quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

O gajo que sabe mais do que um miúdo de 10 anos


Já me vou habituando à ideia de que na minha casa não sou eu quem manda na televisão e sei que isto é o princípio do fim da minha hegemonia: primeiro apanham o comando do dito cujo e dentro em breve passarão as duas a controlar e a determinar tudo aquilo que eu devo ou não fazer, se hei-de ir de soquetes de renda e calções à missa ao domingo, que tipo de cereais hei-de comer de manhã ou que cor de papel higiénico é mais apropriada para o meu feitio.

Para mim isto já é ponto assente, um facto consumado, uma verdade imutável da vida como envelhecer ou morrer.

A pequena então, tem requintes de malvadez enquanto controla o aparelho. De manhã a RTP2, os ratos Xia e Mia, a Rua do Zoo 64, a Ilha das Flores (que repete e ela volta a ver de tarde), enfim, tudo o que há disponível, ela apanha!

Ai queres revistas de imprensa e as notícias da manhã? Ah, ah, ah, ah! Patinho!

Até o trânsito… O que eu gostava de ver o trânsito quando estava em Marvão e morava a 2 minutos do emprego, contemplando aquelas filas intermináveis com meio-mundo enfiado dentro das quatro latas, à beira de um colapso, de um AVC, de um ataque de nervos. Eh, eh, e eu a comer uma torradinha e a beber um leitinho com chocolate e a pensar assim: papalvos! Ai querem cultura? Querem centros comerciais? Hospitais? Proximidades dos grandes eventos? Ofertas de emprego a pontapé? Então engulam, engulam esse fuminho e essas filas intermináveis que só vos fazem bem!

Até isso se me acabou.

À noite então, a coisa piora. Em vez dos desenhos animados, aquele crânio em ponto pequeno, aqueles olhos vorazes, aquela miniatura de gente, cola-se ao ecrã a ver as coisas mais abomináveis que possam imaginar: adora o Fernando Mendes, o concurso do Figueiras, os Malucos do Riso, o Prédio do Vasco e afins.

“Mas tu nem te ris! Porque é que vês essa porcaria? Sabias que isso são programas de humor? Isso é para as pessoas se rirem”.

“Eu não me rio mas gosto!”.

Complicado! Bom argumento!

Um dos seus preferidos é o “Sabes mais que um miúdo de 10 anos”, com o qual eu embirro particularmente.

Embirro porque estou farto de concursos de cultura geral que são servidos desde há uns anos a esta parte como se não houvesse mais nenhuma televisão depois deles. Embirro porque sinceramente não vou muito com o Jorge Gabriel, que se está sempre a fazer à fotografia e a tentar ser o filho e o marido ideal para todas as donas de casa portuguesas. Embirro porque os miúdos estão sempre armados em espertos e a gritar “Eu! Eu! Eu!” quando é para responder. Se aquilo fosse no meu tempo e a professora fosse a Dona Lurdes e mamassem uma reguada na tola de cada vez que errassem a resposta, não se armavam tanto em chicos-espertos. Ah!

Mas hoje, cá no meu cantinho do meu sofázinho, da minha salinha, à minha braseirinha, depois da corridinha, do banhinho e do jantarinho e do cafezinho enquanto lia o jornalito e as pequenas se recriavam quando o dito concurso estava no ar, comecei a prestar atenção aquilo pelo canto do olho.

O jingle promocional dizia: “será que é este jovem que ganha tudo?”.

“Um gajo que ganha tudo? Hum! Deixa cá ver. Quem será o espertalhão?”.

Nisto entra ele, de rompante pelo corredor. Não sei porquê mas simpatizei com o indivíduo. Era novinho, alto, magro, com uma barba farta e dois olhos fundos e simpáticos a sorrirem do meio daquela penugem toda. Ao contrário da maioria dos concorrentes que se aperaltam todos para ir à televisão, o mano este apresentou-se de t-shirt do mais simples que existe sem sequer um único dizer, calça de ganga e a maior descontracção do mundo.

Era simpático e educado. Respondia de forma cordata e com um sorriso grande.

Na pergunta introdutória que serve de apresentação, onde os concorrentes devem de falar de um facto, um episódio marcante da sua vida, contou que já esteve para quinar. Numas férias de Verão particularmente atribuladas, passadas em Albufeira com os avós, quando contava 16 anitos (idade terrível!), abusou dos seus conhecimentos acrobáticos no mergulho de despedida da época estival e deu uma cabeçada tamanha na areia que deslocou não sei quantas ossadas e vértebras e essas coisas todas. Chegou mesmo a ficar inanimado e se não fosse o helicóptero que o levou de urgência para Lisboa, para mim, já estava a tocar harpa há muito tempo, lá nas nuvens, para os querubins; para os outros frequentadores desta casa (marinheiros, bugas, cunhados, meninas e afins), já estaria a fazer tijolo, sete palmos e meio debaixo de terra, há ainda mais tempo!

