terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Pesar...


Volto à minha Beirã para um funeral, mais um funeral, confirmando uma estatística tenebrosa que teima em se reafirmar.

Chove como nunca antes neste ano e o Inverno parece ter chegado de vez.

Quando entrei na calçada de paralelos reparei que o ribeiro, onde eu brinquei verões em fim, parecia querer transbordar pela força da enxurrada.

Apagou-se mais um vulto, uma personagem, uma figura daquelas muitas que compunham o universo da minha aldeia. No caso, o Sr. Correia, figura distinta e com uma classe cativante de outros tempos que eu conhecia desde que me lembro. Já tinha muita idade mas a sua lucidez clarividente e a aparente forma física enganavam quem lhe queria decifrar a idade.

O Sr. Correia era daquelas pessoas que ainda hoje me tratavam por Pedrito e me faziam sempre sentir que ainda tinha seis anos e podia sair a correr por aqueles canchos fora, de fisga no bolso e maço de Kentukis na mão, sem que ninguém me pudesse apanhar.

Nem sabia que estava doente, de forma que me apanhou assim de surpresa.

Via-o na Anta, quando por lá passava, e cumprimentava-me sempre com extrema delicadeza. A Dona Fortunata, sua esposa, parecia-me sempre mais abatida e chorava quando eu cumprimentava, deixando fugir pela face abaixo umas lágrimas furtivas com saudades de sabe-se lá o quê. Do tempo… Como se eu fosse um elemento que vinha do passado para a assombrar ali, uma memória de épocas que sabia que já não podia viver.

Porque a vida tem destas coisas e se há sítios que eu dispenso, são os funerais.

E não é por muita coisa. Custa-me sobretudo por motivos óbvios:

porque há sempre gente que faz questão de falar de tudo e de nada sem sequer ter noção do que está ali a fazer (até negócios de gado uma vez ouvi fazer em pleno velório)...

porque há rapaziada que vai para ali como se fosse para o cinema, só para ver a dor alheia num espectáculo de comiseração sem par...

porque fico completamente sem jeito e sem saber o que hei-de fazer e como hei-de reagir...

e sobretudo, porque para haver um funeral, tem de haver alguém que deixou de existir, que deixou de respirar, que deixou de ser.

E isso dá-me muita pena.

Depois das condolências, vim para o exterior e via a chuva cair quando dois olhos me sorriram do lado de lá da soleira. O Primo Amieira e o Chefe Neves, falavam dos tempos passados e dizem-me eles (os dois para aí na casa dos 80), a mim (34!): “ai Pedrito, o que vai ser da nossa Beirã. Tudo acaba!”.

E esta é uma coisa fantástica para se dizer porque o facto de termos os três vivido uma Beirã nos seus tempos áureos, ainda fervilhante de vida comunitária e de força, faz com que haja um elemento transversal às nossas vidas que é capaz de superar a própria idade.

Estes dois jovens, que conheceram bem o meu avô Sobreiro, que eu já não tive a sorte de apanhar nesta encarnação, falaram comigo como contemporâneos na plena acepção da palavra.

Quando encontro o meu amigo e vizinho João José Bicho (também nos oitentas?) a beber café com os seus amigos de geração, costumo gracejar e dizer “eh pessoal do meu tempo!” e eles riem-se mas eu sei que tenho razão. Se estamos todos vivos na mesma altura, então são do meu tempo! E se assim é, estes dois amigos da Beirã de hoje fizeram-me acreditar nisto como nunca.

Na minha mente e na deles persiste a mesma ideia: a da extinção de uma terra.

Pode haver Antas e UAIS e trabalhos ultra-meritórios, que eu respeito profundamente, mas tratam-se de cuidados paliativos. Balões de soro e oxigénio que retardam a sobrevivência mas jamais devolverão a qualidade de vida. A da nossa aldeia já foi.

Pergunto-me se os romanos que viveram no apogeu do império e os que sentiram as primeiras rupturas no casco terão tido noção do que se passava à sua volta.

Na minha terra foi diferente, morreu com data marcada, quando as fronteiras se abriram para a Europa e as do futuro se fecharam para nós, como eu costumo dizer.

Nascida com o progresso. Sacrificada pelo progresso.

A história de uma terra e de duas ou três gerações, num abrir e fechar de olhos.

Quando por ali estou, percebo aquela história dos elefantes irem todos morrer ao mesmo sítio, ao lugar deles, onde se sentem bem.

Por pouco ou nada que ali haja, cada pedra tem uma história, uma memória, um significado, uma palavra para preencher este quebra-cabeças que é a nossa existência.

