quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

8 anos de... Leonor

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A pequena fez ontem anos. 8 anos.

Já não é bem só criança. É assim uma menina com um pé na infância e outro na adolescência. As prendas que pediu dizem tudo: um cd com os artistas da moda da pré-juventude actual (Hannah Montana, Selena Gomez, Demi Lovato, Jonas Brothers e afins…) e o Hospital das Barriguitas!

Fala pelos cotovelos, está respondona, teimosa e até nisso é divertida. Adora andar de patins pela casa fora, ver o Disney Channel (ao qual está colada horas a fio… o dia inteiro se deixássemos) e tudo o que sejam livros, revistas, música, filmes, playstation e internet. Na escola vai bem embora já tivéssemos oportunidade de perceber que ainda não é desta que temos um cérebro a matemática na família. É muito sensível, feminina e emotiva. É vaidosa, distrai-se com muita facilidade, é muito carinhosa e mimosa. É muito bonita e parecida com a mãe.

Às vezes ponho-me a pensar do que seria a vida se ela não existisse, o para quê ter uma casa daquele tamanho todo. Eu sei que é errado viver em função dos filhos porque eles jamais quererão carregar o fardo dessa responsabilidade. Todos os casos que conheço assim terminaram mal. Cada um tem de viver por si, sempre o mais próximo que possamos uns dos outros, sem exigências ou cobranças, celebrando as alegrias, mitigando as tristezas, caminhando passo a passo, lado a lado.

Que bom que é poder desfrutar dela e vê-la crescer…

Neste dia feliz, de festa, lembrei-me de uma coisa que escrevi há uns anos atrás e permanece actual.



Marvão, 12 de Fevereiro de 2003


Há muito que a sua presença se pressentia entre nós. Foi como se a conhecêssemos de sempre. O tempo começou a passar de outra forma desde a manhã em que espreitámos a caixinha branca do teste até hoje, dia em que a sua respiração, suave como um murmúrio, aquece o quarto onde dormimos os três. Há sonhos que por serem tão queridos se tornam realidade. Este é um deles…

Se tivesse que escolher um momento, de entre os milhares de maravilhosos de que são feitos os nossos dias agora, seria aquele quando o sono lhe foge a meio da noite e nos procura num soluço perdido. Ao acendermos a luz, sorriem-nos aqueles dois olhitos pretos e chamam-nos os braços que de seguida nos afagam. Depois, procura o seu ninho e adormece descansada, com ar triunfante, entre nós dois, de mãozinha na cara, corpo aconchegado e pés enrolados.

Era para ter sido Laura ou Matilde ou um rapagão futebolista se Deus tivesse feito a vontade ao avô João Manuel… mas que fazer se tinha carinha de Leonor quando a vimos pela primeira vez numa tarde quente de Julho, no dia a seguir à prova final das Finanças, na ecografia feita num consultório moderno da capital. Nessa tarde apaixonei-me por um nariz… que só voltei a ver em Dezembro, já a noite ia longa, num hospital quase vazio onde os bebés chegavam pela Ortopedia por terem o seu piso em obras. Como custou a passar esse dia 2, em que tanto pensei sozinho, sentado ao fundo do corredor… Que longa se fazia a espera e que ansiedade me entrou quando a pediatra subiu e entrou a correr pela enfermaria adentro. Já passava das 23h. Eu ali não podia ficar. Fui sorrateiro de porta em porta, esgueirando-me pelas sombras do corredor. Não podia perder O momento por nada deste mundo, com ou sem autorização. Seria a hora da Cris? Já não era sem tempo depois de um dia inteirinho torcido entre contracções. Eu sabia que o preço a pagar era alto. Se me apanhassem era cartão vermelho certo.

Mas não me enganei. Espreitei e vi o reboliço de volta da cama. A Cris impando, o médico sentado num banco, de frente para ela, cabeça metida entre as pernas, armado em guarda-redes antes do penálti, estudando as contracções e as enfermeiras rodando de um lado para o outro.

Uma delas, a nariguda com cara de bruxa viu-me, virou-se e disse: “Doutor, está ali o pai”.

“E…”.

“Diz que quer assistir”.

“Não pode. Diga-lhe que não temos espaço. Não vê que isto aqui é muito apertado? Ele é muito grande e não cabe cá. Isto não é a pediatria, nem a maternidade…”.