Safou-se e ainda bem. Este era um ser humano com apresentação. Um bom exemplar da raça lusitana daqueles que gajos como eu, já entradotes e a caminhar para cotas, gostaríamos de ver para genro. (Foi a primeira vez que disse isto assim e até me arrepiei! Mas prontos…).

Quanto à ocupação, acho que disse que era qualquer coisa de agronomia e que dava explicações.

Dar explicações do 1º ao 9º ano é uma grande vantagem para este concurso, que é de dificuldade acrescida porque não dá alternativas de resposta, tipo cruzes: ou sabes, ou não sabes!

Mas bem, com esta actividade estaria em vantagem e revelou-o logo desde bem cedo.

Digo-vos com sinceridade que acho que teve alguma sorte nas perguntas. De todas as que respondeu, eu falhei apenas 3 e acertei inclusive num problema matemático do 4º ano que exigia diversas operações e que me permitiu afastar alguns fantasmas, digamos que … aritméticos (viste mãe?).

Acertou a forma como se escreve lixívia (facilito!); o plural de escrivão (tb fácil); que a carne era o alimento com mais calorias de um determinado grupo (mas conhecia com detalhe todos os outros alimentos. Notável!).

Falhou a data de introdução no mercado cambial do euro mas essa até eu falhava porque tenho uma memória muito fraca para datas. Foi salvo pelos miúdos! Para tudo na vida é preciso sorte!

Acertou que os animais como as lagartas andam por uma locomoção “não sei quê” que eu não sabia; acertou que o corpo humano tem 600 e tal músculos que eu também não sabia (sei que o pénis tem 2 e pouco mais. Acho eu…); acertou que foi o Rei D. Dinis que instaurou o português como língua oficial (e eu desconfiava dele porque era poeta e tal mas a Cristina sabia e contou resposta certa para nós) e muitas mais coisas até que chegou à pergunta derradeira.

A final! E a final funciona assim: quem chega à final já leva 2 mil contos em moeda antiga que para mim ainda é muito mais que 10 mil euros. Feito o câmbio, o gajo pode ver o assunto que lhe calhou e depois de decidir se vai, das duas uma: ou ganha e leva tudo, ou se perde, já não leva os 10 mil euros que dão para comprar um carro de gama baixa mas só leva 1.500 euros, ou seja, trezentos contos que na minha tabela de correspondência monetária equivalem a um LCD de 102 centímetros, um portátil e uma máquina fotográfica. É uma escolha complicada e difícil, ou seja, difícil e bastante complicada!

Saiu “História” e confessou ele que tinha reflectido anteriormente e estabeleceu que se chegasse a esta fase do jogo e saísse “História”, ele não aceitaria avançar.

Pensou, pensou, pensou…………………………

(suspense)
……………………..

(suspense)
………………….....
e disse que ia a jogo.

“Bravo!”, disse eu “é um gajo com eles no sítio!”, e isto só pensei, não cheguei a afirmar porque a Leonor estava mesmo aqui ao lado e já estava ver o que diria de seguida: “ó pai, com eles onde? O que são esses eles?”.

A pergunta do Gabriel era algo do género “como se chamam as ilustrações que os monges do século XIII copiavam para os livros manuscritos?”.

É óbvio que eu e todos os terráqueos vivos que já nos deixámos apaixonar pela genial obra de Umberto Eco, “O Nome da Rosa”, sabíamos a resposta de caretas. Era de olhos fechados. Sem falsas modéstias. Eu respondi logo e elas são testemunhas e não é de Jeová.

O rapaz pensou, pensou e confessou que embora tivesse trabalhado durante 2 anos como guia turístico no Convento dos Capuchos (grande ajuda! Digo eu!), não se lembrava da palavra.

Merda!

Baixou a cabeça, pensou, pensou e de repente, fez um gesto como se já estivesse e os olhos encheram-se de lágrimas. Fez-se luz! A emoção era tanta que teve de morder o lábio para não começar a chorar como uma criança. Viu-se claramente que tinha a certeza. Momentos depois haveria de confessar que houve uma vozinha dentro dele que lhe soprou a resposta.

“A sua resposta é…”.

A minha resposta é: Iluminura!

O quadro apagou-se por segundos… e de seguida surgiu a palavra “Iluminura” que fez todos explodir numa alegria contagiante.

Nesse mesmo instante, dobrou-se e agarrou-se ao apresentador a agradecer, lavado em lágrimas. Agradeceu ao público e às crianças da sala, uma a uma, algumas das quais também choravam de emoção, não conseguindo esconder o que lhes ia lá dentro.

Foi um momento enternecedor e comovente, dois mais bonitos que eu me lembro em televisão assim nos últimos anos. Ah… foi maravilhoso!

Acho que a magia da televisão é isto mesmo, um gajo está muito descansadinho em casa e leva um pontapé destes... no tal sítio.