A Beirã há-de ser sempre nossa e nós dela, sobretudo quando há mais um elo que quebra e se dissolve para sempre.

Falei por telefone com o Jorge Miranda. Ligou-me em missão diplomática e acabámos por falar num almoço que há muitos anos vimos acalentando, com os miúdos todos daquele tempo cujo rasto perdemos pela vida fora. Perguntei-lhe se era em Setembro e ele disse-me que a altura era boa.

Será que somos capazes? Eu imagino logo uma sala enorme e nós todos mais gordos, mais carecas, com filhos ao colo e a rirmo-nos de nós. Há gente que eu gostava bem de abraçar…

De tarde proponho uma visita às Acácias, ao tanque da Broca, à Estação e ao Campo da Bola (Será que ainda lá vive a família de lacraus debaixo das pedras da baliza?).

À noite, jogamos aos castelos nos Adro da Igreja até o cuco cantar.

Alguém alinha?

13 comentários:

Jon disse...

See here

Clarimundo Lança disse...

Atenção o jon é virus

Goyi disse...

Sólo tu me haces llorar a estas horas de la noche.
No lloro por el hombrecito que murió, al fin y al cabo, a todos nos llegará la hora y además, convivo diariamente con la muerte, y, como decía mi abuelo: puedo mirarle a los ojos, ya no la temo , aunque no la quiera ni la busque.

Lloro por esos niños que nunca jurarán en el patio de la Iglesia de tu pueblo y de otros pueblos de mi tierra, lloro por esos viejitos que nunca tomarán los últimos rayos de sol de su vida en la plaza del Ayuntamiento, lloro porque cuando paso por la casa donde mi padre nació y se crió, sólo veo yerbas y paredes en ruinas llenas de alimañas, lloro por esos campos de fútbol, donde llegará un día en el que ni siquiera los alacranes se escondan debajo de las piedras, y lloro pensando en lo duro que debe ser volver a lugares donde jugaste, reiste, lloraste y quizás, latió por primera vez tu corazón frenético, al ver a la chica de tus sueños, vacío, desierto y morir lentamente.

También lloro por todo lo que nos han robado al abrir las fronteras, a vosotros y a nosotros, y por todos aquellos que tuvieron que marchar lejos y no tendrán oportunidad de cerrar los ojos por última vez contemplando desde su ventana, como tu y como yo, la belleza y el embrujo del Castillo de Marvao.

Besitos llorones para mi yerno.....

Que bonito escribes!, vamos a ver que tal interpretas!

elisa disse...

88888888joanaOlá, gostei mutio do que li, porque fala de sentimentos, fala de memórias que preenchem corações. Será que é para ficar triste ou encher o coração de calor e de ternura por todas essas lembraças boas que com certeza têm o poder de limpar as lágrimas saudosas de tempos já vividos. Sabe, Pedro, eu recordo com saudade todas as pessoas queridas que já não estão comigo, e já vi partir bastantes, inclusive a minha mãe que partiu em altura bem complicada de minha vida. Chorei por muito tempo a sua partida, mas deixei-me disso porque descobri que estava a pensar em mim e não nela. Pois... estava a ter pena de mim porque tive que ficar sem ela. Eu chorava por a ter perdido, fazia-me falta. Mas estava na hora e estava na hora de eu aprender a lutar ainda mais. "Não vou conseguir", pensei. Com uma filha de cinco anos e outra de apenas dois meses eu fui obrigada a descobrir do que realmente sou capaz nesta vida. O meu pai e os meus dois irmãos... Não sabia o que fazer para os ajudar, mas parece que há solução para tudo mesmo. Enfim...
Sabe o que recordo de todas as pessoas de que lembro o último dia de vida? Os bons momentos tal e qual como conta. A certeza de que estão na maior, e o conforto de sentir a sua "presença" cada vez que lembro tudo de bom que vivi com eles.
Também tenho boas recordações da minha infância e das pessoas que a povoaram, recordo-as e alimento-me do bem-estar que sinto quando o faço.
Cada um tem o seu percurso de vida, cada um parte na altura certa, por isso vale a pena viver cada dia como se fosse o último . Acordar pela manhã e vestirmo-nos de alegria e boa disposição mesmo que o dia esteja bem ventoso e muito cinzento. Nós também deixaremos o nosso rasto... Que seja o melhor que soubermos e pudermos fazer, sem compromissos nem preocupação de o fazer mas com intenção de nos tornarmos felizes a nós próprios.
Medo da morte? Nem pensar! Medo da vida? Também não!
Tristeza por a grande maioria das pessoas não entender que num "piscar de olhos" acabou e que não vivemos nem metade do que poderiamos ter vivido e da forma como o deveriamos ter feito.
Viver um dia de cada vez, aproveitando tudo o que a vida nos oferece.
E sabe que acredito que dentro de alguns anos, não sei quantos, todas as aldeias e outras pequenas povoações vão reviver de novo com a vontade e necessidade de o homem regressar à vida na natureza?

