escutasse nesse momento.
Se alguma vez já não quero comer, não insistas. Sei quando posso e quando não devo.
Também compreenda que, com o tempo, já não tenho dentes para morder, nem gosto para sentir.
Quando minhas pernas falharem por estarem cansadas para andar, dá-me sua mão terna para me apoiar, como eu o fiz quando começou a caminhar com suas fracas perninhas.
Por último, quando algum dia me ouvir dizer que já não quero viver e só quero morrer, não te enfades. Algum dia entenderás que isto não tem a ver com seu carinho ou o quanto te amei.
Trate de compreender que já não vivo, senão que sobrevivo, e isto não é viver.
Sempre quis o melhor para você e preparei os caminhos que deve percorrer.
Então pense que com este passo que me adianto a dar, estarei construindo para você outra rota em outro tempo, porém sempre contigo.
Não se sinta triste, enojado ou impotente por me ver assim. Dá-me seu coração, compreenda-me e me apoie como o fiz quando começaste a viver.
Da mesma maneira que te acompanhei em seu caminho, te peço que me acompanhe para terminar o meu.
Dê-me amor e paciência, que te devolverei gratidão e sorrisos com o imenso amor que tenho por você.
Atenciosamente,
Teu Velho

Eu gosto do frio. Gosto da chuva. Gosto de abraço. Gosto de estar sozinho, mas não gosto de ser sozinho. Não gosto de barulho . Gosto do meu trabalho. Gosto do meu vizinho do lado esquerdo e não conheço o vizinho do lado direito.

Bonito disse...

Para quem tem uma filha de quatro anos e pais a caminho dos oitenta e o tempo da vida se esvai num frenesim que se tornou, estupidamente, natural este comentário do Victor é um verdadeiro murro no estômago!

Grande Abraço

Goyi disse...

Me ha gustado mucho conoceros y sobre todo me habeis parecido muy buena gente y yo no suelo equivocarme en la primera impresión ( Pedro estás muy delgadito y Bugalhao bastante joven). Espero que lo hayais pasado bien, yo estoy muy ocupada y estos últimos días con poco tiempo para nada.

Me han encantado las palabras que habeis escrito los tres, Pedro, que bonito lo que dices del sentimiento que tienes por tu hija y Victor, que duro y que real lo que le pides a tu hijo!!!.

Hubo un accidente hace unos días en Valencia y murieron dos amigos de mi hija, se llamaban Mané y Raul, tenían 23 años,pero podían haber sido cualquiera de nuestros hijos o nosotros mismos, lo cierto es que han dejado unos padres destrozados que nunca más se recuperarán de su desgracia.( Mané era hijo único)

Ellos me inspiraron estas palabras:

Madre, cuando en la noche terrible y sin consuelo
del leve sueño te aparte como un loco mi recuerdo y pienses que el infierno sería el cielo en tu desdicha
voy a deslizarme suavemente de una estrella hasta tu cama
recostaré en tu pecho mi cabeza para que otra vez y dulcemente acaricies mis rizos con tus dedos...... negros
como negro, triste y amargo es tu silencio..
duerme madre, no te aflijas, yo velo tu sueño
Quiero ser, madre, el soplo del aire que respiras,
quiero estar junto a ti cuando descanses
quiero cubrir de besos tus mejillas
susurrar en tu oido que te quiero.... lo oirás si estás callada
quiero ser la lluvia que moje suavemente tu cara
el viento que revuelva tus cabellos
y cuando llores mi ausencia en tu ventana, seré la suave brisa que pegue en tus cristales
y el niño juguetón que con sus risas llene tu alma.
Cuando mi padre en la noche, cansado, se llegue hasta la casa,
dolor de hombre, ojos cargados de lágrimas calladas
va a mirarte a escondidas, en silencio
y una sonrisa nueva asomará en tu cara
¿ cómo sonries, no ves que no está el niño?
y tu responderás con mucha calma:

El niño está en mi cara, en el aire que respiro, en mis pupilas, en mi corazón y siempre..... ! escuchamé!.... hasta que muera....
! siempre estará en mi alma!

PD_ No debe haber dolor más grande que perder un hijo, ojalá no conozcamos nunca ese sentimiento, ante eso no hay nada......Descansen en paz!

Bonito disse...

Companheiros de caminhada:

Aqui sentadinho, com dorezinhas nas pernas, descobri, no Google, que erramos o percurso no lado espanhol. Fizemos o dobro dos Kms que deveríamos! Agora já percebo o “conta kms do Sabi” e o cansaço do Garraio!

E o percurso “óptimo” permitia-nos ver o Moinho da Negra!

Paciência! Esta já ninguém nos tira!!

Se me indicarem o mail (o meu é bonitodias@clix.pt) envio-vos a imagem que prova esta realidade!

Grande Abraço

Pedro Sobreiro disse...

Caros Victor e Goyi, muito obrigado pelos vossos belíssimos e arrepiantes testemunhos. Belas lições de vida podemos extrair deles. Um grande abraço aos dois.

Estou grato e reconhecido.