É bom!

Disse então que quando era miúdo tinha a mania que lhe havia de sair o totoloto. Quando saiu da clínica, depois do acidente, já livre de perigo, os médicos disseram à mãe que de facto lhe tinha saído essa sorte grande. Hoje, ou lá quando o programa foi gravado, saiu-lhe outra vez. Ainda bem, porque por mim, é mais do que merecido.

Esqueci-me de dizer que o seu nome é Pedro mas acho que isso não importa nada. Ou será que sim?

Boa gente!

Diz o ditado que “se não as consegues vencer… junta-te a elas”. Os “Malucos do Riso” ainda não me convenceram mas acho que vou passar a sublinhar este programa a marcador na TV Guia da semana que vem.

E se não me esquecer, amanhã mesmo hei-de ir daqui a Rio de Mouro inscrever-me nas explicações do meu homónimo, porque o saber não ocupa lugar.

E que bom que é ouvir cantar quem sabe!

Parabéns, campeão!

5 comentários:

Luís Bugalhão disse...

e quando cá vieres à explicação (não venhas à hora de ponta, que o ic19 não é para meninos, e as overdoses de monóxido de carbono não se adequam a quem deixa de fumar, e de beber, e de ...) não te esqueças de passar por minha casa, para beber uma aguardente de medronho, oferecida neste natal (e que ainda só vai a 2/3... vazia). é que o teu homónimo é meu conterrâneo!
cá vai a minha morada: rua mário de sá carneiro, 7, 2ºA, Paiões, 2635-264 rio de mouro.

abraço

ps o 'não sei mais que...' é um dos programas que mais vejo, na companhia das gaiatas claro. e tenho passado muitas vergonhas, embora exiba sempre aquele ar de sabão que leva a que a catarina, a mais nova, me pergunte constantemente 'ó pai, pq é que não vais lá? tu sabes tudo!'. descontando o orgulho que sinto (pelas palavras dela, não pela omnisciência, isso é coisa do divino, cruzes canhoto!), acho que é um programa engraçado. pena o jorginho ser tão azeiteiro, mas nunca se pode ter tudo.

Tany disse...

também costumo ver o programa e admito... eu não sei mais que uma criança de 10 anos :P

e também me emocionei com a emoção do rapazito ontem... via-se no rosto dele e dos demais presentes no programa a alegria que circundava por ali...

em relação ao apresentador, para mim qualquer um/a que não seja: Goucha, Fátima Lopes e Júlia Pinheiro já serve :) azeiteiros são esses sim que fazem programas da treta que nem lembram ao menino jesus (ou outro "divino" qualquer)

John The Revelator disse...

Isto tá animado... o post do barradas fez sucesso. Já sabes que quando a tasca ficar com poucos clientes a solução é escrever sobre ele. Quanto a este post, cada um com o seu talento. O teu claramente é escrever. Só assim se pode explicar como é que eu, que não vi o programa, também me emocionei. E até fiquei a gostar do amigo. Já agora, tenho aparecido pouco porque estou a dever umas datas, e porque não se pode fumar. Ou
pode?
Rebenta lá com mais uma data e aponta numa barra de gelo que eu pago para a semana.

Goyi disse...

Mi pueblo está a 10 Kmts de Portugal y aunque somos bastantes las parejas mixtas de ambos paises, siempre hemos vivido de espaldas a ellos, los españoles hemos sufrido durante siglos un complejo de superioridad que nos ha impedido acercarnos. Quiero que luchemos por conseguir trabajar juntos, estudiar juntos, abogo por el bilinguismo sin complejos, intercambios estudiantiles, ocio, paquetes turísticos conjuntos, educación, sanidad precaria en ambas zonas muy alejadas de los Hospitales, Universidad, etc. etc... .... muchos proyectos que solos jamás podríamos realizar.

Espero que Valencia de Alcántara levante el vuelo de una vez, ya nos toca, y quiero que lo hagamos unidos a Marvao, Castelo de Vide y Portalegre, que nos quedan mucho más cerca que el resto de España.

!Ojalá podamos contar con tu ayuda!

12 de enero de 2008 0:43.


Algunos paisanos vuestros escriben también en el Blog del PRESIDENTE DE LA JUNTA DE EXTREMADURA, el os contestará personalmente, si teneis algo de que decir pasad por allí. Sale directamente blog de fernandez vara

Pedro Sobreiro disse...

Minha querida Goyi,

Estarei disponível 24h/dia para aquilo que tu e os novos representantes do povo de Valência de Alcântara entendam. Concordo totalmente contigo. Este é o momento de começarmos já a trabalhar em conjunto.

Os meus contactos são:

Pedro Sobreiro

móvil - 00351 96 808 84 59

mails:

pedro.sobreiro@cm-marvao.pt

cultura@cm-marvao.pt


Disponham!

Grande abraço,

Pedro