Lisboa, Loures, Setúbal, Camarate, Almada,... Parece que o tempo está a voltar atrás, muito atrás. Inundações, mortes, muita destruição. Qual será a evolução nos próximos anos? será que alguém vai poder fazer alguma coisa válida para que tudo isto não se repita vezes sem conta? Será que há solução?
Se lembrarmos que o homem tem desrespeitado o planeta sem pensar em consequências, talvez se compreeda muito do que se passa. O efeito estufa, o facto de o gelo dos glaciares estar a derreter a uma velocidade assustadora,...
Embora não se possa fazer grande coisa, temos que ter consciência que as mudanças vão continuar. Será que a zona de Lisboa se vai aguentar sem ser engolida pela água do Oceano? Será que o nível do mar vai continuar a subir?


Penso nisto mas não me preocupo, não há motivo. O Alentejo terá sempre o Castelo de Marvão com o Pedro a ver tudo lá do alto com os seus binóculos. Amigo, quando vir a àgua aparecer lá bem ao fundo toque a corneta e chame nem que seja o pessoal do seu circo, esses têm mesmo que se salvar. Pessoas como eles há poucas.
Não precisa de começar a projectar nenhuma "Arca" salvadora, peça aos nossos aliados das naves espacias. Quem sabe, talvez estejam à espreita para o auxiliar.
Acredita em aliados externos, acredita em naves espaciais?
Só vendo,..., só vendo...

Um beijo e muita boa disposição para si.
Elisa

Goyi disse...

Garraiooooooooo! ¿ Qué te pasa? ¿ Estas malito o te has ido a pasar unos días con la Valen?...... vuelve a casa, te esperamos!

Pedro Sobreiro disse...

Mas minha querida Goyi…

Se tu sabes que foste uma das coisas melhores que me aconteceram desde que fiz o ninho aqui por estas paragens e só nós sabemos o quanto estamos a trabalhar para aproximar o nosso concelho e as nossas gentes.

Obrigado pelo que dizes e pela forma como o dizes e já sabes que se deixares fundar uma sucursal portuguesa do teu Clube de Fans, eu serei o sócio-fundador.

Admirador da tua força, da tua expressividade, da tua vontade, do teu querer e da tua natureza, tão feminina e tão espanhola, tão arrebatadora e cativante.

Quando olho para ti, te vejo a falar e a querer carregar tudo para a frente… dá-me vontade de mudar o mundo.

Vai correr bem…

Um abraço para a Elisa pelas confissões.

As melhoras ao nosso Garraio. Que malito está!

Um beijo a todos.

elisa disse...

Não eram confidências, eram desabafos.
Não me confesso a ninguém. Um beijo e tudo de bom


Elisa

Garraio disse...

... de quem eu gostooo
nem às paredes confessooo...

trelim tim tim... tim tim...


( ó marujus lusitanus, vai um cházinho de camomila, aqui na pastelaria conforto...??? )

elisa disse...

O chazinho de camomila até ia, mas prefiro um café bem tirado.
E tem razão, neste momento de quem eu gosto nem às paredes confesso porque não há confissão a fazer. E por certo não seria aí de Santo António porque pouca gente aí conheço, as pessoas que conheço daí têm actualmente mais daqui que daí.
Não sei se o seu comentário era para mim mas por certo foi...
Parece que ser mulher continua a ser preconceito e a levar a más interpretações, ou será que não? Devo estar enganada, se estiver peço desculpa.
Prazer em saber que leu o anterior. Tudo de bom para si também, mesmo sem o conhecer, aliás nem ao seu amigo pedro conheço.
Mas por mim está bom assim.


elisa

Garraio disse...

Elisa,

Espero que não interprete mal as minhas palavras, elas não iam no sentido da provocação ou do preconceito machista, que é uma coisa que me repugna solenemente.

Notei que se “sentiu” com o meu comentário, o que me deixa numa situação deveras embaraçosa e vou tentar, por todos os meios, recolocar “a loiça” onde ela realmente deve estar.

A Elisa não me conhece, mas na verdade, não perde nada por isso. Se fizer uma pequena análise da minha participação neste blog, facilmente há-de chegar a essa conclusão. Depois me dirá de sua justiça.