Ela dirigiu-se a mim e disse com ar grave: “Não pode estar aqui”.

“Eu daqui não saio. Eu conheço os meus direitos. Daqui não me arrancam. Eu não perco isto”.

“Mas o Dr. diss…

“Deixe-o estar! Venha-me mas é aqui ajudar…”.

Viste! Ainda bem! E assim fiquei… sem direito a bata, luvas ou tapa-tapa na boca. Foi mesmo a seco e directamente dali, da porta do quarto que assisti a tudo o que me deixaram.

Depois… que o bebé era muito grande… que a mãe estava cansada de tantas horas à espera… que assim não saía… que já era tarde para a cesariana… até que… “tragam os ferros!”.

“Os ferros?!?!?”, pensei para comigo. “Então mas isto é assim? Os ferros? Vão ferrar alguém?”. Os ferros eram uma torquez enorme que estava lá na prateleira de baixo de um armário. “Vão arrancar a minha filha com aquilo?”. Já me começava a faltar o ar…

Nesta altura brilhava uma piquena que devia de ser especialista em saltos (até tinha uma bata de cor diferente) que se atirava dum tropeço colocado ao lado da cama para cima da barriga da Cris quando recomeçavam as contracções. O médico ajudava ao baile: “Força Fernanda. Força que é desta. Força Fernandaaaa!”.

Ainda estive para lhe dizer que ela prefere que lhe chamem Cris mas cala-te boca!, não fosse o gajo dar o dito por não dito.

“Força, força… fooooorçaaa…” e olha! já se via a cabecita a querer sair quase, quase, quase e depois, se há coisas bem feitas na vida, uma delas foi aquela tesourada, tão atempada e certeira que a fez desaguar num instante cá para fora. Ai eu… que só pensava, “Não ma estrague que só tenho essa…”.

A cara de tranquilidade da Cris… Já imaginaram aquela cara? E eu sem saber o que dizer no meio de tanto sangue, tanta alegria e tanta confusão, valha-me Deus que isto não são coisas para homens, porra! Se fossem, Deus tinha-nos escolhido para podermos parir também e toda a gente sabe que nós não podemos.

Eis então que surgiu ela, dessa torrente de fumo e calor, até que aterrou cega pela luz nos meus braços, ainda a cheirar ao ventre da mãe. Os olhos… pareciam dois infinitos que me fitavam e varriam corpo e alma. Jamais esquecerei e é certinho, de cada vez que a memória me leva de volta a esse momento, todo eu tremo por dentro. Uma filha… minha… carne da minha carne, sangue do meu sangue, como um “eu” novo em ponto pequeno.

Deixei então de estar só dentro de mim para estar sempre comigo e também onde ela está.

Seguiu-se a aventura mais maravilhosa das nossas vidas com a chegada a casa, as primeiras refeições, os primeiros banhos, as primeiras toilettes, os primeiros medos… a responsabilidade. Bem digo que o tempo deixou de ser o tempo que era porque parece sempre que passaram anos mas também parece que passou a voar. Estranho…

A Leonor é assim… um sopro enorme de vida que nos faz rodar a todos. É tanta coisa junta que não se explica. Antes se suspira. A Leonor nunca foi muito de bonecos que adora pisar. Prefere o comando da televisão que quer sempre devorar, o teclado do computador, a máquina de lavar, o secador, o telefone e sobretudo os telemóveis. Recordista mundial de destruição de revistas (7 segundos!), é também atleta da chupeta de nível 2, com um domínio quase insuperável.

A Leonor é essa força gigantesca que nos consome e nos impele. É uma delícia que já anda e fala e se move com perícia em raides aéreos às esquinas dos móveis. “Eh quéi. Eh nã quéi!”. “Ah pá, Ah ma, ah ga”. Gostas? “Gó, gó, gó”. O Som da vaquinha dos pacotes de leite, o gatinho do livro, o cão, o pastor do quadro da casa da avó e o carrapito da Dona Aurora. Como faz o passarinho? Um “pi, pi” nervoso e estridente. Mal sabendo falar, ensinou-nos a soletrar e-s-p-e-r-a-n-ç-a a tantos que quase tinham esquecido o som da palavra. Vejo-a assim, montada nos baús ou a sprintar por entre os sofás. “Eu quéi”. Dizia que se chamava mãe. O banhinho com a bonequita Alice, o genérico das notícias da SIC, a senhora despida que toma duche no anúncio do Fa e o boletim meteorológico. Gosta de lavar os dentes e meter as gotas na vista como o pai, gestos diários que conhece ao pormenor depois de estudados com minúcia, com aquela carinha de espanto, cabecita inclinada para o lado, boquita aberta e olhitos sempre ávidos de tudo o que seja novo.