Eu tenho uma vantagem sobre si. É que eu já a conheço. Pelo menos um bocadinho, já a conheço. Porque a Elisa teve a coragem de entrar aqui, nesta casa, e botar discurso sobre coisas que mexem consigo, que lhe importam, coisas que a fazem rir e chorar, da sua vida em suma. Essa abertura, permitiu conhecê-la ainda que fosse só um bocadinho, não só a mim, como a outros clientes desta tasca, pastelaria, para farmácia ou estação de serviço, chame-lhe como quiser.

Competiu, como é das normas, ao anfitrião Pedro responder-lhe, até porque foi a ele que a Elisa se dirigiu. Mas todos nós gostámos das suas intervenções, da sua expressividade, da sua clareza, da sua sinceridade.

O meu comentário, em tom brincalhão, convidava outro bloguer para “disparatar” um bocado, sendo que dizer disparates é uma das coisa para a que se me pode convidar. Acho que nasci para dizer (e fazer ) disparates. Mas, cada um tem a sua sina.... (sina!?!?!?) e esta é a minha. E, por vezes, até me divirto dizendo disparates...

A brincadeira “ englobava” também uma piadinha para a Elisa pelo facto de ter refutado tão veementemente a expressão “confessar” utilizada pelo nosso Grande Chefe Pedro. Isso foi uma grande falta de atenção da sua parte, Elisa.


Atão, não leu as nossas brigas por cása da Srª. de Fátima!?!?!?

(Ciaozinho, volte sempre, vou-me embora que já estou a disparatar sobremaneira... )

elisa disse...

Iço a bandiera da paz. Mas pelos vistos não concordo consigo, parece que perco por não conhecê-lo. E gosta de escrever. Não levo a mal qualquer comentário, mas de vez em quando também gosto de "guerrear" um pouco, no bom sentido da palavra, mas se me conhecesse deveras saberia que sou do mais pacífica que existe. Quanto às brigas por causa da Srª de Fátima, não tenho conhecimento, peço desculpa. Não me sinto atingida ou culpada por falta de atenção quanto ao refutar da palavra confissão, simplesmente fui de novo genuína ou se quizer sincera porque não sou defensora de confissões. Eu falo do que quero, do que me apetece, do que gosto, do que me faz sentir alguma coisa, mas não gosto mesmo nada que me forcem a contar ou "confessar" coisas de que não me apetece falar. Normalmente associa-se a palavra confissão às confissões dos pecados mortais que a igreja condena. Como eu não peco e não acho que os erros dos homens sejam pecados nem devem ser entendidos como tal acabo por não gostar muito da palavra confissão. Só isso, mais nada. Não sei se a vossa discussão àcerca da Sra. de Fátima está por aqui registada, se estiver vou cuscar, se não estiver paciência. Agora sou eu que peço desculpa pela minha ignorância.
Não se preocupe com a loiça que está toda no lugar sem nehuma esfoladela.
E na minha opinião uns pontapés na loiça de vez em quando fazem esclarecer muita coisa, ou não?

E por favor, no stress , está tudo na maior.

Beijos

Elisa

Isabel disse...

Pedro , quando ontem te vi na televisão comentei com os clientes do meu café cá está uma pessoa da minha aldeia que eu não vejo para cima de 15 anos . Abandonei a Beirã ja vai para 20 anos , mas a minha terra será sempre a Beirã dos tempos aureos cheia de vida e em que funcinavam as duas partes da escola . Procurei hoje na net e as tuas fotos fizeram me chorar porque tambem conheci todas as pessoas que se encontram nessas fotos . Beijinhos Isabel Miranda ( é possivel que não te recordes de mim , mas eu sou a irmã do Miguel e do Jorge )

Pedro Sobreiro disse...

Olá Isabel!

Como não me vou recordar de ti? Claro que sim! Realmente, já passaram muitos anos sem te ver mas tenho a clara ideia de ti, de como eras nesse então.

Estás boa? Que é feito de ti?

Sabes, eu e o teu irmão temos falado em organizar um almoço com o pessoal que cresceu na Beirã, para matarmos saudades, conhecermos as famílias e confraternizarmos. Como o tempo é sempre pouco e andamos constantemente a correr feitos loucos de um lado para o outro, o encontro tem ficado para trás…

Há tempos encontrei a Paula Abelho e ela também ficou entusiasmada com a ideia de nos juntarmos todos outra vez.

Quem sabe se agora não retomamos a iniciativa?

Grande beijinho e tudo de bom,

Pedro