O calor de uma manhã fria de Sábado, a respirar juntinhos debaixo das mantas. A adorá-la…

Já tem um namorado que é só uma cabeça e mora na loja das tias da Beirã, dentro do armário do pão. Chama-se Boomer e foi em tempos um recipiente de chupa-chupas. É um gosto vê-la chegar e correr direitinha para o balcão gritando “eu quéi, eu quéi” e só pára quando vê a cara em cima do balcão, para de seguida lhe dizer o “Olháa” mais terno do mundo. Dá espectáculo garantido onde quer que vá, seja a tocar corneta na casa da Vó Zhira, no consultório do pediatra ou no Modelo, onde teima em arrancar das prateleiras tudo aquilo a que consegue deitar mão, sejam cassetes de vídeo, sacos de pão ou garrafas de lixívia. Quem é que é capaz de resistir a uma coisinha assim?

Dou por mim a querer para ela aquilo que sempre ouvi dizer que queriam para mim.

O que desejo mesmo é que seja feliz e saiba sempre luzir aquele sorriso contagiante que tem desde que chegou e é a sua imagem de marca. Li numa moldura que “Alguns procuram a felicidade. Outros criam-na”. Eu sei que a felicidade existe. Tem duas perninhas e até já sabe dizer que a primita que vem a caminho se chama Maria e está dentro da Tia Paula.

A vida há-de passar e fazer dela o que quiser. Só Deus sabe. Nós sabemos que não pode ficar sempre assim, mas esta Leonorzinha de palmo e meio há-de ficar gravada a fogo e guardada no cantinho mais bonito dos corações de todos aqueles que já conquistou.
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Ficará no meu também, como a melhor coisa que já me aconteceu na vida.
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Ela faz tudo valer a pena!

9 comentários:

Gi caldeira disse...

PARABENS... para a Leonor.

Parabens para os pais da Leonor.

Ao ler o texto, pensei que so um pai, o podia escrever.

Vem uma Alice a caminho, vão passar pela mesma experiencia, mas e aqui o "mas" é inevitavel, a vivencia vai ser diferente.

Amamos os filhos de forma igual, só que o 1º pela inesperiência, novidade, medo de não ser capaz, recordamos de outra forma.

Um beijo especial a Leonor pelo aniversário, aos pais toda a felicidade do mundo para a vossa familia.

Catarina disse...

Esta vai para as menina dos anos:

"Nasceu pequenino, para a incubadora
Tenho o pé partido(???), Doutora
Hospital Barriguitaaaaaaaassssss"

(onde esta música soa melhor é no chuveiro da piscina)

Parabéns Princesa! A tua festa foi linda!

nuno mota disse...

Daqui vai um beijinho muito grande para a Nônô e familia, carregadinho de saudades ....
Que sejais felizes !!!!!

Sónia disse...

Simplesmente LINDO!!!!!
Parabéns á pequena por ter uma familia que a ama e faz feliz!

Isabel I disse...

Tudo vale mesmo a pena, por eles e com eles. Serão sempre a razão porque somos, porque fazemos ou não, porque sim. São a nossa ilusão de eternidade. Somos nós, melhores. São únicos e muitos. São os nossos filhos e por eles vamos ao fim do mundo.E com os netos... nem lhe conto! Um beijo para a Leonor e para os pais Isabel I

g.s.r. disse...

Existe cosa mas bonita en el mundo que lleguemos a amar tanto como nuestros hijos.....?

Muitos parabens

Emma Serrano

g.s.r. disse...

Existe cosa mas bonita en el mundo que lleguemos a amar tanto como nuestros hijos.....?

Muitos parabens

Emma Serrano

Artur Sequeira Portela disse...

Parabéns à menina Leonor e aos pais dela!
Abraços.

Robson Lima disse...

Parebéns Leonor, feliz aniversário, muitos anos de vida! Está crescendo rápido heim! Um forte abraço a você e toda família. Beijos.